Ultrapassando limites

Sair da zona de conforto e buscar superação. Não importa se há limitações, todo mundo pode traçar metas e alcançá-las. A ideia é encontrar adaptações para que idosos, obesos, hipertensos e deficientes – físicos e intelectuais – potencializem suas conquistas. Essa é a proposta do trabalho desenvolvido pelos profissionais de educação física para os grupos especiais. A denominação reúne pessoas com algum tipo de problema de saúde ou condição que exige maior cuidado no momento de fazer um atividade física. Nesse contexto, os professores precisam levar em consideração as individualidades biológicas para cuidar e estabelecer objetivos para seus alunos.

Vale lembrar que, embora existam restrições físicas e intelectuais, quem se encaixa em algum grupo especial pode treinar normalmente. Pode, inclusive, utilizar o esporte para combater doença crônica, deficiência ou qualquer tipo de problema. A Escola Americana de Medicina Esportiva (ACSM, sigla em inglês) é referência no assunto e lançou uma campanha para incentivar as pessoas a praticarem exercícios físicos.

A proposta da entidade é que as pessoas encarem a atividade física como remédio (Exercício é Remédio, em tradução literal para o português) e que os profissionais liderem movimentos para que o exercício faça parte do tratamento de doenças e promoção de qualidade de vida. “As pessoas procuram o exercício quando se encontram em um estado de doença crítico. A atividade é prevenção para toda vida, mas as pessoas não pensam dessa forma. A atividade tem que ser rotineira. A gente trata as doenças com exercício depois de diagnosticada, imagine se a gente tratasse previamente? Se você tiver propensão genética para determinada doença, pode tê-la com muito menos gravidade se não for uma pessoa sedentária”, argumentou Ismael Marques, profissional de educação física especialista em paradesporto.

EM CASA Seu Ary trabalha mobilidade com a personal trainer Marília Folha há cinco anos

Nem todo mundo percebe que uma vida ativa é sinônimo de saúde. Com uma rotina de exercícios, hipertensos diminuem as dosagens de remédio e controlam a pressão alta, diabéticos se tornam menos insulinodependentes e pessoas com deficiência física ganham mais liberdade para executar tarefas. Há muitos casos de combate à obesidade a partir de esportes e atividades físicas. São pessoas que, além de resgatar qualidade de vida e autoestima, deixaram para trás diagnóstico de depressão, crises de ansiedade e distúrbios alimentares. “A gente precisa se exercitar para manter a saúde do corpo. Quando esses hábitos transitarem entre gerações vamos ter uma população mais saudável”, concluiu Ismael.

“O ser humano é integral. Às vezes a gente tende a departamentizar o corpo e só cuidar a parte que está incomodando. Mas a gente precisa estimular todos os aspectos. No horário da aula, você pode usar muito mais do que seu conhecimento específico para estimular o idoso enquanto ser. Pode fazê-lo lembrar momentos importantes que trazem bons sentimentos e fazer exercícios. Tudo isso estimula. Temos que lembrar que nosso corpo é uma máquina. É a lei do uso e desuso. Tudo que você deixa de usar você tende a perder. Então, se você não utiliza suas pernas, a tendência é perder os movimentos. O que acontece? A gente costuma estimular muito as crianças e o idoso a gente tende a deixar esquecido. Não só o profissional, mas a família precisa estar disposta a estimular positivamente os idosos”, profissional de educação física Marília Folha.

Vida em movimento na terceira idade

Saúde e mobilidade para viver plenamente. Na terceira idade, não há limitações, tampouco restrições para a atividade física. Tudo é uma questão de paciência e adaptação. O médico aposentado Ary Pinto Ribeiro reconhece o valor dos exercícios e faz questão de separar preciosos minutos dos seus dias para movimentar o corpo. “É dessa forma que eu ganho vida”, alertou seu Ary, que aos 91 anos garante que está muito bem, ostentando saúde e disposição.

Ary trabalhou bastante e viveu intensamente ao lado da esposa Adalgisa, com que tem quatro filhos. Dedicou muitos anos à medicina e sustentou a rotina até os 86 anos, idade que resolveu se aposentar. Nesse período, ele começou a sentir dificuldades para caminhar e procurou ajuda profissional. Foi nessa época que a atividade física, que nunca fez parte da rotina de Ary, passou a ser uma prioridade. “As pernas estavam pesadas e tinha muita dificuldade para subir escadas. Hoje estou cada vez melhor. Eu inclusive sinto falta de me movimentar no final de semana e espero ansioso pela segunda-feira”, observou o aposentado.

Seu Ary e Marília utilizam bolas, elásticos, caminhadas e jogos para estimular a memória e mobilidade

Com apoio da profissional de educação física Marília Folha, Ary recuperou mobilidade, força muscular e segurança para se virar sozinho em casa. Além da ajuda de de Marília, ele recebe acompanhamento de fisioterapia, suporte importantíssimo para preservar o equilíbrio corporal. “A gente realiza atividades de mobilidade, flexibilidade, coordenação motora e caminhadas. Temos melhoras significativas e tudo feito em casa. Sobre os exercícios, não é recomendado estimular a capacidade física total. Afinal, a recuperação para pessoas idosas exige um período mais longo”, argumentou a profissional, que utiliza cones, elásticos, bolas, jogo de memória e caça palavra para estimular a funções de Ary.

