O recomeço de Adriana

Em julho de 2013, a auxiliar de professora da educação infantil Adriana Roberta Cavalcanti, 32 anos, passou por uma das piores complicações da diabetes tipo 1, diagnosticada desde os 9 anos. Desmaiou em casa por causa de uma crise extrema de hipoglicemia (nível muito baixo de glicose de sangue) e cortou o queixo. Como tantas outras vezes, foi socorrida pelos vizinhos, que logo ligaram para o marido dela, o assistente de fotografia Adriano Tomé, 40. “Enquanto eu aguardava o cirurgião para costurar o queixo cortado, o telefone toca. Era o médico da equipe de transplante do Imip (Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, no bairro dos Coelhos, área central do Recife) para comunicar que havia sido identificado um doador de pâncreas e rim compatível comigo. Eu saí descalça do hospital onde estava, sem dar satisfação a ninguém. Chegamos logo ao Imip”, recorda Adriana, que não consegue explicar a boa sensação que sentiu ao saber que faria um transplante duplo, capaz de lhe devolver uma qualidade de vida que não conhecia.

A nova vida de Adriana também veio acompanhada por mais disposição para cuidar da filha, Ariane

O tipo de diabetes que Adriana tinha é decorrente de uma falência total do pâncreas, que deixa de produzir insulina. Por isso, ela tomava doses de insulina para tentar levar uma vida saudável. Mas o tratamento não surtia efeito, e o excesso de glicose no sangue também comprometeu os rins. Por isso, Adriana precisou se submeter a sessões de hemodiálise, que não traziam os resultados esperados. Foi inscrita na fila de espera do transplante de rim com pâncreas, indicado para as pessoas com diabetes que desenvolvem insuficiência renal. “Horas antes de o transplante ser realizado, logo pensei que ficaria livre da máquina de hemodiálise. Aquilo me trouxe uma sensação tão boa… E deu tudo certo. No pós-operatório, passei um mês no hospital e atualmente só vou para as consultas a cada quatro meses. Permaneço saudável, meus exames estão ótimos e nunca mais precisei me internar”, comemora Adriana.

O transplante duplo foi responsável por dar a Adriana um bem-estar que ela não conhecia. “Antes da cirurgia, eu não trabalhava, tinha um cansaço imenso, viva sem forças e ânimo. A convicção era de que eu poderia morrer a qualquer momento. Hoje eu tenho saúde.” A nova vida também veio acompanhada por mais tempo para cuidar da filha, a estudante Ariane, 9. A sensação é de que o recomeço deixou aflorar ainda mais o sentimento maternal. “Hoje em dia posso cuidar dela, acompanhá-la nas festinhas dos amigos e da escola.” Ela não se cansa de agradecer à família que autorizou a doação dos órgãos que trouxe tanta esperança. “Foi um ato de amor que os parentes fizeram sem saber quem eu sou”, completa Adriana, que não tem dúvidas de que a generosidade que envolve o mundo dos transplantes é responsável por lhe dar agora satisfação pela vida.

Em PE, Imip é o único serviço que realiza transplante duplo

O Imip é o único serviço, em Pernambuco, que realiza o transplante rim com pâncreas, menos frequente do que os demais procedimentos no Estado. De janeiro a maio deste ano, segundo a Central de Transplantes de Pernambuco (CT-PE), duas cirurgias de implantação dos dois órgãos, simultaneamente, foram feitas – o percentual é 50% menor do que no mesmo período de 2017. Atualmente cinco pacientes aguardam, no Estado, por esse transplante duplo.

“É fantástico ver o resultado dos pacientes”, diz Amaro Medeiros

“As indicações para o procedimento são bem restritas e, por isso, a fila de espera é menor, em comparação a outros órgãos. Geralmente podem ser beneficiados pacientes com diabetes tipo 1, dependentes do tratamento com insulina, e que estão em programas de hemodiálise. Observamos uma boa melhora na qualidade de vida após a cirurgia”, esclarece o nefrologista Amaro Medeiros, que coordena a Unidade Geral de Transplantes do Imip. Os resultados, segundo o médico, são animadores: após o primeiro ano do procedimento, a média de sobrevida do paciente com os novos pâncreas e rim é de 94%.

No Imip, as equipes de transplante e de endocrinologia analisam agora a possibilidade de o serviço iniciar o transplante isolado de pâncreas. “É outra indicação interessante, pois há pacientes com diabetes tipo 1, jovens, que dependem de insulina e que podem se beneficiar com o procedimento. Vamos analisar bem como podemos oferecer a cirurgia, pois há um grupo de pessoas que, apesar de seguir tudo o que há disponível para tratar a diabetes, evolui muito mal. Para elas, o transplante isolado de pâncreas pode ser uma alternativa”, acrescenta Amaro, que se emociona ao falar como trabalhar com o universo da doação de órgãos tem sido fascinante, para ele, desde a década de 1970. “É fantástico ver o resultado dos pacientes”, declara o nefrologista, sempre com o sorriso de quem sabe como o transplante transforma vidas.

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