O maior jogo da história

Central x Flamengo: o jogo em que a Patativa bicou o Urubu

Se tem uma data que jamais será esquecida pela torcida alvinegra, sem dúvida é o 22 de outubro de 1986. Naquela noite, no então Estádio Pedro Víctor de Albuquerque, que recebeu o maior público até então registrado, com quase 25 mil torcedores, o Central entrou em campo para enfrentar o Flamengo/RJ, em partida válida pela terceira rodada do grupo J, na segunda fase do Campeonato Brasileiro de Futebol. O rubro-negro carioca, que vivia sua década de ouro, anos antes havia conquistado a Taça Libertadores da América e o Mundial de Clubes, além de três Campeonatos Brasileiros (80-82-83), sem contar os Campeonatos Cariocas de 81 e 86, o que fez com que a sua presença no Agreste pernambucano chamasse a atenção de toda região.

Mas tamanho currículo não foi suficiente para intimidar a Patativa, que não tomou conhecimento do adversário e bicou o Urubu, vencendo a partida por 2×1. Uma jornada épica, não por acaso apontada como o jogo inesquecível ao longo dos cem anos de história do clube alvinegro, na qual Caruaru mostrou para o Brasil que tem time para torcer.

Manchete do jornal Diário de Pernambuco sobre o jogo Central x Flamengo.

Atrativos não faltaram para o torcedor acompanhar a partida. Era a primeira vez que o Flamengo atuava no interior pernambucano. Mesmo desfalcado de sua principal estrela, Zico, que ficou no Rio de Janeiro recuperando-se de uma lesão muscular, assim como de outros atletas de destaque como Leandro, Adílio e Sócrates, o rubro-negro carioca trouxe para Caruaru jogadores como Mozer, Júlio César e substitutos à altura, representando uma nova geração de craques que anos depois viria a brilhar nos gramados do Brasil e do exterior, a exemplo de Aldair, Jorginho, Zinho e Bebeto.

Como se isso não bastasse, dirigiu o encontro Romualdo Arppi Filho, árbitro que quatro meses antes havia apitado a final da Copa de 86 no México, num Estádio Azteca lotado, quando a Argentina conquistou seu segundo título mundial ao derrotar a Alemanha por três a dois. Ingredientes suficientes para justificar a presença dos torcedores que lotaram as dependências do velho PV, num recorde de público jamais batido.

A delegação do Flamengo ficou concentrada em Recife, vindo a Caruaru apenas no dia do histórico jogo, o que de certa forma frustrou seus torcedores na região. Os ingressos foram esgotados com antecedência, o que fez com que a diretoria tivesse de providenciar carros de som para circular pelas ruas da cidade no dia do jogo, comunicando aos torcedores para ficarem em casa. Até mesmo o comércio fechou as portas mais cedo. Os portões do estádio foram abertos ao meio-dia e às 18h o espaço já estava lotado.

Pacheco, meio-campo do Central contra o Flamengo.

Nas arquibancadas o que se viu foi não apenas torcedores de Caruaru, mas também de toda região e até mesmo de estados vizinhos. Contudo, o orgulho alvinegro falou mais alto, com a torcida do Central ocupando mais de 80% das arquibancadas. Foi preciso o reforço de policiamento vindo da capital. O interesse da partida foi tanto, que até mesmo emissoras de rádio não apenas cariocas, mas de toda região e estados vizinhos fizeram a transmissão do encontro.

Uma festa do futebol que foi retribuída pelos jogadores da Patativa dentro de campo, que encarnaram a raça dos bons esquadrões alvinegros formados nas décadas de 60, na época do eterno ídolo Vadinho. Na ausência do ‘Galinho de Quintino’ em campo, quem brilhou com um belo futebol foi Zico, meia do Central, junto com nomes como Zé Carlos Macaé e Pacheco. Contudo, o herói da partida acabou sendo o atacante Ronaldo, que fez história ao assinalar os dois gols da vitória alvinegra, um em cada tempo de jogo.

O primeiro surgiu aos 14 minutos da etapa inicial, quando após uma falta cobrada por João Luís pela esquerda, a bola foi alçada à área rubro-negra, para Jorge Vinícius escorar de cabeça e quase na marca do pênalti Ronaldo ajeitar e fuzilar em direção à rede flamenguista defendida pelo goleiro Zé Carlos. Já o segundo gol surgiu aos 20 minutos da etapa complementar, numa jogada nascida através do goleiro Carlinhos, que lançou com as mãos para Serginho pela esquerda, que passou pela marcação rubro-negra e cruzou mais uma vez para Ronaldo, dessa vez de cabeça, assinalar o segundo gol Patativa.

Momento do primeiro gol do contra o Flamengo.

O Flamengo veio a descontar nos acréscimos do jogo, aos 48 minutos, através do atacante Vinícius, mas nada que evitasse a festa da torcida alvinegra pela vitória na histórica partida. Os jogadores do Central também comemoraram bastante o resultado dentro do gramado e agradecendo o apoio vindo da torcida nas arquibancadas. Uma data histórica para Caruaru e o futebol do interior pernambucano, sem dúvida, para jamais ser esquecida pela torcida alvinegra e que será sempre motivo de orgulho para várias gerações. 22 de outubro de 1986: o dia em que o Central não tomou conhecimento do campeão mundial, o dia em que a Patativa cantou mais alto e bicou o Urubu.

Patrocínio:

Casa do Serralheiro
Polo Caruaru
Asces
SJCC Interior