Maria Eulália está aqui


Tinha 9 anos e catava comida nas ruas de Caruaru quando foi sequestrada e enviada para o Sul do País para trabalhar como babá na casa de desconhecidos. Mais de 50 anos depois, quer encontrar a família

Maria Eulália tinha 9 anos de idade e brincava, ao lado da irmã (6) e do irmão (11), nas ruas de uma favela de Caruaru. A mãe, Dora Conceição Pereira, lavava roupa em um rio a 10 quilômetros dali. Os filhos geralmente a acompanhavam, mas naquele dia estavam fracos demais para percorrer o caminho. Não comeram, não beberam água. Antes de sair, Dora (nomeada duplamente, também era conhecida como Quitéria) pediu para as crianças não ficarem na rua. Mas, para brincar com o cachorro Rolinho, elas foram para a frente do casebre. A favela era cortada por uma linha de trem e esse trem era alguma esperança. Quando ouviram o barulho da máquina, os irmãos correram até lá. Como quase sempre, os passageiros passaram a jogar restos de comida. Às vezes tinha casca de banana e rapadura. A mãe levava ao fogo com água, farinha, a panela ficava pendurada sobre o fogareiro. No meio do nada, era um prato saborosíssimo.Tinha apenas nove anos e catava restos de comida nas ruas de Caruaru quando um carro parou ao seu lado. Foi sequestrada e enviada para o Sul do País para trabalhar como babá na casa de desconhecidos. Nunca mais voltou. Agora, mais de 50 anos depois, ela pede ajuda para encontrar os parentes que ficaram aqui

Era metade dos anos 60 e a fome era matriarca e patriarca do novo lar. A família havia saído tempos antes de Cachoeirinha, também no Agreste, depois que o pai, extremamente violento, enforcou-se. Para as crianças, foi uma boa morte. Não veriam mais o espancamento da mãe. Pelo contrário, agora desfrutariam do carinho dela. E ainda havia o trem. O barulho dele era possibilidade. O barulho dele era quase a compra da semana. E melhor: não havia o constrangimento da falta de dinheiro. E aí ouviram a possibilidade chegando, deixaram o cachorro Rolinho para trás e foram catar os restos rejeitados por pessoas que jamais veriam. Eulália, o corpo encurvado, catava a chance de uma refeição quando um jipe parou perto dela. Um homem desceu e a carregou. Fez o mesmo com Maneco e a menina-irmã cujo nome ela não lembra. Outras crianças estavam dentro do carro, a maioria chorando. Eulália enfiou-se entre elas e o jipe partiu. Nunca mais voltaria a ver a mãe.

Eulália é alguém que desapareceu.

Foi entregue a uma mulher chamada Dalvanira. Como a menina chorava muito e se debatia tentando fugir, a piedosa senhora resolveu amarrá-la a uma cordinha e prendê-la em seu próprio braço. Eulália passou dois ou três dias atada àquela desconhecida, mesmo quando foram até a feira de Caruaru comprar alguns vestidos e uma boneca. Achavam que era um agrado. Um agrado para a menina amarrada. Ali, no meio de tanta gente, ela viu o irmão. Ele chegou perto. Disse que também foi entregue a uma família, mas conseguiu fugir. Que ouvira falar que a mãe estava muito mal (como qualquer mulher que teve seus três filhos sequestrados estaria). Maneco sumiu no meio do povo. Eulália também não voltaria a vê-lo.

De vestido novo e boneca na mala, foi colocada em um avião da Cruzeiro do Sul. Quando aterrissou, havia um homem para recebê-la. Era Romeu Gusmão, filho de Dalvanira. “Venha, seu pai está ali para recebê-la”, disse alguém. Eulália lembra: “Parou o soluço, parou o choro, parou tudo para dar lugar ao espanto. Meu pai? Ninguém merece ver um pai bêbado e morto esperando a gente chegar de viagem depois de passar tanta dor.” Foi levada para uma casa, a casa na qual morava Romilda, esposa de Romeu. Ela achou a menina escura demais. Pobre demais. Foi dar banho em Eulália, usou uma escova, esfregava forte. Devia achar que a cor era sujeira. Esfregava mais. Na manhã seguinte, Eulália soube do propósito do sequestro: seria a babá do filho de alguém. Criança, cuidaria de outra. Criança, sofreu o assédio de um dos empregados da casa. Criança, foi estuprada no segundo dia naquela casa. Jerônimo, Jônia e Lina Júlia, filho e filhas que Eulália teria décadas depois, só souberam agora desse episódio.

Maria-Eulália

“Eu não era gente. Eu era descaracterizada como gente.”

