Estilo de vida

Férias: período ideal para começar a busca por maior qualidade de vida

Especialistas defendem que a pausa na rotina seja usada para mudar o comportamento e sair do sedentarismo

A rotina normalmente saturada de compromissos faz com que as férias sejam vistas como um dos momentos mais esperados por quem estuda trabalha ou faz as duas atividades. Por mais amor que se tenha pelo ofício, é natural que períodos de descanso sejam importantes para viajar, se divertir e aproveitar mais a família e os amigos. Profissionais de saúde, contudo, defendem que a pausa na correria também possa ser usada para o início de uma mudança de comportamento. A ideia, segundo os especialistas, é otimizar o tempo das férias para começar e se adaptar à prática de um esporte, melhorando, assim, a alimentação e reduzindo os problemas de saúde. A intenção não é ficar malhado rapidamente, mas aproveitar o período para começar a ganhar maior qualidade de vida.

O argumento de se utilizar as férias para começar uma atividade física tem motivo. Levantamento feito pelo Ministério da Saúde e divulgado em abril passado apontou que quase 35 mil mortes registradas no Brasil, no ano de 2017, podem ter sido influenciadas pelo sedentarismo – condição caracterizada pela ausência de exercícios físicos e que pode se relacionar com doenças como diabetes, hipertensão, obesidade, osteoporose, câncer e disfunção erétil. O período de pausa nos afazeres cotidianos se torna um aliado na luta contra este problema, uma vez que, com mais tempo livre, o indivíduo pode aproveitar para conhecer e planejar o incremento dos exercícios na volta ao trabalho ou à escola. Sempre com o acompanhamento de um especialista.

Não é preciso começar os exercícios de maneira intensa. A ideia é praticar algo leve. Foto: Luiz Pessoa/JC360

“As pessoas não precisam e nem devem começar com uma atividade de alto impacto. Nas férias, o aluno pode começar na academia com exercícios leves e aproveitar que não tem as responsabilidades do dia a dia para se adaptar, por exemplo, às dores musculares, que são comuns, e ao tempo que leva para executar a atividade”, afirma o professor de musculação André Gomes. Para o profissional, algumas modalidades são mais indicadas para quem quer começar. “Além da academia, caminhada e andar de bicicleta podem ser uma excelente porta de entrada. A pessoa pode ir caminhando até um ponto turístico da cidade que mora ou até mesmo pedalar em alguma cidade, quando estiver viajando”, sugere.

Segundo a OMS, 47% da população brasileira não pratica exercícios físicos de modo suficiente para se manter saudável. Até pouco tempo, a administradora Marcele Japiassú, 50 anos, estava neste grupo e sentiu que precisava mudar. “Eu malhei por muitos anos, mas parei depois que casei, tive filhos e comecei a trabalhar. Fiquei mais de 10 anos sem me exercitar e isso não era bom. Tinha uma alimentação saudável, mas sentia que faltava algo. Uma vez, em uma viagem a Portugal, por exemplo, tive que subir uma escadaria e fiquei muito cansada. Senhoras com 70 anos pareciam mais dispostas do que eu”, lembra.

Em janeiro deste ano, durante as férias, Marcele decidiu voltar a praticar musculação. “Foi muito bom aproveitar que não estava trabalhando para conseguir me adaptar e organizar a rotina. Agora, estou muito melhor, com mais disposição e o sono está mais tranquilo. Foi o melhor presente que eu poderia ter dado a mim mesma”, conta a administradora que, agora, malha três vezes por semana, por cerca de uma hora a cada aula.

O acompanhamento médico é fundamental para esta mudança de estilo de vida. Antes de começar a praticar qualquer exercício, a pessoa deve procurar um médico para realizar uma avaliação. “Com o resultado dos exames, o professor de educação física pode entender melhor quais as necessidades daquela pessoa. Assim, é possível conquistar resultados estéticos e também cuidar de problemas como colesterol, glicose e melhorar a condição cardiovascular do aluno”, explica André Gomes. Para os adultos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda 150 minutos semanais de atividades físicas com intensidade entre moderada e intensa ou 75 minutos semanais de esforço físico de maior complexidade.

Ter acompanhamento de profissional é fundamental para qualquer atividade física. Foto: Luiz Pessoa/JC360

Intensificar os exercícios

Além de servir como período de adaptação para quem está querendo começar uma nova prática esportiva, as férias também podem ser úteis para quem já malha ou pratica algum exercício, mas quer alcançar novos objetivos pessoais. “O corpo humano é muito inteligente e ele se adapta aos exercícios. Quem quer ter resultado precisa estar sempre se movimentando, então, é interessante traçar metas e colocá-las em prática. Quem corre 5 km pode tentar correr 10 km durante este período sem compromissos de trabalho, por exemplo”, explica o treinador da equipe de atletismo paralímpico da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Ismael Marques.

