"Telefone fora de área ou temporariamente desligado"


Estava com Ricardo há seis anos. Um dia, ele falou depois de uma briga: “vou fazer você chorar lágrimas de sangue”. Ricardo desapareceria tempos depois – e Kamilly, a neta de 8 anos de Domícia, também.

Amanda e Aquiles, ela 3 anos, ele 7, estão almoçando. Nos pratos gastos, macarrão, carne e purê. A TV está ligada em um dos programas policiais diários que tingem de vermelho a refeição do meio-dia de boa parte da população do Estado. Olham o repórter falando alto, uma mulher chorando, lençóis brancos cobrindo dois corpos, a luz estridente dos carros da polícia. Amanda e Aquiles engolem o purê e olham para a televisão como se vissem desenho animado. Conhecem bem aquele show da felicidade pelo avesso: foi ali que viram pela última vez a irmã Kamilly, que sumiu há quatro anos. Tinha então oito anos de idade. “Ela era feliz, não era vovó?”, diz o menino, tentando chamar a atenção para si e contribuindo com a frase de Domícia, há mais de uma hora sendo entrevistada. Ela tem os olhos marejados e ri fraco para Aquiles, que fica satisfeito com a participação. Kamilly, uma menina morena de cabelos cacheados, sumiu acompanhada por Ricardo, 43, marido de Domícia. Não há qualquer notícia dos dois desde então.

 

 

“Criança quando é bolinada fica triste, não é? E eu nunca vi Kamilly triste. Eu não acho que ele faria isso com ela não, né? Você acha? Eu não acho. Porque ela não era triste.” Domícia olha firme para a repórter: quer que uma confirmação exterior, mesmo de uma pessoa desconhecida, lhe ampare. Mas essa confirmação não vem (seria prematura e pouco verdadeira, poderia confortá-la, mas continuaria sendo pouco verdadeira). Silencia durante um momento enquanto olha para os netos, silencia enquanto os netos olham o sangue na TV. Repete para si: “ele não fazia isso com ela não. Eu acho que não”.

kamilly

No apartamento quente de tijolos caiados de branco, em Brasília Teimosa, no Pina, moram a camareira e as ausências de Kamilly e Ricardo. Os filhos e os netos vão às vezes visitá-la. Quando Domícia chega das 12 horas de trabalho noturno em um motel não muito distante dali, abre as cortinas, liga a televisão (a neta e o marido pairam em todos os cômodos). Tenta espantar as presenças aumentando o volume da TV. “Quem sabe não aparece uma notícia boa?” Conta que não consegue ir dormir, apesar do cansaço. Que nas noites de folga é ainda mais difícil. Permanece na cama e geralmente só adormece por volta das quatro da manhã. Fica deitada, repassando a história. De novo, de novo e de novo. Domícia é a mulher que, no verão de 2015, respira e vive o dia 7 de junho de 2011. É a data do desaparecimento duplo.

(Às vezes Domícia tem certeza que esta é também a data da sua morte)

Esse dia vai ser contado, e por isso revivido, aqui. Nos baseamos na memória de Domícia, mas não somente nela. Adriana, mãe de Kamilly, também nos fala. Mas é antes de tudo o poder do que não é dito o mais revelador sobre esse devastador sumiço.

“Minha velha, ganhei no bicho”, disse Ricardo ao celular, às 10h da manhã de uma terça-feira. Domícia não podia falar muito, estava limpando quartos. “Tá ocupada agora?” Ela confirmou que sim, ele desligou. O marido também trabalhava no mesmo motel – ela há 10 anos, ele há 17 – e sabia como era pesado o serviço ali. Ao meio-dia, ele voltou a telefonar para falar das boas novas. Disse também que já tinha pego Kamilly na escola, que iam almoçar e que depois ele ia “ver um negócio pra gente”. Domícia acreditou que ele se referia ao dinheiro do bicho. Falou que eram R$ 5 mil. De longe, ela ouviu a brincadeira da voz da neta. Desligou.

Depois, nunca mais.

Resolveu ligar para o marido à tarde, quando estava com menos demanda. “Este telefone está fora de área ou temporariamente desligado”. Não deu muita importância. Chegou na casa às 21h, estava no turno da manhã naquele dia. Não havia ninguém para recebê-la. Estranhou e ligou novamente para o celular de Ricardo. Fora de área ou desligado. Tentou de novo. Fora de área ou desligado. De novo. Fora de área ou desligado. Fora da área ou desligado. Fora de área. Desligado. Surgiu aquele sentimento terrível que nos sussurra: algo está errado. Resolveu procurar na vizinhança. Na casa em frente morava uma amiga de Kamilly, Marciele. Foi até lá, a menina contou que havia falado com a colega pela manhã e ela avisou: ia até Prazeres com o marido da avó. Domícia resolveu ligar para outra vizinha. Adriana repetiu a informação. Voltou para casa e tentou o celular novamente. Fora da área ou desligado. De novo. Fora da área ou desligado. Passava da meia-noite. O espaço do terror e do assombro se abriu. Sentou-se no sofá e aguardou algo acontecer. Passava uma moto, Domícia ia até a porta. Ouvia uma voz de longe, voltava para a frente da casa. Nada. Entrava e ficava à espera. Fora da área ou desligado. Ouviu os dois chegando várias vezes naquela noite. Mas era somente engano enraizado na vontade.

O dia amanheceu. Fora de área ou desligado.

