Amor em fila de espera

Entrou uma mulher bonita e elegante na sala de hemodiálise. Foi o suficiente para ele se admirar e deixar de lado o marasmo que, vez ou outra, teimava em rondar aquele espaço repleto de máquinas cuja missão é limpar e filtrar o sangue – ou seja, fazer parte do trabalho que um rim doente não é capaz de executar. “Puxa! Como ela é linda…”, pensou o jornalista Hugo Montarroyos assim que viu a pedagoga aposentada Maria do Carmo Alencar chegar à clínica para realizar uma sessão de hemodiálise (procedimento pelo qual ambos passavam, três vezes na semana, enquanto estavam na fila de espera do transplante de rim). E imediatamente passou também pela mente de Hugo: “Mas que pena que ela está aqui. Mas já que está aqui…”. E assim ele continuou a apreciá-la, imaginando que poderia ser casada porque usava um anel, semelhante a uma aliança, na mão esquerda. “Dizia para mim mesmo que, por causa disso, nem perto dela chegaria.”

Bastou, contudo, Maria do Carmo trocar o horário da sessão de hemodiálise para Hugo se aproximar um pouco e tentar puxar papo. Conversaram por algumas horas. “Queria saber o que ela fazia, onde morava… Quando me dei conta, já havia ficado muito interessado nela. Chegando em casa, enviei uma solicitação de amizade pelo Facebook. Ela aceitou, mas não respondeu a mensagem privada que eu tinha mandando também.” Provavelmente, como eles não eram amigos na rede social, o recado deve ter ficado ocultado e, só depois de dois meses, ela leu. “Começamos, então, a nos comunicar”, recorda Maria do Carmo. Entre tantas conversas, a suspeita de Hugo (para a felicidade dele) não foi confirmada. “Soube que era solteira e fiquei na expectativa em como essa amizade poderia evoluir.”

Um dia marcaram para tomar um café, a paquera progrediu e o namoro começou. “Já completamos dois anos juntos. Somos companheiros e nos completamos até no que não somos parecidos. Tenho a tranquilidade em dizer que conheci o amor da minha vida”, conta Maria do Carmo. “Acredito que eu passei por tudo isso para conhecer Carminha (como Hugo a chama carinhosamente)”, complementa o jornalista, ao deixar entender que o destino quis que ele passasse pela doença renal crônica para o seu caminho e o de Maria do Carmo se cruzarem. “Talvez, se a gente se conhecesse de outra forma, não seria tão profundo, tão bonito como é… Carregamos a certeza de que é para o resto da vida.”

HORA DO TRANSPLANTE

Esse carinho todo deu um novo rumo ao casal e deixou de lado o marasmo das sessões de hemodiálise. O recomeço da vida deles ainda estava por vir. Depois da solidez desse amor, prevaleceu um círculo virtuoso (série de acontecimentos positivos) para eles. “A energia da gente cola no que desejamos”, filosofa Hugo. Nove meses após o início do namoro, Maria do Carmo recebe um telefonema para avisar que havia chegado o momento do transplante renal. O doador foi um paciente de 30 anos, que teve morte encefálica, ao levar um tiro na cabeça. “Sou eternamente grata por essa doação. Esperei um ano e dois meses pelo transplante, indicado porque eu tinha rins policísticos. Sou hoje uma mulher muito feliz com a nova vida e a boa saúde que ganhei. Só tenho o que comemorar”, relata cheia de emoção.

Hugo e Maria do Carmo: paquera na hemodiálise. Juntos há dois anos, comemoram vida nova após transplantes de rim

O destino sincronizou tudo tão bem que o tempo de recuperação do pós-transplante de Maria do Carmo foi o suficiente para ela estar pronta e dar força a Hugo, realizou o mesmo procedimento quase cinco meses depois que ela recebeu o novo rim. “Quando soube que havia sido encontrado um doador compatível, eu fiquei em choque, como tivesse recebido uma anestesia. Afinal, fazia quase seis anos que eu estava na fila de espera e, por todo o tempo passado, já descartava a possibilidade de transplante. Achava que não apareceria mais um rim para mim”, conta Hugo, que recebeu a notícia de que seria submetido à cirurgia na noite de um domingo.

