Morrer e não doar é desperdiçar vida

Natural do Crato (CE), a enfermeira Noemy Gomes, 41 anos, é daquelas pessoas que não deixam dúvidas do amor que deposita em tudo o que está relacionado à doação e transplantes de órgãos e tecidos. Está sempre disposta a incentivar o trabalho de conscientização da população sobre um tema que deve ser debatido na família, no trabalho e na escola. Tanto empenho levou Noemy a coordenar a Central de Transplantes de Pernambuco. A missão virou um divisor de águas. “Antes disso, eu era completamente desinformada. Fui capaz de dizer não à doação no momento em que me foi colocada a decisão. Mas hoje não me vejo morrer sem ser doadora”, revela nesta entrevista, que não deixa dúvidas do quanto é contagiante o mundo do qual faz parte.

O INESPERADO

Até ser convocada pelo Estado, em 2005, após aprovação em concurso público, nunca imaginei que me envolveria com o trabalho de doação e transplante de órgãos e tecidos. Quando fui ver para onde seria alocada, soube que ficaria na Central de Transplantes de Pernambuco (CT-PE). Cheguei a pensar se era aquilo mesmo que eu queria. E disse a mim mesma: ‘Sei nem para onde vai isso. Gostaria mesmo era de ir para um hospital”. E logo já estava fazendo contatos para ser remanejada de setor. Mas um médico, com quem conversei na época, não hesitou e disse: “Vá para a central”. E eu acabei me apresentado para o que estava previsto. Em dezembro de 2005, fui para o Hospital da Restauração (HR) compor uma área que depois passou a ser chamada de Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante. Como parte do quadro de funcionários da CT-PE, fiquei cinco anos no HR. Em 2010, recebi o convite para assumir uma gerência interna na central, que toma conta das comissões intra-hospitalares e das organizações de procura de órgãos (OPOs). Em seguida, veio a licença-maternidade e, antes de terminá-la, em 2012, fui convocada para assumir a gerência da CT-PE. Antes de 2005, eu trabalhava no setor de hemodinâmica do Hospital das Clínicas (HC), ligado à Universidade Federal de Pernambuco, onde fiquei por nove anos. Em hospital privado, atuei em emergências e em unidades de terapia intensiva, que é a área da minha especialização.

A MUDANÇA

Quando entrei na CT-PE, em 2005, eu era uma Noemy completamente desinformada. A prova disso é a minha carteira de identidade (RG), onde consta que não sou doadora de órgãos. É algo vergonhoso que tenho carregado, pois ainda não troquei o documento, emitido em 2000, ao me casar e trocar o sobrenome. Lembro que, ao chegar ao Instituto de Identificação Tavares Buril, fui informada de que eu tinha que decidir se colocaria no documento ser doadora de órgãos. E no mesmo local ouvi o seguinte: “Coloque ‘não sou doadora’. Vai que a senhora sofre um acidente e, quando virem ‘doadora’ no RG, terminem de matá-la para tirar seus órgãos”. Imediatamente eu disse: “Coloque que não sou doadora”. A maior vergonha disso é que eu já era concluinte de um programa de residência em UTI no HR e nunca havia visto uma pessoa ser morta para ter os órgãos arrancados. Ainda assim, optei por não ser doadora. E a lei (que possibilitava o carimbo da expressão “não doador de órgãos e tecidos” no RG) caiu, e a identidade continuou. Quando comecei a trabalhar na CT-PE, vi um mundo novo, tudo o que não aprendi na faculdade. Então, fui observando o que o diagnóstico de morte encefálica permite: que outras vidas sejam transformadas a partir de uma pessoa que faleceu. Isso contagia. Hoje sou completamente apaixonada por esse universo e brigo muito (pela causa da doação). Para mim, a política de transplantes no Brasil é um exemplo do Sistema Único de Saúde (SUS) que dá certo. É algo que me move. Vibro com cada história de vida transformada, fico triste com cada família que perde um ente querido. Nunca fui abordada para uma possibilidade de doação (no caso de parente que morreu), mas sempre penso: “Se acontecer comigo? Como eu gostaria de ser acolhida no hospital?”.

