Planejamento
financeiro

Viagem exige planejamento e antecipação

Especialistas afirmam que conhecer outros lugares não precisa ser caro, contanto que haja preparação

Fazer as malas e embarcar para uma viagem é o sonho de muita gente. Não importa se nacional ou para fora do País. Sair de casa e desbravar outros lugares é vivenciar a expectativa de encontrar novas experiências culturais e humanas. Em função do atual cenário econômico no Brasil, no entanto, esse desejo pode, por vezes, ser adiado ou deixado de lado. Entretanto, para especialistas em finanças, existe um condutor capaz de guiar o turista na busca pela realização desse desejo: o planejamento. Com foco e organização, acreditam, é possível encontrar destinos e pacotes que se adequam às características e necessidades de cada pessoa. Esse é um dos segredo para conhecer o mundo.

O empresário Flávio Neves, de 52 anos, é um apaixonado por viagens e segue com rigor a receita para conseguir o sonhado objetivo de visitar outros lugares do globo. Ao lado de sua esposa Luciana já conheceu 30 países em pouco mais de 20 anos. “Quando a gente viaja, conhecemos pessoas diferentes, vivenciamos situações históricas, provamos a gastronomia local e voltamos para casa com a mente relaxada”, avalia o empresário que, ao longo do último ano, fez três viagens – uma para a Tailândia, a segunda para a Chapada Diamantina e a última para o Uruguai. Experiente no assunto, Flávio tem, na ponta da língua, o passo a passo para uma boa viagem. “É preciso tempo. Para viagens internacionais, costumo me planejar por um ano. Primeiro, nós discutimos para onde queremos ir, depois avaliamos quais atrações queremos conhecer no destino. Em seguida, somo os gastos com passagens aéreas e hospedagem e começo a pagar tudo. Gosto de chegar no dia da viagem com tudo quitado”, explica.

O casal tem dois filhos. Maria Eduarda, de 22 anos (que está terminando um intercâmbio na França), e Felipe, de 17. Para fazer viagens com todos juntos, também há estratégias. “Não temos uma época do ano determinada para viajar. Em geral, costumamos optar pelos períodos de baixa temporada, quando as diárias de hotéis e passagens estão mais baratas”, comenta Flávio. Além disso, o longo tempo de planejamento serve para monitorar e encontrar os melhores preços das passagens. “Também criei o hábito de usar bastante o cartão de crédito para ter pontos e trocar por diárias em hotéis. Na maioria das vezes, eu praticamente não gasto com hospedagem por conta disso”, conta o empresário, que está nos últimos preparativos para ir buscar a filha do intercâmbio na Europa.

Para a professora Amanda Aires, cartão de crédito não é recomendado. Foto: Luiz Pessoa/JC360

Para a economista Amanda Aires, professora da UniFBV, a estratégia de Flávio é a mais importante. “Ter planejamento é fundamental para ter uma viagem tranquila. Quando se tem tempo para pesquisar, às vezes, é possível encontrar passagens 50% mais baratas de um dia para o outro. Também dá para acompanhar a variação da moeda local e fazer a conversão quando o real estiver valorizado”, sugere. Segundo a economista, durante a viagem, o melhor é esquecer do cartão de crédito. “O problema é que, além de pagar o câmbio no dia do pagamento, o turista ainda precisa arcar com o acréscimo de 6,38% do imposto sob transações internacionais”, esclarece.

Ainda de acordo com Aires, durante o planejamento da viagem, o ideal é reservar até 20% da renda mensal do turista para quitar os gastos. “Você precisa calcular quanto vai gastar e ir reservando parte da sua renda para pagar tudo. Com isso, você consegue se planejar e saber se vai conseguir pagar a viagem em um ou dois anos, por exemplo. Não é recomendado comprometer mais de 20% da renda, porque é preciso pagar as outras contas do dia a dia”, afirma, concordando que o ideal é “colocar o pé no avião com tudo pago”. “No final das contas, o importante é avaliar a condição financeira que você tem. Não precisa deixar de viajar, basta calcular o quanto se pode gastar e ir. É um lazer importante”, finaliza.

Hora de rever as contas

Quem está com mais problemas financeiros e não consegue viajar no curto ou médio prazo pode aproveitar as férias para reorganizar a vida financeira. O economista Brenno Almeida explica que o tempo de recesso é suficiente para uma auditoria nas contas pessoais. “É preciso pegar a fatura do cartão de crédito dos últimos meses e ver com o que você mais gastou. Na correria da rotina, as pessoas não costumam fazer isso. Nas férias, você pode analisar se está gastando muito com restaurante, por exemplo, e se organizar para, na volta ao trabalho, passar a levar a comida pronta de casa”, argumenta.

Ainda de acordo com Almeida, as férias podem ser usadas para a avaliação de possíveis mudanças na própria casa. “É a hora de ver se não dá para trocar as lâmpadas e trocar o ar-condicionado pelo ventilador para ter mais economia de energia ou trocar alguma estrutura de encanamento para evitar desperdício de água”, argumenta.

Além de pensar as viagens, Flávio também analisa com cuidado as contas da casa. Foto: Acervo pessoal

Os economistas são unânimes ao dizer que o importante é colocar tudo no papel e saber entender limites. Flávio Neves, por exemplo, chega de uma viagem já pensando nas próximas, mas sabe a hora certa de fazê-las. “Eu tenho roteiros para vários países. Tenho amigos que querem viajar em janeiro do próximo ano, mas não sei se vou porque já vou ter essa viagem agora para a Europa. Ainda tenho que colocar tudo no papel e avaliar se será possível”, afirma cuidadoso. “Agora, não é só viagem internacional. Tem lugares lindos que podem ser conhecidos em um fim de semana aqui pelo interior. Existem trilhas super legais em Bonito e em Buíque. Tem viagem para todo bolso, basta se organizar”, finaliza o empresário.

