A mudança pode começar em você

As pessoas que figuram nesta seção são comuns e poderiam ser um vizinho ou conhecido seu. O que as difere é a vontade de mudar, de inovar, numa tentativa de encontrar e estimular novas formas e horários de deslocamentos nas cidades em que residem. Alguns com atitudes pessoais, outros como negócio. São pessoas que decidiram buscar uma nova mobilidade urbana com posturas e iniciativas que podem parecer difíceis para alguns. Gente que percebeu que a mudança de hábitos pode transformar a cidade. Que desistiu de esperar pela revolução na mobilidade urbana prometida há tempos pelo poder público brasileiro – nos seus mais diferentes níveis –, mas que só acontece no discurso. Leia, aprenda e inspire-se.


De carona, por uma cidade mais sustentável

Cecília Meira, analista de cultura organizacional, aprendeu a sobreviver e – acreditem – viver sem carro. O trabalho e as mudanças de cidade a ajudaram. Passou oito anos sem ter um automóvel para chamar de seu. Usava transporte público, aplicativo e táxi. Mas este ano tudo mudou. Com um filho pequeno e uma rotina pesada de 8h de trabalho, rendeu-se ao transporte individual novamente. Há aproximadamente dois meses comprou um automóvel. Mas no dia seguinte, como faz questão de destacar, se inscreveu no Waze Carpool, app de caronas em funcionamento desde 2018, como motorista caroneira. “Adquiri um carro a contragosto, obrigada pela minha rotina. E vi no Waze Carpool uma forma de amenizar o impacto que eu e meu carro produzimos diariamente para a cidade. Reduzir a pegada de carbono, por exemplo. No lugar de ir e voltar do trabalho sozinha, com o carro vazio, passei a dar caronas e a garantir a ocupação total do veículo, o que faz muita diferença para a mobilidade urbana”, argumenta.

Além da consciência por uma cidade melhor, Cecília Meira também encontrou no aplicativo de caronas uma forma de diminuir os custos com o automóvel. “Antes de decidir pela compra do carro fiz as contas e vi que não conseguiria, devido à minha rotina, tendo que deixar e pegar criança na creche, por exemplo, me deslocar de aplicativo ou ônibus. Dando carona passei a ter uma ajuda para bancar as despesas de ter um carro – que são muitas. Tenho conseguido uma média de R$ 300 por mês, o que me ajuda com o combustível”, destaca. “Com o app de carona e a possibilidade de usufruir da ocupação total do meu veículo eu me om que eu me sinta melhor, mais colaborativa com a cidade em que vivo”, reforça Cecília Meira.


Academia 24 horas e atenta às novas rotinas

A nova mobilidade urbana pode gerar lucros, qualificar marcas e serviços. Pode fomentar negócios ou a modernização deles. Basta que o empreendedor esteja atento às possibilidades nas cidades, carentes de opções inovadoras. A rede de academias Selfit é um exemplo dessa necessidade de transformação. Aderiu ao horário ampliado e há um ano começou a ter unidades funcionando 24 horas pelo País. No Recife, a unidade com horário ampliado fica no bairro dos Aflitos, na Zona Norte da cidade. É claro que o número de clientes na madrugada é menor do que nos horários convencionais, mas a rede já tem alunos fiéis no horário e, o que é melhor, tem atraído novos com a inovação. O aluno pode não malhar de madrugada, mas o fato de ter a possibilidade conquista. É mercadológico e a mobilidade urbana agradece.

Quem usa o horário da madruga aprova e, sem dúvida, o que mais influencia na aprovação é a dificuldade de mobilidade nos horários convencionais. O gerente de contas Bernardo Brandão é um exemplo. Deixou a academia antiga porque ela fechava às 22h, assim que descobriu a outra que funciona 24 horas. Quando a reportagem o encontrou, era por volta de 1h. “Foi perfeito para mim porque era difícil aproveitar o tempo até às 22h. Agora, posso chegar 23h e malhar até 1h, 2h. Nos horários comerciais, além da dificuldade de chegar na academia, enfrentava dificuldade para estacionar. Agora não passo por isso. É uma inovação que, de fato, ajuda na rotina das pessoas e da cidade. É claro que é um horário que não se adequa a todos, mas para quem pode, recomendo”, diz.


