O novo olhar de Altamir

Tirou os óculos escuros, olhou fixamente para o rosto do pai e disse: “Que cara feia”. Fora de contexto, essa frase poderia causar aborrecimento ou soar, no mínimo, como brincadeira sem graça. Para o comerciante Altamir Ferreira, 50 anos, as palavras formaram uma melodia que simbolizava o quanto o filho, de 18 anos e batizado com o mesmo nome, conseguia contemplar tudo em volta sob uma luz diferente. Era o sinal de que uma máquina passou a ter condições de funcionar. Uma máquina chamada visão. Naquela ocasião, pelos olhos (praticamente) de lince, o jovem Altamir voltava a contemplar um leque imenso de informações que o cerca e, dessa maneira, conseguia se apropriar do ambiente ao redor.

Depois de anos sem conseguir enxergar, ele achou diferente o rosto do pai, que agora está mais queimado do sol, mais forte e com cabelos brancos. Então, quando ele falou ‘cara feia’, percebi o tanto de tempo que ele passou sem ver bem”, conta a mãe do rapaz, a professora aposentada de língua portuguesa Glória Alencar, 49. O episódio que ela relembra ocorreu poucos dias após Altamir Filho ter se submetido ao transplante de córnea – cirurgia esperada por cerca de um ano pela família, natural de Major Izidoro (AL), município a 200 quilômetros de Maceió. O pai, que não se irritou nem um tico com as palavras do filho, só tem o que comemorar: “Ele não andava direito porque mal enxergava. Agora está perfeito e mais alegre. É uma outra pessoa”.

Altamir, Glória e o outro olhar do jovem de 18 anos, que 15 dias após 1ª consulta em Pernambuco estava de córnea nova

Quando Glória recorda a trajetória pela qual teve que passar para o filho receber uma nova córnea (tecido transparente que cobre a pupila e ajusta o foco da imagem no olho), ela deixa transparecer uma sucessão de sentimentos e emoções positivas, como felicidade e gratidão. É agradecida à família que possibilitou a doação da córnea do parente que se foi, além de esbanjar alegria porque agora o filho, que vivia tristonho em casa, só pede para passear.

“A partir do momento em que ele foi deixando de enxergar, passou a ficar mais quieto. Comecei a estranhar porque ele era animado, extrovertido e brincalhão”, diz Glória, que lembra o dia em que ficou angustiada ao perceber que ele batia no rosto porque não conseguia ver os vídeos no celular. “Tentei acalmá-lo, dizendo que ele iria ficar assim por pouco tempo, mas a nossa luta durou pouco mais de um ano.” Os primeiros obstáculos despontaram em setembro de 2016, quando um “risquinho” apareceu no olho esquerdo de Altamir Filho. “Levei numa oftalmologista. Ela disse que se tratava de um germe e que futuramente seria necessário passar pelo transplante. Eu pensei que a cirurgia viria só em muitos anos. Mas passados seis meses, a perda da visão ficou mais perceptível.”

A contar desse momento, foi iniciada a peregrinação da família. “Fomos para Maceió, e lá disseram que ele tinha que fazer o transplante de córnea. Mas a equipe não operaria por ele ser especial”, relata Glória, ao referir-se à condição genética de Altamir Filho. Ele nasceu com síndrome de Down, alteração que ocorre em cerca de um a cada 700 nascimentos. “Quando a médica disse que não faria a cirurgia por causa da síndrome de Down, já senti um pouco de rejeição da parte dela.” O transplante foi indicado por causa do diagnóstico de ceratocone – distrofia da córnea que acomete de 2% a 7% das pessoas com Down.

Com os obstáculos encontrados em Maceió, a família seguiu para Aracaju, onde a lista de espera por uma córnea chegava a dois anos, segundo relata Glória. “Era muito tempo. Então, o médico disse para irmos a Brasília. Quando chegamos lá no dia combinado, o oftalmologista disse que não havia córnea disponível. Como mãe, eu já não estava mais suportando, pois a baixa visão começou a limitar a vida do meu filho. A angústia era imensa. Cheguei até a dizer que, se não encontrasse uma córnea para ele, eu seria capaz de doar a minha.”
Depois de tantos altos e baixos, Glória chegou até o Hospital de Olhos de Pernambuco (Hope), na Ilha do Leite, bairro da área central do Recife. O Estado possui o status de córnea zero. Isso significa que o paciente, após realizar as avaliações médicas necessárias para ser inscrito na fila de espera, faz o transplante em até 30 dias. Muitos dos exames Altamir Filho já tinha feito. Então, em menos de 15 dias após a primeira consulta, ele já estava de córnea nova.