Estavam morando na comunidade conhecida como Catamarã, em Jaboatão dos Guararapes. Saiu de Brasília Teimosa por insistência de Ricardo – ambos moravam no bairro há anos. Apenas o casal se instalou na nova casa, mais ampla, dois quartos. Adriana, mãe de Kamilly, também morava em Brasília Teimosa, mas havia se mudado para o Arruda depois de casar novamente. A menina não havia se adaptado ao novo lugar e pediu para morar com a avó. É o que se conta. Foi Ricardo quem matriculou a quase neta na nova escola. Apenas 13 dias depois, ele e Kamilly sumiram. Raquel, uma das filhas dele, morava perto do novo endereço. Domícia foi até a casa dela às 5h da manhã, depois da longa noite de espera. “Seu pai desapareceu com a minha neta.” Foram juntas a hospitais, delegacias, Instituto de Medicina Legal. Nenhuma notícia. Fora da área ou temporariamente desligado. À noite, a camareira foi para a casa de um dos três filhos e lá tentou dormir. Nunca mais voltou para o espaçoso lar no qual deveria estar morando com o marido e a neta.

“Diziam para mim ‘que bom que agora tu arrumasse um marido.’ E hoje eu acho que tenho culpa. De ter ido morar em um lugar deserto daquele, de ter saído daqui. Me sinto culpada mesmo. Agora eu fico sem saber o que esperar. Não aparece ninguém morto, não aparece ninguém vivo, nada muda, a gente não tem resposta para nada. Eu não sei se vivo, eu não sei se morro.”

Esse marido que ela tinha arrumado é apresentado como afável no começo da conversa, na hora do almoço. Mais tarde, ele vai mudar de figura (semanas depois, na entrevista com Adriana, mãe de Kamilly, a transformação se completaria). Sentada no apartamento quente de tijolos caiados de branco, Domícia fala de uma relação normal, de cumplicidade: “para onde ele ia, me levava, nos divertíamos, bebíamos juntos.” Uma hora depois, quando peço uma foto da família, a camareira explica que restaram poucas porque Ricardo “deu fim a quase tudo.” Quando esse comportamento é questionado, alguns episódios de violência passam a pontuar, meio a contragosto (provavelmente por vergonha), a entrevista. São ditos, mas não são. “Às vezes tinha briga de ciúme, ele ficava meio violento quando bebia. Eu dizia: ‘mas eu não tô fazendo nada de errado não, porque a agressão?’”

“Ele disse que um dia ia fazer ela chorar lágrimas de sangue. Ela te contou isso?”, perguntaria Adriana, semanas depois. Não, Domícia não contou.

Kamilly, que passava os fins de semana e férias com a avó, presenciou algumas das cenas de violência. “Era só nessa hora que ela ficava triste com o tio. Ela chamava ele de tio, sabe?” (Domícia). Desta vez, Aquiles não interrompe a avó.

O menino e Amanda estavam na escola enquanto a mãe, Adriana, chorava no sofá da sala. É uma casa pequena repleta de eletrodomésticos novos, uma piscina de plástico desmontada no pátio da frente. As lágrimas atrapalhavam a maquiagem que Adriana havia produzido antes de ir trabalhar em uma loja de móveis no centro da cidade. Como Domícia, ela também evoca a felicidade de Kamilly como uma prova de que ela não passava por qualquer tipo de abuso sexual. “Porque criança abusada é muito triste, e ela era muito meiga, muito dada. Acho que isso aí ele não fazia com ela não.” Ao contrário da mãe, não procura a confirmação tranquilizadora da repórter. Diz isso para si mesma, como uma espécie de mantra. Fala que sua relação com Ricardo era tensa e as discussões, comuns. Mas o motivo exato não é exposto. “Ele se metia em minha vida, a gente brigava, passava tempo sem se falar.” Se essa relação conflituosa tinha fonte na violência à Domícia, ela não fala. Talvez porque seja difícil entender a decisão de deixar a filha ir morar em uma outra cidade com a mãe e um marido agressor.
Kamilly nasceu quando Adriana tinha apenas 18 anos. A relação com o pai da garota não durou muito – ele seria assassinado dois meses após o desaparecimento da filha. Extremamente desgastada após 4 anos sendo procurada para falar do caso, Adriana, inicialmente, não quis dar entrevista. Passou a função para a mãe. Depois, resolveu falar: acredita que isso pode ser uma ajuda a mais na localização de sua filha. Acredita na chance de encontrá-la. “Eu nunca digo que tenho dois filhos. Eu sempre falo que tenho três. Eu vou fazer agora 30 anos, Kamilly vai completar 13.”

Em casa, guarda alguns poucos objetos da menina. A maior parte está com Domícia: uma agenda com a letra redonda da garota, um livro do Menino Maluquinho, as roupas brancas, lavadas esporadicamente pela avó (“boto tudo no Omo”). Sapatos, calcinhas, uma bota com imagem da Hello Kitty, alguns brinquedos. Quando os netos vão pegar as coisas da menina, a avó reclama: “deixem aí as coisas de Kamilly pra ela brincar quando chegar.”

É a avó também aquela que mais entra em contato com a polícia. O caso, famoso na cidade, está sendo investigado pela delegada Gleide Ângelo, responsável pela Delegacia dos Idosos e Desaparecidos do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). “Estamos perto de elucidar essa história, disse a delegada em janeiro deste ano. Até agora, nenhuma novidade foi anunciada. Em Brasília Teimosa, Domícia diz que cansou de ligar e novamente encarar essa ausência de novidade. “Parei. Machuca mais.” Uma vez, o corpo de uma criança e um homem foram encontrados. Ela achou que finalmente ficaria só em casa e que as ausências de Kamilly e Ricardo iriam desocupar todos os cômodos. Não eram eles.

“Este telefone está fora de área ou temporariamente desligado.”

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