Exame médico no fim de semana amplia clientela

A rede de clínicas Diagmax é mais um exemplo de que a nova mobilidade urbana pode ser interessante não só para as cidades, mas também para os negócios. A rede, que tem se espalhado pelos shoppings pernambucanos, decidiu ampliar os horários de realização de exames até às 22h e passar a atender nos fins de semana. Desde então, só faz crescer e atrair novos clientes. A cultura do horário ampliado tem se espalhado e já responde por 15% a 20% da demanda de pacientes da rede.

As lembranças de um dos sócios e diretor médico da rede, o radiologista Marcelo Menezes, dos fins de semana quando levava a família para o shopping como forma de distração enquanto aguardava a chegada de clientes, se perdeu no tempo. “No começo era bem difícil porque os pacientes nem sabiam do horário ampliado nem tinham a cultura de agendar exames nos fins de semana ou à noite. Mas há um ou dois anos isso foi mudando. Você percebe que a cidade já tem demanda para esse tipo de inovação. Estar dentro dos shoppings também ajudou muito porque oferece segurança. Hoje em dia temos inúmeras pessoas que viraram nossos clientes por causa do horário diferenciado. São pessoas que querem se cuidar, mas enfrentam dificuldades como o trânsito para encaixar exames na rotina. As cidades, de fato, precisam de mais serviços em horários ampliados”, defende o médico.


De carro, patinete e sem susto com multas

O gestor de inovação Fellipe Sabat viu no patinete elétrico uma forma de evitar multas por estacionamento irregular e ter mais tranquilidade na rotina diária. Não abandonou o automóvel para ir trabalhar, mas se permitiu mesclar o deslocamento com um modal que, apesar das polêmicas, deu um novo ânimo à micromobilidade no Brasil – ninguém pode negar. Comprou um patinete elétrico e anda com ele na mala do carro. Complementa o percurso na ida e na volta depois que estaciona o veículo. “O uso do estacionamento rotativo não estava sendo viável para mim. O limite de horas não coincidia com a minha rotina. Levei duas multas em um mês e resolvi fazer algo. Em fevereiro, quando passamos a contar com um sistema de compartilhamento de patinetes na cidade, experimentei e tive a ideia. Passei a utilizá-lo para complementar meu percurso depois que estaciono o carro numa área permitida. Tenho gostado da experiência. O deslocamento ficou mais divertido, mais agradável. Tenho usado o patinete, inclusive, para ir à padaria, à academia”, conta.

É fato que Fellipe Sabat continua indo e vindo de casa para o trabalho, sozinho, em seu carro de cinco lugares. Mas, por outro lado, ao circular nos seus pequenos percursos de patinete elétrico fomenta a ideia de que uma nova mobilidade urbana é possível e que ela pode começar em cada um, sem esperar ou depender apenas das promessas do poder público. Prova disso é que Fellipe é abordado constantemente por curiosos querendo saber onde e por quanto comprou o equipamento, se é fácil de usar e assim por diante.


Home office como alternativa de vida

A possibilidade de trabalhar em casa sem precisar se preocupar em enfrentar os congestionamentos diários para ir e vir nas cidades mudou a vida da analista judiciária Raquel Pontual. Funcionária do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) – instituição que, assim como o Tribunal Regional do Trabalho (TRT), adotou o teletrabalho bem antes da regulamentação nacional –, Raquel não entrou para o home office motivada pela difícil mobilidade urbana das cidades. Pelo menos não inicialmente. As razões foram pessoais: para acompanhar uma transferência do marido. Mas com o tempo, a dificuldade de ir e vir, a perspectiva de ficar presa em congestionamentos fizeram a diferença para a permanência no modelo de trabalho.

“O teletrabalho é, sem dúvida, uma excelente alternativa para a saúde das cidades. Se tivesse que voltar a enfrentar o trânsito diário da minha casa até a Diretoria Cível de 1º Grau (no Fórum do Recife, na Ilha Joana Bezerra, área central do Recife) onde atuou, seria ruim. É claro que há desvantagens no trabalho remoto, que é necessário disciplina e controle da produção e da qualidade do que é produzido. Mas há muitas vantagens também. A sociedade, instituições, corporações e empresas precisam se abrir para essa possibilidade. As cidades agradecem. Muitas vezes a produção do profissional é até maior do que se ele estivesse presente fisicamente”, ensina.