Por uma nova mobilidade urbana

As cidades viraram reféns de uma mobilidade convencional, onde todos – ou a grande maioria – fazem tudo nos mesmos horários, utilizando as mesmas ruas e avenidas, quase tudo do mesmo jeito. E têm pago um preço alto por isso. As cidades estão sofrendo com esse convencionalismo urbano reproduzido ano após ano pela sociedade. Estão sendo engolidas por congestionamentos e retenções diárias, constantes e, em algumas delas, permanentes – o Brasil tem o quarto pior trânsito do mundo. Nas grandes cidades e regiões metropolitanas brasileiras, entre elas a do Recife, mais de 70% da população fazem as mesmas coisas nos mesmos horários, todos os dias. Fazem questão de ir e voltar juntos do trabalho e da escola, por exemplo. E nesse ciclo vicioso, seguimos perdendo 733 horas por ano presos no trânsito travado de nossas cidades.

Perdemos muito tempo nos congestionamentos no Brasil

E seguimos usando cada vez mais o automóvel para pequenas distâncias

A sociedade não consegue se libertar desse roda viva. Ao mesmo tempo, não há, ainda, um estímulo do Estado como instituição – como incentivos fiscais, por exemplo –, para que sejam criados novos horários na rotina da população. Vontade de uns, inércia e comodismo de outros. Com essa receita a sociedade segue fazendo as cidades girarem iguais. As jornadas de trabalham costumam começar e terminar nos mesmos horários, assim como a entrada e saída das escolas. Os números mostram esse costume. Na Região Metropolitana do Recife, segundo a mais recente Pesquisa de Origem e Destino, feita pelo Instituto da Cidade Pelópidas Silveira (ICPS) em 2018, 72% da população começam a trabalhar entre 7h e 9h. E 68% saem do trabalho entre 17h e 20h. No deslocamento para estudar, a concentração é semelhante.

A mobilidade convencional na Região Metropolitana do Recife

“Veja o que acontece com os aplicativos de transporte privado no chamado horário de pico, quando entra o valor dinâmico? O preço dessa mobilidade convencional é alto e vai além da dificuldade de deslocamento urbano. Afeta a telefonia e o consumo de energia, por exemplo. Alimenta o desperdício de recursos públicos. Por isso, quanto mais moderna e avançada é uma cidade, mais diversificada é a oferta de serviços em horários ampliados ou 24 horas. Todos concordam com isso ao citar Nova York, Tóquio e até mesmo São Paulo. É preciso haver uma gestão de demandas para estimular esses novos horários”, defende e alerta o engenheiro civil e doutor em transportes pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Tóquio, Sideney Schreiner, o homem que conseguiu realizar as duas primeiras pesquisas OD do Recife e a da RMR após 20 anos, além de ter coordenado a reformulação do Plano de Mobilidade da capital pernambucana.

Mas começa a surgir uma demanda de novos horários de deslocamento

Sideney Schreiner lembra que a implantação de uma nova rotação para as cidades não pode depender apenas do convencimento da população. É preciso impor novas regras, com leis modernas. “Mostrar à sociedade o quanto estamos perdendo com as cidades travadas, as oportunidades de negócios que estão sendo desperdiçadas. É preciso aproveitar esses vácuos de horários, de uma melhor mobilidade. E a iniciativa privada é quem deve puxar esse novo movimento, estimulado pelo Estado. A atividade comercial é uma das principais indutoras. Precisamos vencer barreiras”, ensina Sideney Schreiner.

