Aos poucos, o abandono do automóvel

Os tempos são outros. Muitos dos jovens atuais nem pensam em comprar um carro e não querem mais dirigir. Lentamente, o automóvel está perdendo o glamour de outras gerações. Tem virado coisa do passado. É claro que a crise associada ao alto custo de uma Carteira Nacional de Habilitação (CNH) – entre R$ 1.500 e R$ 2.500 – assusta, mas a queda na emissão do documento é gritante. E é em todas as faixas etárias, com destaque para os jovens entre 18 e 21 anos, que viram o interesse pela direção de um carro despencar 20,6% em apenas três anos.

Os números do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) comprovam a mudança. O total de emissões de CNHs passou de 1,2 milhão, em 2014, para 939 mil, em 2017. Como a queda também foi verificada em outras faixas etárias, a redução foi de 3 milhões para 2,1 milhões no mesmo período. Em Pernambuco, o carro amarga uma perda de encantamento ainda maior do que no resto País. Principalmente entre os jovens. Saímos de 100 mil primeiras CNHs emitidas em 2014 para 41 mil em 2018. E a tendência de queda permanece em 2019 com apenas 14 mil emissões até o mês de abril. Os dados são do Departamento Estadual de Trânsito de Pernambuco (Detran-PE).

O carro está deixando de ser objeto de desejo

Cenário nacional

A indiferença ao status de possuir um automóvel cresce, também, devido à variedade de opções de deslocamentos, com os sistemas de compartilhamento de carros e bicicletas. Pesquisa do Instituto Ipsos e da 99 comprovou essa mudança de lógica. Entre os proprietários de veículos, 30% abririam mão do carro para utilizar outros meios de transporte. E entre os que não possuem carro, 11% deixaram de tê-lo nos últimos cinco anos, tendo como principal razão os custos.

Os apps de transporte privado, em operação no Brasil há aproximadamente quatro anos, são fundamentais nesse processo porque colocaram o custo da utilização e posse do automóvel na ponta do lápis. Estudo do Boston Consulting Group (BCG), empresa de consultoria empresarial no setor automotivo e de mobilidade, mostrou que a mudança de hábito também é impulsionada por questões econômicas. Para o consumidor que roda entre 7 mil e 8 mil quilômetros por ano – perfil de 25% das pessoas que têm carro –, vale mais a pena usar um veículo compartilhado em seus deslocamentos do que um automóvel.

Em Pernambuco

"Meu carro passava o dia estacionado em frente ao meu trabalho. Um dia, levei 45 minutos para ir almoçar em casa, que é perto. Foi quando decidi mudar. Viver e experimentar mais e melhor a cidade. Comecei a usar a bicicleta e a andar com grupos que usam a bike como transporte. Fui aprendendo. Depois, passei a mesclar com ônibus e aplicativos de transporte. Fui muito criticada no começo, mas carro não é água, que precisamos para sobreviver. Hoje, a última coisa que penso é em voltar a ter um carro" Paula Hirakawa, fisioterapeuta

Mas além dos aspectos econômicos, há uma mudança cultural em curso que inverte a valorização do automóvel pela sociedade. A fisioterapeuta Paula Hirakawa, 40 anos, é um exemplo dela. Há quatro anos e meio decidiu vender o carro, bem que possuía e dependia desde os 23 anos. A decisão foi provocada pelo pouco uso do veículo e da economia que o gesto representaria, confessa. Mas pesou também a percepção de cidade. “Meu carro passava o dia estacionado na Praça de Casa Forte (bairro de Casa Forte, Zona Norte do Recife), onde trabalho. Um dia, levei 45 minutos para ir almoçar em casa, na Avenida Agamenon Magalhães (área central). Foi quando decidi mudar. Viver e experimentar mais e melhor a cidade. Comecei a usar a bicicleta e a andar com grupos que usam a bike como transporte. Fui aprendendo. Depois, passei a mesclar com ônibus e aplicativos de transporte. Fui muito criticada no começo, mas carro não é água, que precisamos para sobreviver. Hoje, a última coisa que penso é em voltar a ter um carro”, ensina.

Emissão de CNHs entre os jovens está em queda em todo o País

A pesquisa do Instituto Ipsos e da 99 referenda o sentimento de Paula Hirakawa, de abandono do carro na busca por um novo estilo de vida – 5% dos entrevistados afirmaram ter deixado o automóvel porque queriam ser mais livres na forma de se deslocar. Principalmente entre os mais jovens, nativos do compartilhamento das coisas. O reflexo dessa nova era que se desenha também é visto na estagnação da frota circulante do País, resultado da queda das vendas de autoveículos (automóveis, caminhões e ônibus) nos últimos três anos. Em 2017, pouco mais de 889 mil veículos foram agregados à frota, um crescimento de apenas 1,37% em relação ao ano anterior. É o que indica o levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação - IBPT, instituição referência no Brasil em assuntos estratégicos e de tributação.

As pessoas começam a abrir mão do automóvel

22% das 1.500 pessoas entrevistadas nas cinco regiões do País afirmaram ter diminuído o uso do carro nos últimos 12 meses. As principais razões foram:


  • 16% Combustível caro
  • 12% Passou a caminhar mais
  • 10% Passou a utilizar mais a motocicleta
  • 6% Está mais perto do trabalho
  • 6% Passou a utilizar mais o transporte público
  • 6% Está mudando o estilo de vida

70% das pessoas entrevistadas nas cinco regiões do País disseram que não abririam mão do carro para utilizar outro meio de transporte.


  • 30% disseram que abririam mão
  • 21% afirmaram ter chance de diminuir o uso do carro para usar outro meio de transporte
  • 42% Mudariam para o ônibus
  • 22% Passariam para a bicicleta
  • 16% Migrariam para a motocicleta
  • 10% Iria para o carro particular
  • 20,6%

    foi a redução na emissão de carteiras nacionais de habilitação (CNHs) de jovens entre 18 e 21 anos nos últimos três anos
  • 2,5 mil

    reais é o custo real de um carro por mês, incluindo despesas como seguro, IPVA, licenciamento, multas, manutenção, estacionamento e depreciação
  • 29 mil

    reais é o custo anual de um automóvel, considerando todas as despesas

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