“Nem acredito que agora estamos contando a vitória. Ninguém imaginava que um ano de luta poderia ser resolvido, em Pernambuco, em poucas semanas.” Hoje faz exatamente 1 mês e 16 dias de uma cirurgia que, de tão bem-sucedida e esperada, presenteia o jovem com os registros das melhores cenas de sua vida.

Transplante de córnea: a história de um novo olhar sobre a vida

Se cada um pudesse ver, um dia que fosse, a alegria de alguém que recebeu uma córnea e voltou a enxergar, não teria dúvidas sobre a importância da doação de órgãos e tecidos. Com essa declaração, o oftalmologista Lucio Maranhão, do Hospital de Olhos de Pernambuco (Hope) e da Fundação Altino Ventura (FAV), mostra o quanto é valioso conscientizar a sociedade. “Já acompanhei pacientes que tinham privações visuais e estavam sem esperança. São pessoas que, às vezes, até entram em depressão. Quando recebem nova córnea, ganham de volta não apenas a visão, mas também a alegria de viver e a vontade de fazer coisas que não conseguiam antes”, frisa Lucio Maranhão, que já realizou cerca de 800 transplantes de córnea.

O oftalmologista é um dos médicos que abraçaram a missão de diminuir a fila de espera por transplantes de córnea em Pernambuco. Em 2013, ele contribuiu para que o Estado alcançasse o status de córnea zero, mantido até 2015, segundo a Central de Transplantes de Pernambuco (CT-PE). O título, retomado em 2017, caracteriza os casos em que o paciente, após realizar os exames necessários para ser inscrito na fila de espera, é submetido ao transplante em até 30 dias. Atualmente, 75 pessoas aguardam uma córnea no Estado.

Oftalmologista Lucio Maranhão

“Ao pensar sobre a possibilidade de que cada um de nós pode passar por esse processo (enquanto doador e também receptor de órgãos), certamente a taxa de negativa familiar será menor”, frisa o oftalmologista Lucio Maranhão

“O procedimento é indicado para os casos de opacidade de córnea, que deixa a visão turva, e doenças que deformam completamente esse tecido (como o ceratocone), a um ponto que baixa a visão do paciente. O transplante ainda pode ser feito em casos de infecção. Se atingirem a córnea, dependendo da gravidade, uma cirurgia terapêutica pode ser feita”, informa Lucio Maranhão. O médico acrescenta que, para a cirurgia, é necessário que a estrutura do olho esteja em boas condições. “Se a retina, a mácula e o cristalino estiverem ruins, a visão não volta após o transplante. É por isso que os pacientes precisam ser bem avaliados antes do procedimento.” Outro detalhe é que não há limite de idade para a cirurgia.

Os pacientes com diminuição da qualidade de visão decorrente de problemas na córnea depositam no transplante a única esperança para voltar a enxergar.
“Acompanho uma paciente, na FAV, que estava com perda de visão nos dois olhos e, há 12 anos não enxergava. Precisou passar pelo transplante, e eu presenciei o dia em que foi tirado o tampão do olho. Pela primeira vez, depois de mais de 10 anos, ela viu a filha (que estava ao lado). É um momento do qual nunca vou me esquecer. Fiquei bastante tocado”, relembra Lucio Maranhão.

Para o oftalmologista, um instante como esse desperta a empatia, que é a capacidade de experimentar e compreender o sentimento do próximo. “Mesmo partindo, podemos fazer uma caridade a quem fica. É uma parte de nós que continua viva no semelhante, que será eternamente agradecido por essa doação.” A gratidão sublinhada pelo médico é um dos bens mais preciosos para quem renasce a partir desse gesto (simples, mas rico) em solidariedade.

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