Sideney Schreiner defende uma gestão pública de demandas para estimular os novos horários nas cidades

E quem mais sofre com a mobilidade convencional são os que mais transportam ou os mais sustentáveis. Na disputa por espaço nas avenidas e prioridade de recursos, ônibus, metrôs, bicicletas e a mobilidade a pé ficam para trás. O automóvel – e a motocicleta na carona – leva vantagem. Sempre levou e leva até hoje. Na Região Metropolitana do Recife, metade da população economicamente ativa usa o ônibus para chegar ao trabalho. E, mesmo assim, pena: 68% levam até 1h30 no deslocamento. Outros 22% levam até 2h. Nacionalmente, são 127 minutos, em média, perdidos no trânsito todos os dias. No Nordeste, esse tempo aumenta para 132 minutos. Os números são de uma pesquisa do Instituto Ipsos e do aplicativo 99 divulgada em junho. 70% da população ouvida nas cinco regiões do País afirmaram enfrentar congestionamentos diariamente. E 82% estavam nas capitais e regiões metropolitanas. A necessidade de mudança é gritante e se reflete no sentimento da população: 41% das pessoas ouvidas consideram ser difícil se deslocar nas cidade. Ou seja, a cada dez brasileiros, quatro avaliam a mobilidade como difícil.

  • 72,23%

    das pessoas da Região Metropolitana do Recife iniciam a jornada de trabalho entre 7h e 9h
  • 68,17%

    dos moradores do Grande Recife saem do trabalho entre 17h e 20h
  • 773

    horas são gastas por ano no trânsito brasileiro
"Temos que mostrar à sociedade o quanto estamos perdendo com as cidades travadas, as oportunidades de negócios que estão sendo desperdiçadas. É preciso aproveitar esses vácuos de horários, de uma melhor mobilidade. E a iniciativa privada é quem deve puxar esse novo movimento, estimulado pelo Estado. A atividade comercial é uma das principais indutoras. Precisamos vencer barreiras" Sideney Schreiner, doutor em transporte

O norte-americano Timothy Papandreou, fundador e CEO da Emerging Transport Advisors, empresa que fornece orientação estratégica para empresas, investidores, startups e governos sobre mobilidade compartilhada, elétrica e automatizada, e CIO (Chief Information Officer) da agência de transporte de São Francisco (EUA), alerta que a nova mobilidade é mais do que urgente porque cada vez mais nossa população é urbana. E que ela precisa ser facilmente compartilhada, sustentável e autônoma. “A propriedade não é mais algo almejado. As pessoas não querem mais ter, possuir, para conseguir se locomover. Querem apenas chegar. E com pressa, afinal, mais da metade da população mundial é urbana e antes de 2050 serão 75% dos habitantes do mundo vivendo em cidades. Por isso é preciso abrir mão do que está velho sem esquecer de dar prioridade ao transporte básico, que é o coletivo, os ônibus, metrôs e trens”, defende.

Para Timothy Papandreou a nova mobilidade urbana precisa ser tão boa ou melhor do que o serviço oferecido pelo automóvel para ser atraente (FELIPE RAU/Divulgação)

O especialista cita, ainda, a urgência em abandonar o uso desnecessário do transporte individual. “Ainda usamos o automóvel para tudo. Nos Estados Unidos, 60% dos deslocamentos feitos de carro são de até 5 km. As viagens entre 10 e 40 km representam 30% das viagens, enquanto as com mais de 40 km significam apenas 10% dos deslocamentos. A nova mobilidade urbana precisa ser tão boa ou melhor do que é oferecido pelo automóvel. Se não for fácil e prático a sociedade não vai sair do carro”, adverte. Timothy Papandreou também é ex-gerente de parcerias estratégicas do Google X e do Waymo, estando por trás do primeiro serviço totalmente autodirigível do mundo em Phoenix, nos EUA.

"A propriedade não é mais algo almejado. As pessoas não querem mais ter, possuir, para conseguir se locomover. Querem apenas chegar. E com pressa, afinal, mais da metade da população mundial é urbana e antes de 2050 serão 75% dos habitantes do mundo vivendo em cidades. Por isso é preciso abrir mão do que está velho sem esquecer de dar prioridade ao transporte básico, que é o coletivo, os ônibus, metrôs e trens" Timothy Papandreou, consultor

