Uma vida e duas datas de nascimento

Inspirar e expirar mil e uma vezes, sem dificuldade. Faz nem um mês que esse ato involuntário e inconsciente acontece sem perturbações. O desarranjo decorrente do ar que faltava pelo mínimo esforço, como uma simples caminhada, foi para bem longe. “É muito bom voltar a respirar como antes. Ah, eu senti um grande alívio”, diz o estudante Vinícius Cezar de Souza Santos, 15 anos, que recebeu um novo coração há menos de um mês. Passou pouco tempo na fila de espera pelo transplante cardíaco – precisamente quatro dias. A saúde do adolescente estava totalmente fragilizada; dependia do uso contínuo de medicamentos para manter as funções do coração. De tão grave, o caso passou a ser prioridade na lista dos pacientes que aguardam um coração.

Na redação do JC, a gente só esperava boas notícias para Vinícius, até que uma mensagem enviada à reportagem, numa quarta-feira à tarde, sinalizou que havia um provável doador para o jovem. Poucas horas depois, a negativa: o coração não tinha boas condições para ser implantado. Continuamos, então, esperando nova oportunidade para Vinícius sair da fila de espera. Não demorou muito: no dia seguinte, a Central de Transplantes de Pernambuco (CT-PE) foi notificada sobre um potencial doador. Faltavam o diagnóstico de morte encefálica e, sendo confirmado, a autorização da família para a doação de órgãos. A efetivação aconteceu na madrugada. Poucos minutos antes das 6h, o telefone da reportagem toca. “E aí, vamos transplantar?”, perguntou, em tom otimista, o cardiologista Rodrigo Carneiro, que acompanha Vinícius desde o início deste ano no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), no bairro dos Coelhos, área central do Recife. Àquela altura, faltava o doador passar pelo ecocardiograma, exame capaz de avaliar se o coração está em boas condições para ser implantado. O telefonema do cardiologista carregava tanto otimismo que a reportagem preferiu não esperar o resultado do exame.

Às 6h40, a equipe do JC já estava no Imip. Cinquenta minutos depois, veio a revelação de um coração perfeito, pronto para ser implantado no adolescente. A família dele, do município de Escada (na Zona da Mata Sul de Pernambuco, a 60 quilômetros do Recife), já havia sido comunicada da possibilidade. O resultado do ecocardiograma apressou os passos do pai e da mãe para chegarem ao Imip. Foi preciso o médico acordar Vinícius, que ainda dormia num leito da enfermaria, para dar a notícia. Coube ao cirurgião cardiovascular Diogo Ferraz a tarefa de comunicar ao jovem que, em breve, ele teria um novo coração. “Levantei meio assustado, sem saber o que acontecia. Quando soube que a cirurgia seria realizada, não fiquei nervoso. Sabia que o transplante poderia me dar uma vida normal.”

Naquele momento, o relógio corria contra o tempo. Foi tudo tão rápido que não deu tempo de os pais de Vinícius verem o filho antes da entrada no bloco cirúrgico. Entre a anestesia e o fim da cirurgia, passaram-se três horas e sete minutos. O transplante cardíaco requer mesmo pressa. Para coração, o tempo de isquemia (prazo entre a retirada do órgão do doador e o implante no receptor) é de apenas quatro horas. “O nosso tempo é bem limitado. No caso deste coração que foi para Vinícius, o órgão foi parado, por uma solução de preservação, às 9h44. Foram 86 minutos entre esse horário e o momento em que Cristiano (outro médico da equipe) fez o coração voltar a bater”, relatou o cirurgião cardiovascular Jeú Delmondes de Carvalho Júnior, que fez parte da equipe de captação do órgão ao lado do também cirurgião Felipe Ribeiro Walter. Na noite do dia em que o procedimento aconteceu, Jeú deu a boa notícia: “Vinícius já respira sem aparelhos e está evoluindo muito bem”.

