Zika e desenvolvimento da visão nos primeiros mil dias de vida

Vamos contar a história de Helloá, que deixou de lado as lentes com grau de 10 e passou a usar óculos com graus bem menores. Isso só foi possível graças ao trabalho de estimulação visual que progressivamente ajuda a pequena a alcançar a sua capacidade máxima de desenvolvimento da visão e, consequentemente, de outros sentidos e habilidades motoras, a fim de driblar dificuldades para exercitar o corpo e a mente.

“Verificamos que a maioria das crianças acometidas pelo vírus tem deficiência visual de moderada a severa e precisa de óculos. É um problema relacionado ao cérebro, pois há até aquelas sem lesão na estrutura do olho e com baixa da acuidade visual. Ou seja, o olho é a extensão do cérebro e, se este não consegue processar a imagem, pouco importa a imagem que é vista”, esclarece a oftalmologista Camila Ventura, que tem acompanhado a saúde visual dos pequenos pacientes. No Centro Especializado em Reabilitação da Fundação Altino Ventura, no bairro da Iputinga, Zona Oeste do Recife, cerca de 280 crianças afetadas pelo zika já receberam assistência – e metade delas participa das sessões de reabilitação na instituição.


As terapias de estimulação visual ajudam Helloá a alcançar a sua capacidade máxima de desenvolvimento da visão e, consequentemente, de outros sentidos e habilidades motoras

“Todo o estímulo visual começa com atividades de alto contraste (preto e branco) e luz. Nos primeiros meses, fazemos exercícios com lanternas e, aos poucos, vamos trabalhando com outras cores e com distanciamento de objetos para possibilitar aumento do campo de visão”, diz Camila Ventura. A análise da oftalmologista revela que muito do potencial da criança depende dos danos neurológicos que ela tem por causa da infecção congênita. “A gente estimula para que cada uma alcance sua capacidade máxima de desenvolvimento. E essa intervenção precoce vale a pena. Dá até orgulho de falar sobre o que já foi feito e alcançado. A sementinha está dando fruto: essas crianças estão melhorando, o que nos estimula bastante a continuarmos com o nosso trabalho”.

O depoimento de Camila Ventura descreve exatamente o que tem acontecido com a pequena Helloá, 2 anos e 6 meses. “Quando começamos a cuidar da visão dela, aos 6 meses, o grau de um dos óculos era 9,5; o outro, 10. Quando passou para as segundas lentes, o grau baixou e ficou em 7 e 7,5. Agora ela usa óculos com graus de 1,5 e 2,5. Percebo que hoje ela fixa mais o olhar para as pessoas e acompanha os brinquedos, o que não conseguia fazer antes”, relata a mãe de Helloá, a dona de casa Thayllanne Midian dos Santos, 27, que mora em Paulista, município do Grande Recife. “Ela também já senta, embora não fique tão ereta. Outro avanço é que ela já pega os objetos e, quando derruba, vai atrás deles.” Os ganhos no desenvolvimento de Helloá são fruto das atividades diárias. “Ela faz hidroterapia, fono, fisioterapia motora, trabalhos visuais e terapia ocupacional. Tudo isso tem ajudado”, conta Thayllanne.


A oftalmologista Camila Ventura ressalta que, com as atividades de reabilitação em andamento já há um tempo, especialistas têm agora que capacitar a criança de acordo com o que ela pode alcançar

Ações conjuntas de reabilitação têm sido essenciais para se avançar no amadurecimento global dos pequenos. “A visão (sob controle) estimula muito a parte motora. Os danos nos olhos fazem com que a criança não tenha interesse pelo ambiente do qual faz parte. Consequentemente, se houver baixa de acuidade visual, ela não se sente incentivada para engatinhar, sentar e andar”, frisa Camila Ventura, cheia de fé ao observar, mesmo que lentamente, os progressos dos pacientes. “A reabilitação traz uma cadeia de acontecimentos positivos. Melhorando a visão, a criança tende a progredir na parte motora e em outras áreas do desenvolvimento. Ver isso nos alimenta de esperança”, destaca a oftalmologista.