A advogada Karolleyne Oliveira, 30, conta os dias que faltam no calendário para as férias. “Eu adoro correr, mas, infelizmente, com a rotina de trabalho e estudo fica muito difícil. Às vezes, saio do escritório às 21h e vou para a academia ou correr, só para não dizer que não fui. Quando chegam as férias eu aproveito para aumentar o ritmo de treino. Vou para a academia de domingo a domingo e consigo correr mais em um tempo menor, porque estou mais descansada e menos estressada”, analisa.

“É importante reforçar que a prática esportiva precisa estar aliada também ao aspecto nutricional. O treino sem alimentação correta não funciona, então, para obter novos resultados e melhor desempenho, é necessário ter a indicação correta do que se deve comer. Mesmo quem já treina precisa ter o direcionamento certo”, completa Ismael.

Oportunidade para todos

Pessoas com algum tipo de dificuldade de mobilidade também podem se exercitar, caso seja indicado pelo médico. O núcleo de Educação Física da UFPE disponibiliza as modalidades de Atletismo, Natação e Bocha para atletas paralímpicos. Os interessados devem entrar em contato com o Departamento de Educação Física da instituição, por meio do telefone (81) 2126-8577. Os novos alunos podem começar a fazer as aulas durante todo o ano, inclusive, agora durante as férias.

Entrevista

Giordano Bruno Parente é Diretor Científico da Sociedade Brasileira de Cardiologia em Pernambuco (SBC-PE)

A prática de exercícios físicos é fundamental para quem deseja obter uma melhor qualidade de vida no presente e também no futuro. Para alcançar bons resultados, no entanto, é necessário o acompanhamento de profissionais especializados como professores de educação física, nutricionistas e médicos. De acordo com o diretor científico da Sociedade Brasileira de Cardiologia em Pernambuco, Giordano Bruno Parente, a realização de uma avaliação médica é fundamental para quem passou muitos anos em um quadro de sedentarismo e quer começar a se exercitar. Em entrevista para o Jornal do Commercio, ele também destaca os benefícios do esporte para a saúde do indivíduo e alerta sobre as consequências que a falta de orientação profissional pode causar.

Giordano Bruno Parente. Foto: Luiz Pessoa/JC360

Jornal do Commercio: A comunidade médica orienta, constantemente, a população a realizar exames de rotina. Qual o real grau de importância da ida ao médico mesmo para quem não está sentindo nenhum sintoma?

Giordano Bruno Parente: Atualmente, nós estamos num estágio da medicina, no qual é possível rastrear o surgimento de uma doença muito no início. Antes que o paciente sinta a dor, podemos realizar exames que mapeiam e identificam a possibilidade de surgir um problema. Antigamente, em alguns casos, só era possível atuar de forma paliativa. Hoje, com o resultado dos exames recomendados, conseguimos fazer a orientação e tratar o problema com muito mais eficiência.

JC: Qual a importância dos exercícios físicos?

GBP: A atividade física é intrínseca ao ser humano, ela é importante para o perfeito funcionamento dos sistemas orgânicos, coração, sistema circulatório, atividade cerebral, etc. A prática de atividade física, variando desde uma atividade mínima como caminhadas até atividade intensa como exercícios vigorosos, reduz comprovadamente o risco de doenças cardíacas, doenças cérebros-vasculares, doenças imunológicas, metabólicas, como diabetes e obesidade, hipertensão, além de promover bem estar psíquico.

JC: Existe alguma periodicidade indicada para ir ao médico?

GBP: Depende. No caso da ida ao cardiologista, é necessário que o paciente observe se existe algum tipo de histórico familiar de quadro de colesterol e diabetes, por exemplo. Se tiver, a periodicidade precisa ser mais cuidadosa e começar mais cedo. Mas não existe uma regra que diga o intervalo máximo das visitas. Cabe o bom senso, mas o indicado é que o indivíduo vá periodicamente para poder saber se está indo tudo bem.

JC: No caso de pessoas que querem começar a praticar um exercício físico, qual a recomendação?

GBP: Bom, se o indivíduo nunca se exercitou, já está com a idade mais avançada e quer começar a fazer um exercício, é extremamente importante fazer uma avaliação. Na prática, a recomendação da Sociedade Brasileira de Cardiologia é que sedentários que tenham mais de 35 anos procurem o médico antes do início da nova atividade. Isso vale também para pessoas que querem fazer um exercício de alto impacto, como o crossfit, ou pessoas que estejam no grupo de risco. Para atividades mais recreativas, como a caminhada por exemplo, não é obrigatório, desde que não se esteja no grupo de risco.

JC: Quais os riscos de se exercitar sem orientação médica.