Mas há uma vontade de mudança. As pesquisas de OD já começam a apontar alguns horários fora do convencional. É pouco, mas estão crescendo. Além disso, nunca se falou tanto sobre novas formas de mobilidade urbana. De integração de modais, da micromobilidade auxiliando os transportes convencionais, especialmente o coletivo. Entre nós, crescem os exemplos de quem quer viver e sentir a cidade se deslocando para o trabalho ou voltando dele, para o lazer e para atividades rotineiras. O carro, acreditem, vem perdendo espaço nas novas gerações, que apostam na integração e na tecnologia para se transportar. “Na polítíca municipal de mobilidade, que integra o Plano de Mobilidade Urbana do Recife, existe um instrumento que vai estimular o escalonamento dos horários de trabalho nas empresas particulares. Isso vai permitir que as corporações distribuam melhor os horários de início e fim das jornadas de trabalho”, promete Marília Pina, diretora executiva de Planejamento da Mobilidade Urbana do ICPS.

Eduardo Vasconcelos, da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP)

“Nos países mais desenvolvidos, o uso do automóvel foi reduzido principalmente pela cobrança dos custos sociais e ambientais que estão associados a ele. Isto vem sendo feito por várias medidas: o encarecimento de ter um automóvel (taxas de uso), aumento do custo da gasolina, restrição de circulação em áreas críticas (pedágio urbano), proibição de estacionar na via pública e aumento do custo de estacionar em áreas críticas. As formas mais eficazes de mudança para inverter a lógica da mobilidade urbana convencional seriam a reorganização do uso do solo, de forma que as pessoas ficassem mais próximas dos destinos desejados e pudessem caminhar ou usar bicicletas. Além da oferta abundante de meios públicos de transporte”

Eduardo Vasconcelos, ANTP

Mulheres como laboratório das cidades

Mulheres como laboratório para a nova mobilidade. Essa é uma discussão que tem sido feita para melhorar as cidades. Planejar e replanejar as opções de deslocamento, os modais e a infraestrutura a partir da percepção delas, que são maioria no transporte coletivo e na mobilidade a pé. Sistemas e conceitos pensados como solução para os medos da mulher têm tudo para dar certo e agradar a todos. Mas por que as mulheres? Porque são elas as grandes reféns da imobilidade urbana. Todos sofrem, motoristas, passageiros, pedestres e ciclistas. Mas elas pagam um preço mais alto.

Sofrem mais do que os homens quando o serviço de transporte coletivo não é eficiente, quando falta iluminação nas ruas, falta infraestrutura cicloviária ou quando calçadas viram matagais e muros gigantes. Tudo porque o medo da violência – principalmente a sexual – predomina sempre. Limita e desestimula a vivência da cidade. Por isso a nova mobilidade urbana – inclusive os novos horários – precisa ser pensada a partir delas.

As cidades planejadas a partir da percepção das mulheres, que são maioria no transporte coletivo e na mobilidade a pé, têm mais chances de dar certo

Estudo do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP) realizado na Região Metropolitana do Recife, em 2018, comprovou a fragilidade da mulher na mobilidade e a urgência de repensá-la. Com destaque para as mulheres negras, chefes de família, mães e da periferia, que compõem o grupo mais penalizado.

“O estudo mostrou o quanto as cidades estão atrasadas no planejamento da mobilidade urbana a partir do gênero. Que os sistemas ainda são pensados considerando o homem e esquecendo as necessidades das mulheres”, explica Letícia Bortolon, coordenadora de Políticas Públicas do ITDP e responsável pelo estudo. Juliana de Faria, diretora da Think Olga – ONG feminista que empodera mulheres por meio da informação –, defende um replanejamento dos bairros para torná-los mais sustentáveis e autosuficientes. “As desigualdades de gênero influenciam a maneira como as mulheres utilizam os transportes públicos. Os homens partem do ponto a ao b, às vezes só precisam levar a criança à escola. O deslocamento da mulher é mais complexo pelas variadas tarefas que ela exerce na família. Por isso, se os bairros fossem autossustentáveis poderiam ajudar muito. Porque o caminhar é feminino. Em famílias de até um salário mínimo, 50% dos caminhos são a pé e 28% de ônibus”, revela.

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