 

“Eu luto pelo amanhã dela”

Thayllanne Midian dos Santos, mãe de Helloá, em depoimento a Cinthya Leite



Quando Helloá nasceu, em uma maternidade em Abreu e Lima (município da Região Metropolitana do Recife), eu estava na 38ª semana de gestação e nem imaginava que ela teria microcefalia. Afinal, a minha gravidez foi toda normal. Tive manchas vermelhas no corpo, sem algo mais, quando estava perto de chegar ao 3º mês. Desapareceram rapidamente. E as ultrassonografias que fiz, durante a gestação, também não mostraram alterações. Logo após o nascimento, ainda na maternidade, disseram que Helloá tinha uma cabeça menor do que o esperado (o perímetro cefálico era de 29 centímetros; a medida adequada é que seja maior do que 31,5 centímetros). Com a alta da maternidade, fomos para casa e, quando a levei para a médica do posto de saúde, recebi encaminhamento para Helloá ser consultada no Imip (sigla para Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, localizado na Boa Vista, Centro do Recife). Só consegui atendimento quando ela estava com 3 meses. Foi no Imip que tivemos a confirmação: Helloá tem microcefalia. Com esse diagnóstico, fiquei desesperada. Chorava muito. Deixei de trabalhar como auxiliar de costureira para me dedicar totalmente a ela. E a todo o tempo, pensava: ‘Como vou ter condições de cuidar dela?’. Hoje em dia, estou mais tranquila. A minha cabeça é outra: agora eu só penso em lutar por ela; pelo amanhã dela. E vejo que, à medida que o tempo passa, alcançamos vitórias. Os ganhos também vêm graças da minha família. Tenho suporte da minha mãe, da minha sogra, da minha tia… E quando eu contei para o meu marido sobre a microcefalia, vi que a reação dele foi a melhor possível: ele ‘agarrou’ a situação e aceitou tudo. Foi ele que me deu força. Nos primeiros meses de vida de Helloá, foram muitos exames, e cada um (profissional de saúde) dizia uma coisa. Isso desesperava. Com o passar do tempo, tudo foi mudando. A cada dia, vejo a minha filha superando desafios. Faz sessões de fono e fisioterapia, além de atividades de reabilitação visual, de terapia ocupacional e hidroterapia. Com o kit de estimulação (inclui itens como tapete, bola suíça, lanterna, placas, bonecos, almofadas e brinquedos musicais), faço atividades com ela em casa uma vez por dia. Coloco Helloá sentadinha (na calça de posicionamento, que oferece simetria para um posicionamento correto de cervical e tronco) e ela fica bem calminha. Digo à minha mãe que Helloá tem vontade de viver; ela luta por ela mesma. Isso é uma grande evolução. Se eu for pensar nos avanços, vejo que ela já pega (os objetos), abre mais as mãos, começou a olhar fixamente para as pessoas e a conhecer todos que vivem à sua volta, como pai, mãe, avó e avô. Ela sabe quem é cada pessoa. Quando completou 1 ano e 5 meses, começou a falar ‘mamã’ e repete sempre que está chorando. Fico muito orgulhosa; chega me dá vontade de chorar. É assim que a gente percebe que todo o trabalho de estimulação, realizado desde os primeiros meses de vida, dá resultado. E tenho certeza de que, mais para frente, a minha filha vai dar outros avanços, pois ela sempre se adapta e responde a tudo o que é terapia. É por tudo isso, Helloá se tornou o amor maior da nossa família.



Assista ao programa, na TV JC, sobre esta reportagem especial:

Em Pernambuco, 124 recém-nascidos com sinais sugestivos da síndrome congênita do zika foram a óbito. Infelizmente, eles não tiveram a chance de alcançar o 1º mês de vida. E entre as 437 crianças com o diagnóstico confirmado da síndrome, muitas têm se desenvolvido e já atingiram (ou estão prestes a completar) os seus primeiros mil dias de vida. Sobre o tema, a jornalista Cinthya Leite entrevistou, ao vivo, no programa Casa Saudável da quarta-feira (14/3/18), a oftalmologista Camila Ventura e o neuropediatra Lucas Alves.


Expediente

13 de março de 2018

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