Todos temos histórias emocionantes para contar. Algumas revelam como a dor da morte pode se transformar em solidariedade e levar esperança para um recomeço. O JC apresenta o mundo da doação e dos transplantes de órgãos pelas vozes de pessoas que ensinam, mesmo diante das adversidades, a recomeçar a vida quantas vezes for preciso.

Doação e transplantes de órgãos: uma luta acirrada contra o tempo

Convidamos você a percorrer os olhos pelas histórias aqui contadas e, em alguns momentos durante a leitura, fazer a seguinte pergunta: “E se fosse comigo?”. É um questionamento que levará a várias reflexões sobre dores e medos, que serão vencidos por doses de emoção e igualmente pela racionalidade. Ao longo de dois meses, nós fizemos essa pergunta várias vezes por dia, enquanto percorríamos o revelador mundo dos transplantes de órgãos e tecidos. Imaginávamos como, diante de tanta dor pela morte de um ente querido, uma família conseguia se deixar tocar pela generosidade e dizer sim à doação. E ao mesmo tempo, nos inundamos de emoção por saber que aquele consentimento possibilitou a transformação da dor da morte no renascimento de outras vidas.

“É tudo muito mágico”, define a enfermeira Noemy Gomes. Com essa declaração, a coordenadora da Central de Transplantes de Pernambuco (CT-PE) faz alusão ao gesto da doação – que, vez ou outra, parece um tanto inexplicável. Como pode, por exemplo, o coração de um doador voltar a bater no peito de uma outra pessoa no curto tempo de quatro horas? Sim, é possível. A ciência tem dado tantos largos passos que a missão de salvar vidas faz parte da rotina diária da medicina e demais áreas da saúde. Só em 2017, ano de maior número de transplantes da história de Pernambuco, aproximadamente 1,8 mil pessoas no Estado ganharam a chance de recomeço porque receberam um novo órgão. Em média, foram quase cinco pessoas por dia que voltaram a alimentar a esperança após terem passado pelo transplante. Muitas delas não retornaram apenas a viver. Mais do que isso: ganharam ânimo, força e bem-estar para realizar ações que muita gente cumpre no piloto automático, mas que ganham um valor imenso para elas. Voltar a caminhar, varrer a casa, respirar sem desconforto, beber água sem limitações, estudar, trabalhar, formar uma família são sonhos que se tornaram reais, após o transplante, para quem se viu entregue a uma doença grave e, muitas vezes, terminal.

Não são apenas os avanços da ciência os responsáveis pela retomada de vida, ano a ano, de mais e mais pacientes. De nada adiantaria ter medicamentos eficazes contra a rejeição do órgão e exames menos invasivos para acompanhar a saúde das pessoas transplantadas se, por trás de todo esse progresso, não existisse um time que acolhe os parentes de um potencial doador. Um time que também se torna cada vez mais qualificado para dar o diagnóstico da morte encefálica (acontece quando o cérebro perde a capacidade de comandar as funções do corpo), confortar física e emocionalmente as famílias para que elas possam ter os subsídios necessários e sentir-se seguras para exercer o direito de doar órgãos.

Nós, enquanto cidadãos, também temos o nosso papel nessa corrente da doação de órgãos e tecidos. “Quando as pessoas se declaram doadoras para a família, ainda em vida, o processo se torna menos doloroso. No momento da morte, os parentes se sentem confortados ao ser colocada para eles a decisão. Se deixamos claro que desejamos exercer o direito da doação após a morte, provavelmente haverá toda uma dedicação, por parte da família, para que os órgãos realmente cheguem a quem precisa”, esclarece Noemy.

Atualmente, em Pernambuco, 1.004 pacientes estão na fila da esperança – a lista de espera da CT-PE, que reúne todas as pessoas que aguardam um órgão ou tecido para a retomada de vida. Esse quantitativo já foi três vezes maior. “Chegou a 3 mil em 2011. Essa fila ratifica a necessidade de se abordar o tema dentro de nossas casas. Ser doador de órgãos e tecidos é um ato de solidariedade ao próximo e que dá a possibilidade de o paciente ter mais qualidade de vida”, reforça o médico oncologista Iran Costa, secretário estadual de Saúde. Ele acrescenta que, a partir de 1995, quando a CT-PE foi criada, quase 20 mil vidas pernambucanas foram modificadas completamente pela doação de órgãos.

A empatia (a arte de se colocar no lugar do outro) também responde, em grande parte, pelo volume de pessoas que renasceram. “Se a gente passar a refletir sobre a possibilidade de que cada um de nós pode passar por esse processo (enquanto doador e também receptor de órgãos), certamente a taxa de negativa familiar será menor”, frisa o oftalmologista Lucio Maranhão, do Hospital de Olhos de Pernambuco (Hope) e da Fundação Altino Ventura (FAV), responsável por proporcionar a milhares de pacientes a retomada da visão após o transplante de córnea. A negativa a que o médico se refere é o principal empecilho do renascimento. Atualmente, de cada 10 possíveis doações de órgãos, cinco são frustradas no Estado: até abril deste ano, entre as famílias de potenciais doadores de órgãos e tecidos entrevistadas, 48 autorizaram a doação e 53 recusaram. Ou seja, mais da metade disse não à chance que tinham pacientes, em estado de saúde grave ou terminal, de retomar a vida plena.

REFERÊNCIA

O Brasil tem hoje o maior sistema público de transplantes do mundo. Entre todos os procedimentos nacionalmente realizados, 92% são feitos com recursos públicos. O percentual de Pernambuco é um pouco maior do que a realidade brasileira: 95% dos transplantes de órgãos e tecidos, no Estado, são financiados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que completa 30 anos em outubro deste ano. Na lista dos tipos de cirurgias feitas em Pernambuco, só não são totalmente realizadas com recursos do SUS córnea (72,9%) e medula óssea (90%).

“Ao considerarmos as políticas de saúde pública, o sistema de transplante funciona bem. O Estado tem um importante papel na articulação e no desenvolvimento de todo o processo, melhorando a captação dos órgãos e a conversa com as famílias de potenciais doadores. Isso alavancou bastante o número de transplantes em Pernambuco, que faz um belo trabalho e se tornou referência no segmento em todo o País”, salienta o hematologista Rodolfo Calixto, coordenador do Setor de Transplante de Medula Óssea do Real Hospital Português (RHP).

Ele e outros especialistas revelam por que as histórias compartilhadas neste caderno nos inspiram a refletir como um simples gesto de solidariedade é capaz de dar uma nova chance para recomeçar.

Atual lista de espera

10

pessoas aguardam coração

779

rim

22

medula óssea

113

fígado

5

rim/pâncreas

75

córnea

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