Ela sempre quis ser doadora. Respeitamos essa vontade

Conheça agora a história por trás de um gesto de solidariedade multiplicado por três. É o relato de uma mulher que, inspirada na trajetória de vida da irmã, disse sim à doação de órgãos no momento mais doloroso da vida. Em abril, a cirurgiã cardiovascular Cibelle Padilha, 33 anos, abriu o coração para a generosidade. Ela estava diante da confirmação do diagnóstico de morte encefálica da irmã, a advogada Giselle Padilha, 36, que faleceu após complicações de uma parada cardíaca, decorrente de uma dosagem de medicação, para tratar a depressão, maior do que a habitual.

Mesmo diante de tanta dor, Cibelle decidiu que os órgãos da irmã deveriam ser doados a pessoas que ela nem conhecia, mas tinha a certeza de que estavam em urgência para recebê-los. Foi através dessa atitude de empatia, colocando-se no lugar de pessoas que tinham fé no transplante para continuar vivendo, que Cibelle multiplicou esse simples ato. O gesto foi triplo porque três pessoas renasceram com os órgãos de Giselle. “Por alguma razão, a Central de Transplantes de Pernambuco alegou que fígado e córneas estavam inviabilizados para serem implantados. Mas o coração e os dois rins da minha irmã puderam ser doados. A vida dela não tinha mais como ser salva. Mas, mesmo após a morte, ela conseguiu preservar outras três vidas”, emociona-se Cibelle.

Nos casos de morte encefálica (acontece quando o cérebro perde a capacidade de comandar as funções do corpo), como ocorreu com Giselle, é possível doar coração, rins, pâncreas, fígado e córneas, dependendo das funções de cada órgão no momento do diagnóstico. “O tempo de parada cardíaca foi tanto que levou a danos neurológicos. Ela teve hipoxia cerebral (condição que prejudica a função do cérebro). É difícil aceitar. Nossa família até chegou a pedir uma segunda opinião de mais um neurologista para nos livrarmos de todas as dúvidas sobre a morte encefálica”, contou Cibelle.

Ela acrescenta que, quando foi colocada a decisão para doar ou não os órgãos da irmã, a família não teve dúvida de concordar com o gesto, pois Giselle sempre deixava claro que gostaria de, se possível, ser doadora. “Inclusive, isso constava na carteira profissional dela.”

Mas a família precisou lidar com uma situação delicada. Profissional de saúde, Cibelle estava ciente de que doar órgãos é desafiar o tempo. Ao mesmo tempo, ela tinha que poupar o sobrinho, o filho mais velho de Giselle, que estava com a festa de 8 anos marcada para dois dias após a confirmação da morte da irmã.
“Se a gente autorizasse a doação no dia em que o protocolo de morte encefálica foi fechado, a minha irmã seria sepultada no dia do aniversário do filho. Mas a nossa família não queria deixar de fazer a doação”, diz. Como os demais órgãos estavam com função estável, os parentes de Giselle pediram para a Central de Transplantes aguardar um pouco e, no dia seguinte à festa da criança, a doação foi autorizada.

A saudade permanece em Cibelle. As boas lembranças, ao lado da irmã, também. “Em abril deste ano, quando se passou um ano da morte de Giselle, eu comemorava também um ano de vida das pessoas para quem os órgãos dela foram doados. Certamente, eram pessoas que estavam sem vida antes disso.”
Para ela, viver a dor da morte de um ente querido é sempre doloroso e, por isso, nem todo mundo consegue raciocinar no momento de decidir pela doação. “Penso que, ao sepultar ou cremar um parente que teve morte encefálica, com todos os órgãos, tira-se a oportunidade de dar vida a outras pessoas”, diz Cibelle, que dá inspiração para transformar a dor em esperança para o próximo. Afinal, a doação de órgãos possibilita que vidas sejam compartilhadas e, assim, certidões de óbitos são transformadas em certidões de nascimento.

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