GBP: É preciso avaliar caso a caso, mas existem atividades de alto impacto que elevam a pressão arterial e a frequência cardíaca. Dependendo do histórico metabólico e da predisposição genética que a pessoa tenha, isso pode causar problemas.

JC: O médico pode proibir um paciente de fazer exercícios?

GBP: Sim, pode. Existem pessoas que têm alto risco de sofrer uma morte súbita, durante a execução de exercícios físicos, como é o caso de quem sofre de Miocardiopatia Hipertrófica, que é a principal causa de mortes súbitas em pessoas jovens durante atividades físicas. Mas só é possível identificar isto por meio de exames. Se não proibir completamente, o médico também pode fazer orientações de que tipo de modalidade aquele paciente pode ou não praticar.

Nutrição é melhor aliada dos exercícios no combate ao sedentarismo

Especialistas destacam que é possível curtir as férias sem exageros e com boa alimentação

Nutricionista Graça Albuquerque destaca que se alimentar bem não é somente comer salada. Foto: Luiz Pessoa/JC360

É como um casal de mãos dadas, onde um dá apoio e fortalece o outro para seguir em frente. Assim é a relação da prática de exercícios físicos e da boa alimentação, na caminhada rumo à qualidade de vida. Desse modo, se as férias podem servir para o distanciamento do sedentarismo, este período também é oportuno para a aproximação de uma rotina alimentar mais regrada. E isso não quer dizer que comer precisa ser tornar algo tedioso e sem prazer.

Quando o assunto é se alimentar corretamente durante as férias, o promotor de justiça Petrônio Júnior, de 38 anos, tira de letra. Mesmo em viagens, ele costuma ser atento com a alimentação. “Eu amo viajar e, além de conhecer os pontos turísticos, gosto de provar a gastronomia dos lugares para onde eu vou. Mas eu não preciso exagerar. Eu encaro mais como uma degustação e sei o meu limite”, conta. No último mês de maio, ele visitou Portugal e não deixou de provar os doces tradicionais lusitanos. “Tinha pastel de Belém, salame de chocolate, aqueles ovos moles… Eu provava tudo, mas um pouco e não muito”, explica o promotor que, há três anos, quando começou o processo de reeducação alimentar, apresentava massa de 82 kg e, hoje, está com 69 kg.

Ter ajuda especializada é sempre recomendado para comer bem. Foto: Luiz Pessoa/JC360

Uma das estratégias de Petrônio nas viagens é comer de três em três horas. “Eu sempre ando com lanches. Em uma viagem que fiz ao Japão, por exemplo, eu levei castanhas e barrinhas de cereal e andava com isso na mochila. Eu sempre faço isso, porque, deste modo, eu vou comendo aos poucos e percebo que, na hora da refeição principal, eu não estou com tanta fome, quanto pessoas que não fazem o mesmo que eu. Logo, não exagero em momento nenhum”, analisa.

De acordo com especialista em nutrição, ter uma alimentação cuidadosa reduz os riscos de contrair doenças como obesidade, pressão alta e diabetes. Este estilo de vida também aproxima o indivíduo de uma maior expectativa de vida. Segundo pesquisa publicada recentemente pela revista The Lancet, uma das mais antigas e conceituadas publicações médicas do mundo, a má alimentação está associada a uma em cada cinco mortes no mundo.

“Definitivamente, comer de forma saudável não é comer apenas salada e frango grelhado”, afirma categórica a nutricionista Graça Albuquerque. De acordo com a especialista, que trabalha há 24 anos na área, o mercado disponibiliza uma série de produtos que podem substituir alimentos que não são saudáveis. “Hoje em dia, existe o açúcar de coco, por exemplo, que tem baixo índice glicêmico e pode substituir o açúcar tradicional em tudo, até no bolo e em sucos, sem fazer com que a comida perca o sabor”, exemplifica.

De acordo com Albuquerque, o primeiro passo é buscar ajuda especializada. “Cada pessoa tem suas características. Para algumas pessoas, funciona comer de três em três horas. Já para outras, o jejum intermitente pode ser uma opção. O fato é que apenas um profissional da área é que vai saber qual protocolo e por quanto tempo aplicar em cada paciente”, esclarece.

A orientação da nutricionista é aproveitar as férias para se adaptar ao novo estilo de vida. “Começar uma nova rotina alimentar no recesso é importante porque o indivíduo acaba tendo mais tempo para se organizar. Ele vai conhecer os benefícios daqueles alimentos e vai, inclusive, se preparar para o retorno ao trabalho, quando poderá começar a sair de casa levando uma marmita com uma refeição muito mais saudável”, defende. Albuquerque afirma ainda que as férias precisam ser aproveitadas com moderação. “Não dá para comer açúcar, fritura e exagerar no álcool. A comida é o nosso combustível e a gente precisa investir em bom combustível para poder viver bem”, declara.

Jornal do Commercio