Zika e desenvolvimento da audição nos primeiros mil dias de vida

A pequena Beatriz Vitória, 2 anos e 2 meses, nasceu com perda auditiva nos dois ouvidos decorrente da infecção congênita pelo zika. Hoje só precisa de um barulhinho qualquer para se virar para o lado de onde vem o som. Nesta reportagem, destacamos que as atividades de reabilitação e o uso de prótese auditiva têm ajudado Beatriz a avançar nas habilidades comunicativas.

A audição é valiosa para o amadurecimento da comunicação nos primeiros mil dias de vida e, por esse motivo, deve ser estimulada desde que o bebê está na barriga. Afinal, por volta da 25ª semana de gestação, esse sentido começa a se desenvolver. Naturalmente, as infecções que atingem a mãe durante a gravidez podem comprometer a saúde auditiva do bebê. Um dos primeiros achados da era zika, frutos de uma análise sobre as crianças expostas ao vírus intraútero, revelam que 5% delas têm algum grau de perda auditiva. A partir dessa constatação, especialistas passaram a considerar a infecção materna pelo zika mais um fator de risco para deficiência auditiva. Agora, quando parte dos pequenos já atingiu os primeiros mil dias de vida, as pesquisas levam a um novo caminho: otorrinos e fonoaudiólogos querem entender por que as crianças que foram expostas ao zika na gestação e têm função auditiva normal (detectam o som) possuem dificuldades para compreender o que escutam.

“Espera-se que a criança, aos 2 anos, tenha um vocabulário maior que o apresentado pelos pacientes com zika congênita. Alguns deles nessa faixa etária, mesmo com avaliação auditiva normal, não alcançaram ainda o esperado para a fala (linguagem oral)”, informa a otorrinolaringologista Mariana Leal, chefe do serviço de Otorrinolaringologia do Hospital Agamenon Magalhães, unidade em Casa Amarela (Zona Norte do Recife) que acompanha a saúde auditiva dos pequenos. A médica salienta que um grupo dessas crianças tem um atraso na localização do som. “Em geral, para todos os bebês aos 6 meses, espera-se que ele vire em busca do barulho. Alguns bebês com a síndrome congênita do zika ou não localizam a fonte sonora ou têm um retardo para fazer essa identificação.”


Beatriz Vitória nasceu com perda auditiva nos dois ouvidos. Há mais de um ano, ela usa aparelho auditivo, o que tem sido fundamental para ela começar a interagir bem

Um estudo conduzido por Mariana Leal vai mostrar que, entre as crianças expostas ao zika e que tiveram avaliação auditiva periférica (ouvido) sem problemas, 50% manifestam alterações na comunicação e no comportamento diante da reação ao som. Isso sugere que esse grupo, apesar de apresentar audição periférica normal, tem transtorno do processamento auditivo central – ou seja, algum problema desordena a capacidade do cérebro de usar a informação que chega pelos ouvidos.

“Se a criança processa bem o som e não compreende o que escuta, terá dificuldade na aquisição da linguagem. Então, nosso próximo passo é partir para exames que avaliam a parte da via auditiva central”, explica Mariana, que acompanha cerca de 300 crianças expostas ao zika intraútero. Entre elas, há aquelas com diagnóstico confirmado da síndrome congênita do vírus e outras que não têm sintomas, apesar de a mãe ter manifestado zika na gestação. “A gente se propõe a fazer o acompanhamento desses pacientes até completarem 5 anos, a fim de tentar identificar se haverá perda auditiva tardia ou progressiva.”

Para as crianças com a saúde auditiva comprometida, o tratamento deve ser iniciado o quanto antes: inclui estimulação e terapia fonoaudiológica. “Para perda auditiva, recomendam-se o uso do aparelho e o implante coclear. Há quatro pacientes que acompanhamos com prótese auditiva e só um que teve indicação para o implante. Eles também fazem fonoterapia. A prótese amplifica e permite o acesso aos sons da fala e do ambiente. Então, são intervenções cruciais para se estimular e oferecer condições favoráveis para um melhor desenvolvimento infantil”, acrescenta Mariana Leal.


A otorrinolaringologista Mariana Leal frisa que os estímulos auditivos são essenciais para as crianças terem a capacidade de desenvolver a comunicação

É o caso da pequena Beatriz Vitória, 2 anos e 2 meses, que nasceu com perda auditiva nos dois ouvidos (profunda no esquerdo; moderada no direito). Há mais de um ano, ela usa prótese auditiva. “O aparelho foi fundamental para ela começar a interagir bem. Agora, quando Beatriz percebe algum barulho, ela já se vira para o lado certo do som. Além disso, apresenta ótimo acompanhamento visual (dos objetos e das pessoas ao redor). Tudo isso é fruto das terapias que ela começou a fazer desde os primeiros dias de vida. Beatriz faz fono, fisio e terapia ocupacional, além de realizar atividades de estimulação auditiva e visual”, conta a mãe de Beatriz Vitória, a dona de casa Wilma Santos, que não alimenta dúvidas sobre o potencial que a filha possui para ser desenvolvido e, dessa maneira, adquirir e aprimorar habilidades.