Marília é especialista em gerontologia, ciência que estuda os fenômenos fisiológicos, psicológicos e sociais relacionados ao envelhecimento. Ela destacou, com base nas pesquisas da Escola Americana de Medicina Esportiva (ACSM, sigla em inglês), que as pessoas da terceira idade precisam praticar atividades físicas de três a cinco vezes na semana, entre 30 e 50 minutos.

Além disso, os profissionais precisam ficar atentos à intensidade dos exercícios, evitando exageros e desgastes físicos. Para se ter uma ideia, para os idosos frágeis, é possível estimular apenas 40% de energia. Quando não há fragilidade, é recomendado entre 50% e 60% da intensidade.

De acordo com a Escola Americana de Medicina Esportiva (ACSM, sigla em inglês), os exercícios para idosos devem contemplar fortalecimento muscular, flexibilidade e aeróbicos. As pessoas com condições mais frágeis, risco de queda ou deficiência, devem trabalhar com maior ênfase mobilidade, flexibilidade e componentes de aptidão física para a saúde.

Os idosos configuram o grupo especial que exige mais atenção. Isso porque a população da terceira idade vem aumentando gradativamente e a expectativa é que em 2030 a população idosa atinja 70 milhões só nos Estados Unidos. É necessário que as pessoas envelheçam com saúde e valorizem a atividade física para ter autonomia por mais tempo.

Corrida contra a obesidade

O empresário Gildo Vilaça nunca imaginou subir em uma balança e encontrar apenas dois números referentes ao seu peso. Ele já chegou a pesar 122 kg, mas hoje ostenta 90 kg e tem como planejamento eliminar mais 10kg. A mudança de Gildo não foi fácil. Na realidade, nunca é fácil para ninguém. Para o empresário, o processo só fez sentido quando ele acreditou e encarou o desafio da transformação. Junto com os 32 kg deixados para trás, Gildo parou de tomar remédio para controlar a pressão arterial, algo que fazia parte de sua rotina há 20 anos. E, pela primeira vez em mais de 15 anos, saiu da classificação de obeso.

O principal problema de Gildo era a resistência em mudar a alimentação. As refeições do empresário sempre foram limitadas a carboidrato e queijo. Nada além disso. Em muitos casos, ele só consumia um prato pronto composto por frango à milanesa. “Eu tinha o típico paladar infantil. E sempre tive resistência em experimentar coisas novas”, observou o empresário, que, embora estivesse tranquilo na sua zona de conforto, estava incomodado com os efeitos da obesidade.

Certa vez, ele testou mudar os hábitos e passou a substituir o jantar por shake. Aos domingos, ele fazia passeios de bicicleta na ciclofaixa. Conseguiu emagrecer 10 kg, mas não deu continuidade às mudanças. Afinal, os novos hábitos eram insustentáveis a longo prazo. Vale a pena ressaltar que alguns especialistas questionam a eficácia dos shakes. Além disso, a ideia de utilizar a ciclofaixa é benéfica, mas apenas o passeio aos domingos não completa os 150 minutos de atividades sugeridos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para pessoas entre 18 e 64 anos.

A obesidade é caracterizada pelo excesso de peso que é consequência do sedentarismo e má alimentação – principalmente consumo exagerado de ingredientes gordurosos e com muito açúcar. Em uma liguagem mais técnica, pessoas com índice de massa corporal (IMC) acima de 30m/kg são consideradas obesas e podem desenvolver doenças crônicas por conta do excesso de gordura. Diabetes, pressão alta, colesterol elevado, artrose, depressão, entre outras.

TRATAMENTO
O principal tratamento para a obesidade é a prática regular de atividade física. É importante conciliar os exercícios com uma dieta prescrita por um nutricionista. Os profissionais serão responsáveis por elaborar o melhor plano alimentar levando em consideração a individualidade biológica de cada pessoa. O balanço calórico é fundamental para que o processo de emagrecimento aconteça de forma gradual e responsável.

Gildo contou com a ajuda do treinador Jéfter para começar a correr e abandonar a classificação de obeso

Para Gildo, o melhor incentivo surgiu em casa, com sua esposa Catarina, no final do ano passado. Ela queria emagrecer e levou o marido para reajustar a alimentação. Além do suporte nutricional, o empresário contou com a ajuda do profissional de educação física Jéfter Campos, responsável pelos treinos de força e aulas de caminhada e corrida. No primeiro mês, Gildo conseguiu perder 7kg e ficou animado com os resultados. “Primeiro comecei a caminhar 30 minutos, hoje já fiz cinco provas de 10km e estou comendo corda para treinar para minha primeira meia maratona. Nunca imaginei que tudo isso seria possível. Hoje já fico animado com os desafios que surgem com o tempo”, revelou.