Dicas para planejar finanças

  • Aproveitar as verbas salariais de férias, como o adicional de 1/3 e a antecipação de 13º, para liquidar dívidas em atraso ou dar o sinal em eventuais renegociações com juros menores que os atuais;
  • “Auditoria” nas contas: verifiar atentamente os gastos nos últimos seis meses, observando os gastos com cartão de crédito, lojas de departamento, custos fixos, etc;
  • Cuidar da manutenção da casa buscando procurar reparos a serem feitos nas instalações hidráulicas e elétricas visto que problemas dessa natureza evitam despesas maiores com a conta de energia elétrica e de água;
  • Fazer uma limpeza nos armários e depósitos identificando itens fofra do uso para descartá-los e até vendê-los, podendo garantir uma renda extraordinária;
  • Por fim, preparar um plano para guiar a utilização dos recursos no semestre seguinte tendo em vista que no final /começo de ano há despesas as quais precisam de um orçamento organizado.

 

O estágio que se converte em viagens

Estudante de direito administra bolsa de R$ 850 mensais para realizar sonho de conhecer outras culturas

A curiosidade em conhecer o ser humano em todas as suas versões tem feito a estudante de direito Adria D’Angelis, 21 anos, superar qualquer obstáculo. Nos últimos dois anos, a jovem que mora no Recife com a mãe já viajou para os estados de Alagoas, Rio Grande do Norte, Bahia, Paraíba, São Paulo e duas vezes para o Rio. Isso não é tudo. Em agosto de 2017, ela passou um mês distante quase 15 mil quilômetros do Brasil. A Índia foi o destino de sua primeira viagem internacional. Descobrir as idiossincrasias do budismo e do hinduísmo era um sonho antigo. O mais interessante é que Adria custeia todas as viagens sem ajuda de ninguém, administrando a bolsa que ganha como estagiária em um órgão público federal. Menos de R$ 900 por mês.

“Viajar é a minha prioridade e isso me faz muito bem. Quando comecei a viajar, fui descobrindo muitas coisas difíceis de perceber quando ficamos somente no mesmo lugar. As pessoas são diferentes e cada região tem suas características. Não tenho dúvidas de que conhecer esses lugares me torna um ser humano melhor”, garante Adria. A fim de concretizar seus sonhos, a estudante calcula cada centavo que ganha. Hoje, ela recebe uma bolsa de R$ 850, mas já teve que viajar com uma renda mensal de R$ 640 do antigo estágio. “Tudo é uma questão de saber o que você quer. Eu guardo boa parte da bolsa para viajar e evito outros gastos como festas. Quando tenho que me divertir aqui no Recife, opto por andar de bicicleta ou ir para a praia, que são programas mais baratos”, explica. Na viagem para a Índia, Adria ainda nem estagiava. “Eu raspei o dinheiro que tinha na poupança e peguei o dinheiro que minha mãe ia me dar para tirar a carteira de motorista para fazer a viagem”, lembra orgulhosa. “Valeu muito a pena!”, afirma.

Adria pensa agora em conhecer Portugal. Foto: Acervo pessoal

Na Índia, a jovem conheceu três estados diferentes do país e se surpreendeu com a generosidade do povo. “Os templos são incríveis, as danças, os temperos e as cidades, mas nada supera as pessoas. Para você ter uma ideia, quando conheci o Taj Mahal, meu sari (roupa tradicional usada por indianas) estava caindo e, ao perceber isso, algumas senhoras me ajudaram com todo o cuidado, tirando seus próprios broches para colocar na minha roupa”. Adria valoriza tudo o que aprende nas viagens, mesmo quando são nacionais. “É tão interessante ver como São Paulo é diferente daqui. Tem academia que funciona 24 horas, restaurante 24 horas. Lá as pessoas não param”, diz.

Em todas estas viagens, Adria prioriza conhecer a cidade e deixa o luxo de lado. “Para me hospedar, eu opto por aplicativos que oferecem aluguel de quartos. Geralmente, eu passo o dia na rua e só volto para dormir, então não faz sentido pagar caro por um hotel. Eu também não gasto com restaurantes caros. O mais legal é viver a cidade”, conta a estudante.

Outra forma de economizar é dividindo os gastos da viagem. Adria costuma viajar acompanhada do namorado ou amigas e aproveita feriados prolongados para cair na estrada. “No 1º de maio, fui com meu namorado para Salvador visitar minha irmã, que está morando lá. Fomos de carro atravessando o litoral de Alagoas e de Sergipe. Foi uma experiência muito legal porque a gente foi parando para conhecer as praias”, explica.

O próximo desafio de Adria é juntar dinheiro para um intercâmbio em Portugal. “Estou pensando nisso com outras três amigas com quem penso em dividir as despesas. Ainda precisamos calcular tudo. Se a gente bater o martelo e decidir ir vou ter que parar de fazer essas pequenas viagens e destinar todo o dinheiro do estágio para o intercâmbio”, calcula, defendendo a importância das viagens. “Não é para postar nas redes sociais. Não é status. É por conhecimento”, analisa.

Jornal do Commercio