O papel e a força da mobilidade corporativa

As empresas privadas, não importa o número de funcionários, podem e devem fazer sua parte pela nova mobilidade urbana. O papel de corporações, organizações e grandes redes, aliás, é imprescindível. É preciso desistir de esperar que o poder público resolva todos os problemas das cidades e agir. Chegou a hora de entender que a responsabilidade com o funcionário, o bem-estar e, consequentemente, sua produtividade, não começa apenas da porta da empresa para dentro. E não pense que existem altos custos por trás disso. É o momento de quebrar paradigmas com a implantação de estratégias de mobilidade corporativa. É mais uma questão de estímulo e pensamento fora da caixa do que dinheiro.

E razões não faltam para essa mudança cultural, de conceito e responsabilidade sobre as cidades em que vivemos. Segundo a Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), até 80% dos deslocamentos nas cidades brasileiras são realizados por motivo de trabalho ou educação. Um movimento que não pode ser ignorado e que indica que a mobilidade urbana não pode mais ser vista como responsabilidade apenas do Estado. “O papel das corporações é fundamental no processo. As condições oferecidas ao funcionário influenciam diretamente no tipo de transporte que ele vai escolher para se deslocar até o trabalho. Se uma empresa, por exemplo, oferece inúmeras vagas de estacionamento, sem ao menos dar prioridade aqueles que andam com a ocupação total do carro, as pessoas vão usá-lo. O funcionário vai pensar: de carro eu tenho uma vaga e de ônibus vou perder 6% do meu salário. Mas se a empresa, por exemplo, decidir subsidiar parte do desconto do vale-transporte? Os funcionários vão escolher o transporte coletivo”, exemplifica Guillermo Petzhold, mestre em engenharia de transportes pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e especialista em mobilidade corporativa da WRI Brasil, ONG internacional que orienta e fomenta o transporte urbano sustentável e cidades humanas.

Guillermo Petzhold defende que as condições de mobilidade oferecidas ao funcionário influemciam diretamente no tipo de transporte que ele vai escolher para se deslocar até o trabalho

Guillermo Petzhold, inclusive, foi um dos organizadores do guia Estratégias de Mobilidade Urbana para Organizações, uma orientação para a adoção de planos de mobilidade corporativa que vão permitir às empresas colocar a mobilidade sustentável em destaque. O guia ensina como implementar nas empresas e instituições de ensino sete estratégias que incentivam hábitos mais sustentáveis nos deslocamentos ao trabalho e educação: transporte a pé, bicicleta, transporte coletivo, transporte fretado, carona, teletrabalho e estacionamento. É dado um passo a passo, sugestões de iniciativas e até como superar barreiras comuns à implantação dessas ações. “As corporações precisam entender que, ao implementar planos de mobilidade corporativa, reduzem gastos, oferecem um ambiente de trabalho ou estudo mais atrativo para as pessoas e aumentam a produtividade. E é preciso estar atento às novas gerações, que estão muito mais preocupadas com a preservação do meio ambiente e a qualidade de vida, ao mesmo temo em que está menos interessada no automóvel”, reforça.

Práticas sustentáveis nas empresas

Estratégia ainda é pouco adotada, mas cresce:


  • Mobilidade a pé
  • 71% Vestiários e armários
  • 51% Grupo de caminhada
  • 11% Prêmios por distância percorrida
  • 8% Mapa com serviços próximos ao trabalho
  • Bicicleta
  • 73% Estacionamento para bicicletas
  • 14% Descontos em lojas especializadas em bicicletas
  • 13% Grupo de ciclistas
  • 3% Prêmios por distância percorrida

  • Transporte coletivo
  • 81% Benefício do vale-transporte (desconto de até 6%)
  • 27% Informação sobre rotas de transporte coletivo próximas ao trabalho
  • 14% Benefício do vale-transporte (insentos de desconto)
  • Estacionamento
  • 32% Vagas dedicadas próximas ao acesso do local de trabalho
  • 22% Desconto no valor do estacionamento
  • 8% Utilização de app de caronas corporativas

  • Teletrabalho
  • 40% Flexibilidade de horário para mais da metade dos funcionários
  • 11% Possibilidade de home office para mais da metade dos funcionários
"Se uma empresa, por exemplo, oferece inúmeras vagas de estacionamento, sem ao menos dar prioridade aqueles que andam com a ocupação total do carro, as pessoas vão usá-lo. O funcionário vai pensar: de carro eu tenho uma vaga e de ônibus vou perder 6% do meu salário" Guillermo Petzhold, especialista em mobilidade corporativa da WRI Brasil

Práticas não sustentáveis

  • Automóveis
  • 81% Vagas de estacionamento gratuitas ou subsidiada
  • 46% Auxílio combustível

A nova mobilidade urbana a partir das corporações, entretanto, ainda não é uma realidade ampla, disseminada. Pesquisa da WRI Brasil com o GPTW Brasil, no fim de 2017, mostrou que a presença dos benefícios tradicionais ao automóvel ainda é predominante: 81% das melhores empresas para se trabalhar escolhidas no ranking ofereciam vagas de estacionamento gratuitas ou subsidiadas, enquanto apenas 35% disponibilizavam vale-transporte com um desconto inferior ao que determina a lei (6%). E somente 8% possuíam aplicativo para estimular a carona. Ou seja, o caminho ainda é longo.

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