Gildo vem combatendo a obesidade com maestria. Após 10 meses, ele já eliminou 32kg, retirou o remédio para controlar a pressão arterial, resgatou a autoestima e ostenta, entusiasmado, os peso de dois dígitos na balança. “Parece pouco, mas acredito que fiz e estou fazendo algo grandioso por mim, por minha saúde. Estou feliz, durmo melhor e traço planos para o futuro”, concluiu.

A maior incentivadora do empresário é sua esposa, Catarina. Eles treinam e correm juntos

“Gildo treina há cinco anos, mas ele nunca conseguiu engajar atividade física e alimentação voltadas para perda de peso. Ele era obeso e vinha tomando remédio controlado porque tinha picos de pressão. Hoje ele não é mais obeso pela classificação de IMC. Obesidade é um problema multifatorial, assim como vencer a obesidade depende de muitos fatores. O mais fácil é pensar em dieta e atividade física, mas não é só isso. Às vezes a pessoa tem distúrbio endócrino ou hormonal e claro que sedentarismo, má alimentação e níveis de estresse elevado contribuem e muito. Uma forma de combater é praticar atividade física. Mas não tem uma fórmula exata. Quando é aliada a um gasto calórico estratégico se torna uma boa estratégia”, treinador Jéfter Campos.

A hipertensão é um dos fatores que mais contribuem para o surgimento de doenças cardiovasculares. É importante lembrar que má alimentação e sedentarismo ajudam no aumento da pressão arterial, o que pode ser ainda mais agravado por fatores genéticos. A hipertensão é uma doença crônica não transmissível, de natureza multifatorial. Atividade física pode reverter o diagnóstico, além de oferecer maior disposição no dia a dia.

Estudos científicos garantem que o exercício é o melhor tratamento para a doença. De acordo com a ACSM, a hipertensão pode ser amenizada em resposta à sequência de exercícios aeróbios. A redução pode ser ainda maior se o processo estiver aliado à reeducação alimentar e à perda de peso.

Exercício para ser livre e ter autonomia

José Renato nasceu com paralisia cerebral, mas as limitações da doença nunca o impediram de ter uma vida normal. Aos 19 anos, o jovem tem uma rotina cheia de tarefas: cursa o sétimo período de Direito, faz estágio no Ministério Público e musculação três vezes na semana. Sempre que alguém chega perto para ajudá-lo com a cadeira de rodas, ele pronuncia sua palavra preferida: “autonomia! pode deixar que eu consigo”, garante.

A liberdade que Renatinho tanto gosta só foi possível porque seus pais, Renato e Cynara, colocaram a prática de exercícios como uma prioridade na trajetória do jovem. O estudante sempre realizou algum tipo de atividade ou esporte. Na infância, frequentou as aulas de futebol e judô, mas foi na musculação que ele encontrou sua verdadeira paixão. “Gosto de fazer força e isso me ajuda a ganhar movimento e ter liberdade para executar atividades. Acho importante ter autonomia para fazer minhas escolhas”, argumentou Renatinho, que optou pela academia após descobrir que estava com obesidade infantil, há sete anos.

De lá para cá, ele emagreceu 28kg e abandonou alguns hábitos alimentares. Não toma refrigerante, evita doces e opta sempre por refeições naturais ao longo da semana. O resultado foi convertido em saúde e disposição. “Ele faz questão de tomar esses cuidados e seguir os treinos. A gente respeita as decisões e gostamos também, porque lá em casa todo mundo faz algo para a saúde”, argumentou a mãe Cynara.

Renatinho sempre superou as limitações da paralisia cerebral com atividade física

Ela teve uma gestação delicada, diagnosticada com incompetência istmo cervical, que de modo geral é quando o colo do útero não tem força para sustentar a gestação. Além disso, Renatinho nasceu com prematuridade extrema, com menos de 28 semanas. A consequência foi um bebê com paralisia cerebral atáxica, transtorno neurológico e falta de coordenação de movimentos musculares voluntários e de equilíbrio.

A doença afetou mais os movimentos e a mobilidade do corpo de Renatinho, que é muito inteligente, expressivo e tem domínio da comunicação. Para ele, a atividade física é uma ferramenta para conquistar a autonomia. Por conta dos exercícios, o jovem abandonou a cadeira de rodas motorizada e consegue conduzir sozinho a cadeira de rodas manual. Consegue também ter forças para se levantar e ir para cama, por exemplo. São pequenas conquistas que, reunidas, contribuem para que o jovem se sinta cada vez mais livre.

“Por conta da atividade física, a pessoa com deficiência pode ter uma liberdade maior com trabalhos cotidianos. Como passar da cadeira para cama ou alcançar certas alturas. Um lesado medular pode ter controle maior da coluna. Há casos de controle de bexiga, entre vários outros fatores positivos. Por isso que a atenção para os grupos especiais é diferenciada. As pessoas merecem uma forma de tratamento especial porque elas se encontram em uma corda bamba. Tem que ter um planejamento mais específico para garantir qualidade de vida e para que os benefícios sejam potencializados. Por isso, é importante pensar no envelhecimento saudável”, Ismael Marques, especialista em paradesporto.

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