Coração tinindo aos 60

Uma placa na entrada de uma casa no bairro de Ouro Preto, na cidade de Olinda, Grande Recife, sinaliza não apenas uma das residências, mas transparece o sentimento dos que sabem o valor da luta contra o tempo para salvar uma vida. “Família feliz” é o que lemos no muro, assim que chegamos ao lar do chefe de operações de transportadora aposentado Leonardo Gomes da Silva Filho, 60 anos, que há sete meses tem um novo coração batendo no peito. Não precisamos de muitos minutos de conversa para descobrir que, após o transplante cardíaco, Leonardo tornou-se seu próprio juiz sobre o que é felicidade. Ninguém define melhor do que ele a satisfação pela vida.

“Eu estou me sentindo ótimo, muito bem mesmo, praticamente um atleta. Na esteira, já uso a inclinação como se estivesse subindo ladeira, correndo, numa velocidade de 6,5 km/h. Meto bronca! Isso me deixa muito feliz. É vida nova agora”, vibra Leonardo. Com essa declaração, ele revela que a felicidade que transborda hoje no coração está intimamente ligada à saúde recuperada e à liberdade para fazer escolhas, sem ter limites para ir e vir.

A alegria é tão grande que ele estampa no peito a satisfação que o alimenta. Gravada na camisa usada em comemorações ao lado dos parentes, a frase “Refloresça a vida; doe órgãos” torna visível o quão grata a família é por ganhar a oportunidade de continuar com Leonardo por perto, graças a desconhecidos. Embora a identidade do doador seja omitida, por aspectos legais, ele retribui o gesto singelo de forma multiplicada, pois faz questão de compartilhar a emoção que circunda o mundo do transplante, libertador para quem convive com doença grave, em muitos casos, terminal.

Leonardo e a esposa

Leonardo e a esposa, Verônica, agora aproveitam com tranquilidade cada momento que a vida proporciona

“Usamos a camisa no réveillon, pouco mais de um mês após o transplante. A família toda vestiu. As nossas filhas, que não moram no Recife, vieram para ver o pai antes da cirurgia e ficar mais um tempo”, diz Verônica Vasconcelos Silva, 55, esposa de Leonardo. A filha caçula, de 30 anos, vive em João Pessoa. A mais velha, com 32, mora no Canadá. Foi lá onde Leonardo soube que a sua chance de vida estava no transplante cardíaco, durante viagem programada para o casal acompanhar o nascimento do primeiro neto, Nicolas, hoje com 1 ano.

“Iríamos ficar um semestre no Canadá. Depois de quatro meses lá, passei mal num dia, com pressão baixa. Recebi atendimento e fiz um ecocardiograma (exame capaz de avaliar se o coração está em boas condições). Logo os médicos suspeitaram de amiloidose (doença rara e progressiva que ocorre quando há acúmulo de uma proteína em órgãos como coração, rins e fígado) e fizeram uma biópsia, que confirmou a doença. O único jeito era voltar para o Brasil e ser submetido ao transplante cardíaco”, recorda Leonardo. Em 4 de outubro do ano passado, ele e a esposa retornaram, de avião, acompanhados de uma enfermeira e com todo o suporte para eventuais complicações de saúde. Tudo ocorreu bem.

“No dia seguinte à nossa chegada, já estava internado no Imip (Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira), onde passei um mês fazendo os exames pré-transplante. Entrei na fila de espera e aguardei a chegada do meu coração em casa.” Veio a expectativa de um telefonema do hospital. Um dia ligaram para dizer que havia sido identificado um doador compatível. “Corremos para o hospital e, quando eu estava a caminho do bloco cirúrgico, o médico disse que o coração tinha parado. Voltei para casa”, relembra.

Oito dias depois, Leonardo recebe outra ligação. “Trocamos rapidamente de roupa e fomos ao Imip. Dessa vez, ele entrou na sala de cirurgia, enquanto eu e minhas filhas ficamos no corredor. De repente, passa um médico segurando uma maleta. Perguntamos se nela estava o coração de Leonardo”, diz Verônica. A resposta: “Provavelmente”. Aquele momento foi inundado de fé, de um sentimento que faz a família compreender que nada é impossível e que vale sempre a pena aguardar o prazo da esperança no renascimento.

Pernambuco é 2º lugar no ranking nacional de transplante de coração

O balanço da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) mostra que Pernambuco fechou o ano de 2017 em segunda posição entre os Estados com o maior número de procedimentos cardíacos no Brasil. Em comparação com 2016 e considerando todos os órgãos, o maior crescimento foi observado no transplante de coração: no ano passado em Pernambuco, 54 pessoas receberam o órgão e, em 2016, 38, um incremento de 42%. Na primeira posição, está São Paulo, com 130 procedimentos em 2017.

“Aumenta ano a ano, em Pernambuco, o volume de transplantes cardíacos, em pacientes mais complexos (maior gravidade), que têm relatado mais qualidade de vida após a cirurgia. Um exemplo da nossa ascensão está no fato de o Imip fazer parte de um seleto grupo de 28 hospitais, no mundo, capazes de fazer mais de 30 transplantes de coração anualmente”, destaca o cirurgião cardiovascular Fernando Figueira, coordenador do Serviço de Transplante Cardíaco do Imip.

Cirurgião cardíaco Fernando Figueira

“Após o transplante, os pacientes voltam a produzir, trabalhar e viver seus sonhos. É um trabalho muito gratificante”, frisa o cirurgião cardiovascular Fernando Figueira

O médico acrescenta que o implante de um novo coração é o tratamento ouro para um paciente com insuficiência cardíaca em fase avançada, condição em que não há mais resposta com medicações ou outro tipo de cirurgia. “O transplante está indicado quando, ao longo de um ano, se extrapolam todas as possibilidades terapêuticas para a insuficiência cardíaca grave, que leva à morte em aproximadamente metade dos pacientes. Após o transplante, é oferecida uma sobrevida média de 11 anos”, frisa Figueira, com a certeza de que a gratificação pessoal é o melhor retorno que se tem ao ver cada paciente com um novo coração batendo no peito.

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