Foi encaminhada para trabalhar em Erechim, interior do Rio Grande do Sul, na casa da filha de Romeu e Dalvanira. Era lá que estava o bebê de quem Eulália seria também responsável. Mas os dias e as mudanças não cessaram seu choro, pelo contrário. Chamava pela mãe, manhã. Chamava pela mãe, tarde. Chamava pela mãe, noite. Os moradores da casa não suportaram a dose de realidade e a natural não sujeição daquela menina. Logo livraram-se dela. Livraram-se, é esse o termo. Descaracterizavam a menina como gente. Foi enviada para um internato, o Lar de Menina, coordenado por freiras. Lá não esfregaram sua pele para que ela clareasse (“negra suja” era algo que constantemente ouvia naquele reino de brancos), mas não participava das aulas de música e artes. Apenas esportes. Aos 17 anos, foi encaminhada para o juvenato de Marau, cidade de colonização italiana. Ali, quis também se tornar freira. Mas não permitiram. Alegaram que havia sua cor e o problema da “origem duvidosa”. O termo entre aspas até hoje rói o peito de Eulália.

Saiu de lá aos 19 anos e arrumou seu primeiro emprego remunerado. “Antes disso, foi só exploração desumana disfarçada de caridade cristã.” Trabalhou na rádio local, foi faxineira, datilógrafa, participou da locução. Até que um dia a demitiram e ela, debilitada pelos anos de maus tratos, foi parar em um hospital. Foram 12 dias. Até hoje cuida de uma anemia. Seu primeiro amor apareceu aí. Ficaram juntos dois anos e iam se casar, mas a família dele não permitiu que uma mulher de pele preta fizesse parte do clã. “Ele quis namorar escondido. Eu não aceitei.” Começou a namorar outro rapaz e engravidou. Não queria casar, mas resolveu fazê-lo: sua condição de mãe solteira poderia provocar sua saída da cidade. “Putas, amantes clandestinas, pessoas que não apoiavam o partido Arena, todas eram banidas da cidade da noite para o dia.” O primeiro filho veio quando ela tinha 24 anos. Depois veio Jônia. Lina nasceria de um segundo casamento. Depois que o último marido passou a cortejar diariamente a cachaça, Eulália automaticamente viu diante de si uma pálida figura enforcada do pai. Terminou tudo.

A vida não dava respiro. Na cabeça, ela continuava a ouvir o barulho do trem passando.

As leituras às escondidas realizadas nos tempos de internato se prolongavam dentro dela. Resolveu – na verdade, não resolveu, era tudo questão de sobrevivência – fazer vestibular para Letras. Passou. Depois, fez um concurso para a prefeitura de Passo Fundo. Passou. Depois, um para ser professora estadual. Passou. Até hoje não entende muito bem como tudo isso aconteceu: o histórico de sua vida apontava apenas para a morte. Que poderia vir inclusive em forma de resignação.

Como a mãe, Eulália tinha três filhos. Como Dora, sua mãe, ela viu-se sozinha com eles depois que o segundo casamento terminou. Esse foi seu motor, não pedra. “Hoje sou feliz por decisão pessoal. Aprendi a amar este mundo por teimosia.” A filha do meio, Jônia, ingressou na vida acadêmica. Jerônimo tornou-se músico e fez parte da formação original de uma banda de rock conhecida nacionalmente, a Cachorro Grande. Já Lina tem uma filha e mora na mesma cidade da mãe. Foi Jônia quem a incentivou contar a história e foi ela quem enviou a carta de seis páginas para o jornal. Quer que a mãe (re)veja parentes que a acreditam morta. Quer que a mãe tenha um encontro com carinho, emoção, beleza. Coisas que sempre lhe foram subtraídas.

“Depois que eu fui roubada de minha mãe, sempre sofri preconceito e discriminação de toda natureza. Agressão física. Tenho as marcas até hoje, mas nunca foram as mais doídas. As mais doídas e marcantes foram as a psicológicas e afetivas. Pelos preconceitos e discriminação, sempre perdia boas oportunidades e até casamentos, pois alegavam que eu não tinha classe social e nem origem conhecida. Eu tive de criar minhas próprias oportunidades sob pena de sucumbir na vida. Mas muitas pessoas me ajudaram chegar até aqui, e não foram poucas. Tenho-as guardadas na saudade e no reconhecimento.”

É isso. Maria Eulália Rodrigues de Lima, que nasceu em Cachoeirinha e foi separada há mais de 50 anos da família, é alguém que desapareceu. Ela mora em Passo Fundo e nunca voltou ao Nordeste. Maria Eulália escreveu porque ela quer a oportunidade de reencontrar algum irmão, irmã, primo, prima, tio, tia. Qualquer parente. Ela quer contar o que aconteceu. Que não morreu. Que foi roubada e levada, como tantas meninas e meninos, para servirem como empregados na casa de pessoas cujo coração foi item excluído. Maria Eulália é alguém que está aqui.

Leia: A carta da menina que voltou

EULALIA

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