 

“Bia só faz nos dar bastante orgulho”

Wilma Santos, mãe de Beatriz Vitória, em depoimento a Cinthya Leite



Meses antes de Bia chegar ao mundo (ela nasceu em 18 de dezembro de 2015), já se falava sobre microcefalia. Então, eu tinha um certo receio dessa condição, mas o que me tranquilizava era o fato de o ultrassom morfológico (realizado entre a 20ª e a 24ª semana de gestação e que é capaz de identificar cerca de 95% das malformações congênitas), que fiz meses antes, ter mostrado que estava tudo normal com minha filha. Vinte e um dias antes do parto, contudo, eu soube da suspeita de microcefalia durante a quarta ultrassonografia, feita para o obstetra verificar o grau de maturidade da placenta. Nesse exame, percebeu-se que a proporção da cabeça não estava em harmonia com o tamanho do corpo. Lembro que, a contar do dia do parto, chorei por 21 dias consecutivos. Foi muito aperreio. A gente se prepara para a gestação e vai para a maternidade para dar à luz um filho saudável. Então, veio um sentimento desesperador só de pensar na possibilidade de não trazer Bia para casa. O parto foi tranquilo, ela nasceu com uma boa nota no teste de Apgar (método que mede a saúde do recém-nascido e determina se ele precisa ou não de alguma assistência médica imediata) e não precisou ser internada. Lembro que meu marido falou: “ela é linda e perfeita”. Consegui relaxar um pouco. Com o passar dos dias, percebemos que criar uma criança especial requer mais atenção, mas não é tão diferente do que cuidar de outra sem problemas de saúde. Sim, sempre bate um medo. E no início, foi tudo mais complicado porque teve a maratona de exames, médicos e terapias. Nos primeiros meses, lembro que se falava muito sobre a estimulação precoce, e eu confiei nisso. No 31º dia de vida, Bia já estava fazendo atividades: entrou na Fundação Altino Ventura (FAV), na AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente) e no Imip (Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira). Hoje ela continua fazendo as atividades de reabilitação na FAV, usa aparelho auditivo, óculos e órtese, além de já ter recebido duas aplicações de toxina botulínica (substância indicada para possibilitar à criança ter músculos mais flexíveis, o que ajuda a amplitude de movimentos dos braços e das pernas) nos quadris e nos braços. Tudo isso só tem trazido ganhos para Bia em todos os sentidos. Dentro do quadro clínico dela, vejo que existe desenvolvimento. Para este ano, minha expectativa é que ela sente sem ajuda de almofadas. É uma filha risonha e que só me dá muito orgulho.



Assista ao programa, na TV JC, sobre esta reportagem especial:

Como está a qualidade no atendimento às crianças que nasceram com microcefalia e outros comprometimentos da síndrome congênita do zika? Quais as conquistas das famílias? O que falta para melhorar o cuidado aos pacientes? Ao vivo, no programa Casa Saudável da sexta-feira (16/3/18), essas questões foram abordadas. A jornalista Cinthya Leite entrevistou Pollyana Dias, presidente da Aliança de Mães e Famílias Raras (Amar), Cristina Mota, secretária-executiva de Atenção à Saúde de Pernambuco, e Eliane Germano, diretora de Atenção à Saúde do Recife.


Expediente

13 de março de 2018

Diretoria

Laurindo Ferreira
Diretor de Redação do Jornal do Commercio
Maria Luiza Borges
Diretora de Conteúdos Digitais do SJCC
Beatriz Ivo
Diretora de Jornalismo da Rádio e TV Jornal

Edição

Diogo Menezes
Editor Executivo
Betânia Santana
Editora Assistente

Zika no Mundo

Mariana Barros
Produção e reportagens
Mônica Carvalho
Edição de texto
Adriana Victor
Edição de texto
Eriberto Pereira
Edição de imagens
Mariana Barros
Imagens
Luisi Marques
Imagens
Luiz Carlos Oliveira
Imagens
Alcides Nunes
Imagens
Catarina Farias
Videografismo

Conteúdo

Cinthya Leite (cinthyaleite@casasaudavel.com.br)
Concepção, reportagem e edição

JC Imagem

Arnaldo Carvalho
Editor Executivo
Heudes Regis
Editor Assistente
Bobby Fabisak
Fotógrafo
Felipe Ribeiro
Fotógrafo

Edição de Vídeo

Victória Gama

Design

Bruno Falcone Stamford
Editor de Artes
Karla Tenório
Editor Assistente de Artes
Moisés Falcão
Coordenador de Design Digital
Wilker Mad
Design
George Oliveira
Design
Bruno de Carvalho
Front-End