FAMÍLIA INFORMADA

Quando comunicamos à família que somos doador de órgãos e tecidos, facilitamos o processo, pois ajudamos os parentes no momento de uma possível decisão (após a morte). São tranquilos os casos que acompanhamos de pessoas que se declararam doadoras em vida. Quando elas morreram, as famílias não recusaram a doação. Lembro o caso de uma funcionária da CT-PE que faleceu após um acidente vascular cerebral hemorrágico. Na ocasião, eu pensei: “Se esse processo (da doação ao transplante) funciona, terá que dar certo hoje porque ela é doadora e vivia dizendo que, quando morresse, gostaria de ter os órgãos doados”. E tudo funcionou.

NEGATIVA ALTA

Pernambuco já teve negativa familiar de 60% (ou seja, entre as famílias entrevistadas para possível doação de órgãos do parente que faleceu, 60% não autorizaram). Com a maturidade profissional que tenho hoje, acompanhando todo o sistema, vejo que essa negativa não é consequência da família; é nossa, enquanto profissionais de saúde. Considero que a informação é a vilã e também é a heroína de todo o processo. É vilã a partir do momento em que há ausência dela; é heroina quando a família é bem orientada pelos profissionais de saúde e, dessa maneira, torna-se disponível para falar sobre doação. Por isso, batemos na tecla da importância do treinamento, da capacitação das equipes de saúde dos hospitais.

UM EXEMPLO

Sempre falo do cúmulo da minha história: há 20 anos, não fui formada para trabalhar com doação e transplante. Mesmo vivenciando tudo num hospital, já enfermeira, fui capaz de dizer não à doação no momento em que precisei decidir para colocar no documento. E para quem não tem a mínima informação, como se sente ao ter que decidir isso? Precisamos entender que a família, ao chegar a um hospital com um parente, deposita confiança nos profissionais de saúde. Então, temos que assumir essa responsabilidade de conhecer o processo, de deixar a família muito bem informada sobre todos os passos para que, no momento da decisão, ela esteja ciente de todos os recursos. Na prática, observamos isso. Houve recentemente mudança no protocolo de morte encefálica, o que exigiu treinamento generalizado, inclusive das equipes que fazem busca pelo doador. Os três primeiros meses deste ano foram de intensa negativa familiar, justamente porque os profissionais não estavam preparados para a mudança. Fizemos uma força-tarefa para treiná-los o máximo possível. E já começamos a colher frutos, pois abril e maio foram meses com maior número de doadores.

MORTE ENCEFÁLICA

A morte é uma só. Ela pode vir por morte encefálica ou pela parada cardíaca. Ou o coração para, ou o cérebro para primeiramente. Os próprios profissionais de saúde têm que entender a morte encefálica como morte. É ela que permite uma pessoa a ajudar outras que nem conhece. Com o diagnóstico de morte encefálica, pode-se doar coração, fígado, rim, pâncreas, pulmão… Assim se dá nova chance de vida a outro. E todos nós podemos passar por isso. Afinal, o que leva à necessidade de transplante não são doenças raras; são doenças do dia a dia, como hipertensão, diabetes e hepatite. Quem de nós não está susceptível a adquirir ou a desenvolver essas doenças? Por isso, todos nós precisamos pensar em doação.

SOMOS SOLIDÁRIOS

Em enquetes feitas na internet ou em programas de rádio, nunca vi prevalecer o não à doação. Então, alguma coisa acontece, no hospital, que impede o processo. É nesse ponto que entra a responsabilidade do profissional de saúde. Muitas vezes uma explicação malfeita do diagnostico leva a pessoa a dizer não à doação. Costumamos dizer que, quando uma família chega ao hospital com um parente, ela chega com uma mochila vazia e que vai enchendo ao longo do internamento; vai sendo preenchida de impressões boas e ruins. Então, na entrevista em que a família tem que decidir se quer ou não exercer o direito da doação, a mochila é aberta e geralmente a negativa é decorrente de todo o histórico que aconteceu no internamento. Por isso, trabalhamos tanto o acolhimento familiar.

SIM À DOAÇÃO

A CT-PE funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. A gente se reveza em dias de sobreaviso, pelas noites e madrugadas, nos feriados e fins de semana. As equipes de transplante ficam ainda mais em alerta, pois elas assinam o compromisso de estarem disponíveis o tempo todo. E o processo da captação à cirurgia exige muita coisa: transporte aéreo, carro em alta velocidade e até BPTran (Batalhão de Policiamento de Trânsito), que é acionado quando precisamos efetuar o transplante mais rapidamente. É um mundo contagiante. Não me vejo morrer sem ser doadora. Morrer e não doar é desperdiçar vida.

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