Um momento como esse, para o cirurgião Cristiano Berardo, é sempre carregado de lembranças. “Antes do transplante, percebemos o quanto o paciente está mal. Quando ele acorda, na unidade de terapia intensiva (UTI), relatando que se sente melhor, vem muita emoção. É incrível”, diz o médico, que associa a doação de órgãos a recomeço. “É uma chance de começar de novo.”

A declaração representa o sentimento de Vinícius e seus pais: o eletrotécnico Valdir Cezar dos Santos, 46, e a analista administrativa Maria de Fátima Souza Santos, 43. “Nosso filho agora tem duas datas de nascimento”, diz a mãe, mencionando o dia em que deu Vinícius à luz e a data do transplante.

Já em casa (a alta hospitalar ocorreu oito dias após a cirurgia), o jovem relata o que espera daqui para frente. “Meu sonho? Ter uma vida normal, ao lado da minha família, sem preocupações. E desejo também voltar a conversar sobre qualquer coisa, menos doença. Quero voltar a sair com os meus amigos, terminar os estudos, entrar numa boa faculdade… Vou seguir em frente”, conta.

Da redação do JC, continuamos a vibrar por ele e a transmitir boas energias. A Vinícius, nossa gratidão por nos ensinar como a resiliência (capacidade desenvolvida para enfrentar, superar, ser fortalecido e transformado por experiências de adversidade) é o caminho para construir uma nova história e recomeçar quantas vezes for preciso.

O renascimento de Vinícius

Quarta-feira

13h56 – Central de Transplantes de Pernambuco (CT-PE) comunica à reportagem do JC a confirmação do diagnóstico de morte encefálica de um paciente que ficou gravemente ferido em acidente de moto. Equipe do Imip, onde está internado o possível receptor do coração (Vinícius, de 15 anos), já havia sido acionada para fazer o ecocardiograma, exame ultrassonográfico de imagem capaz de avaliar se o órgão do doador está em boas condições para ser implantado

19h – Reportagem é informada sobre o resultado do ecocardiograma. Exame revelou que o coração do doador não era viável para se efetivar o transplante. Paciente do Imip permanece à espera de um novo coração

Quinta-feira

22h04 – Aparece um novo possível doador, com diagnóstico de morte encefálica. Família pede algumas horas para conversar e decidir se autoriza ou não com a doação do órgão

Sexta-feira

05h49 – CT-PE informa à reportagem que família autorizou o processo e que o ecocardiograma do doador, para avaliar as condições do coração, seria feito em instantes

06h25 – Mesmo sem ter o resultado do ecocardiograma, equipe do JC segue para o Imip

06h40 – Reportagem chega ao Imip

07h30 – Ecocardiograma atesta um coração em boas condições para ser implantado

07h40 – Equipe captadora sai do Imip e segue para o hospital onde está o doador

8h30 – Vinícius entra no bloco cirúrgico do Imip e inicia o processo para receber o novo coração

09h – Médicos da equipe captadora começam processo cirúrgico para remover do coração do doador. Enquanto isso, o receptor, Vinícius, no Imip, recebe anestesia

09h30 – No Imip, médicos iniciam a cirurgia de retirada do coração em Vinícius

09h44 – Coração retirado do doador é colocado em solução de preservação, que garante conservação segura do órgão ser implantado no receptor

11h10 – Coração do doador que teve morte encefálica voltar a bater. Dessa vez, em Vinícius

12h07 – Termina com êxito a cirurgia de Vinícius, que seguiu estável para a UTI

20h – Reportagem é informada que Vinícius evolui bem nas primeiras horas após a cirurgia e já respira sem aparelhos

Na semana seguinte

Terça-feira

Vinícius sai da UTI e vai para a enfermaria

Quinta-feira

Equipe do JC visita Vinícius no Imip

Sexta-feira

Vinícius tem alta hospitalar e vai para casa

* Em respeito aos aspectos legais relacionados a transplantes e doação de órgãos, as datas foram omitidas, assim como a identificação do doador e do hospital onde ele estava internado ​

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