Na tarde do dia seguinte, ele foi operado e, assim que acordou depois do transplante, só esbanjava alegria por estar vivo. “Naquela hora eu pensei que eu já havia superado o mais difícil e que tudo que viesse, a partir de então, seria lucro. Lembro que, um dia após a cirurgia, só fazia chorar. Eu não acreditava que estava com um novo rim, a emoção tomou conta de mim. Foi tudo muito libertador.” A sensação de independência relatada por Hugo está embutida de significados. Mais do que se sentir livre das sessões de hemodiálise, ele estava certo de que, a partir daquela ocasião, ele poderia voltar a fazer coisas simples, das quais era impedido de fazer por causa do problema renal que tinha. “Beber água, por exemplo, passou a ter um valor imenso para mim. Enquanto eu estava em tratamento com a hemodiálise, não poderia ingerir mais de um litro de líquido por dia. Agora, tomo à vontade.”

Hoje ele e Maria do Carmo sempre estão com uma garrafinha de água a tiracolo. Com a saúde plena, o casal agora planeja muitas viagens juntos e querem curtir todos os momentos lado a lado, com a certeza de que agora eles não enfrentam mais limites para continuar a renascer (também) pelo amor.

Em geral, doenças renais crônicas são silenciosas

Foi subitamente que o jornalista Hugo Montarryos descobriu a doença renal crônica. Apesar de saber que tinha picos na taxa da pressão arterial, não imaginava que um dia pudesse passar tão mal a ponto de, no dia em que chegou ao hospital, já receber a notícia de que precisaria passar por sessões de hemodiálise. A forma inesperada com que o problema grave nos rins apareceu para Hugo é recorrente entre a maioria dos pacientes. “O maior problema de boa parte das doenças renais é que elas são silenciosas. Em fase precoce, é muito difícil flagrar algum sintoma relacionado à evolução da agressão ao rim. Essa detecção geralmente só acontece em fases avançadas da doença renal crônica”, explica o médico Frederico Cavalcanti, coordenador da Unidade de Nefrologia do Real Hospital Português (RHP), no bairro de Paissandu, área central do Recife.

Frederico Cavalcanti

“O maior problema de boa parte das doenças renais é que elas são silenciosas”, alerta Frederico Cavalcanti

É justamente no momento em que os problemas se agravam que os médicos indicam a substituição da função renal, que pode ser feita pela diálise e o transplante de rim. “Este é o padrão ouro no tratamento”, frisa Frederico. Nesse cenário, Pernambuco se destaca: aparece em 5º posição, no Brasil, entre os que mais realizam o procedimento. No ano passado, o Estado bateu um recorde: realizou 406 transplantes de rim (anteriormente, 2015 tinha sido o ano com mais procedimentos: 344). Em comparação com 2016, com o registro de 286 cirurgias, o aumento em 2017 foi de 41%. Apenas três Estados realizaram mais de 40 transplantes renais, no ano passado, por milhão de população com doador falecido – entre eles, está Pernambuco, ao lado do Rio Grande do Sul e do Paraná, segundo o balanço da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).

“O transplante melhora positivamente a qualidade de vida dos pacientes. Às vezes, eles já se sentem tão acostumados com a hemodiálise que podem manifestar pouca segurança para passar pelo procedimento. Isso é explicado pelo fato do desconhecimento das pessoas sobre uma nova terapia. Além disso, quando vem a acomodação com a diálise, o paciente pode sentir receio de passar para uma nova etapa de mudança na vida”, esclarece Frederico. Ele acrescenta que o retorno das pessoas, aos serviços de hemodiálise após o transplante, é essencial para estimular os pacientes mais resistentes ao procedimento, que é capaz de dar liberdade e vida nova.

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