Mudança de hábito

O senso comum reconhece o quanto é difícil sair da zona de conforto. Por outro lado, quem conseguiu abandonar o sedentarismo e passou a se alimentar melhor costuma garantir que mudar não é impossível. Os que começam a vivenciar essa experiência, na maioria dos casos, têm um objetivo inicial como grande motivação. Mas pensar nos benefícios gerais de uma vida mais saudável pode ser um reforço extra quando a palavra “desistir” vir à cabeça. Qualidade de vida, manutenção da saúde e a longevidade são apenas alguns. Além, claro, da melhoria estética, que sempre vem como consequência. Para se conquistar tudo isso, porém, uma coisa é certa. Não pode faltar força de vontade. A boa notícia é que a luta consigo não costuma durar muito tempo. De acordo com especialistas, leva-se, em média, entre 20 e 60 dias para que um novo hábito seja estabelecido.

Esse tempo, no entanto, não é regra, sendo possível apontar até um ano para que alguém consiga entrar em uma nova rotina de forma definitiva. O que não costuma oscilar, por outro lado, são os motivos pelos quais muitas pessoas até tentam, mas não conseguem seguir com o projeto de mudança de hábitos.

“Observo que o que faz alguém desistir de se exercitar é ter uma ambição, em termos de objetivo, muito grande para um prazo curto demais. Há quem chegue à academia convencido de que precisa perder 20 kg rapidamente. Após, mais ou menos, dois meses, acontece a desistência. Por quê? Porque pouquíssimas pessoas conseguem perder 20 kg em dois meses. Então, para criar novos hábitos, é preciso ter uma meta clara e outras pontuais. Sabendo que os objetivos serão atingidos de forma gradual, um por vez”, comentou o personal trainer Fernando Araújo.

Querer conquistar resultado em curto espaço de tempo é o primeiro passo para se frustrar

O mesmo se aplica quando o assunto é fazer uma reeducação alimentar. Dietas extremamente restritivas costumam não ajudar muito quando o objetivo é conquistar hábitos mais saudáveis à mesa. Pior. Podem fazer mal à saúde. “A busca pelo resultado imediato faz muitas pessoas incorrerem em vários erros. Seguir a dieta da moda, que funcionou para uma amiga ou passar fome são estratégias que podem comprometer a saúde e, sobretudo, o resultado. Perder muito peso em um intervalo curto de tempo não corresponde só ao emagrecimento e, sim, à perda de massa muscular. Como consequências para a saúde, há a diminuição da imunidade, queda de cabelo, maior risco de lesões nos treinos, alteração do fígado, do funcionamento intestinal e até do humor”, alertou a nutricionista clínica, funcional e esportiva Rosa Idalina Costa.

No que diz respeito aos exercícios, é importante ter em mente que existe uma ampla gama de modalidades de treino. Seguir modismos ou se dispor a praticar algo com o qual não se tem identificação é um dos primeiros passos para a frustração. Por esse motivo, a dica da personal trainer Lanne Barbosa é que as pessoas se permitam. Experimentem várias opções antes de firmarem, por exemplo, um plano anual em uma academia de ginástica. Já sobre a alimentação, o essencial é contar com o trabalho de um profissional que prescreva dietas personalizadas. Dessa forma, é possível melhorar a qualidade do que se põe à mesa sem abrir mão dos gostos pessoais.

A importância da ida ao cardiologista

Não basta calçar o tênis e sair por aí se exercitando da maneira mais conveniente. O abandono do sedentarismo requer o acompanhamento de alguns especialistas. Para dar início a um projeto de vida mais saudável, portanto, o primeiro passo deve ser procurar um cardiologista. Essa precaução serve para evitar surpresas indesejadas e dar mais tranquilidade ao processo de condicionamento físico. A visita se faz indispensável principalmente se a atividade física em questão for algo mais intenso que caminhadas.

“Não existe ‘receita de bolo’. Algo que sirva para todas as pessoas. Se o indivíduo está há muito tempo sem se exercitar e quer fazer algo mais intenso que uma caminhada, precisa fazer uma avaliação clínica. A partir daí, são realizados o teste ergométrico, um eletrocardiograma. Vai depender muito do que a primeira avaliação mostrar”, comentou Dr. Ricardo Coutinho, do De ÁvilaCordis.

Dr. Ricardo Coutinho aconselha sedentários que pretendem fazer atividades mais intensas que caminhadas a procurarem um cardiologista

De acordo com o cardiologista, esse check up é obrigatório anualmente para homens com idades a partir de 40 e 45 anos e mulheres de 45 e 50 anos, que estejam se exercitando regularmente ou não. Antes dessas faixas etárias, a ida ao cardiologista deve seguir essa frequência apenas para quem tem histórico familiar pesado quanto à doença cardíaca, diabetes, colesterol alto ou é fumante.

“Fora disso, só se a pessoa está sentindo algum sintoma suspeito, como qualquer desconforto torácico que nunca tenha sentido, antes ou imediatamente depois do exercício”, alertou o cardiologista.

Avaliação física, sim!

O processo de abandono do sedentarismo pode ser potencializado por um cuidado básico. Antes de iniciar qualquer rotina de treinamento, também é essencial passar por uma avaliação física. Mais que medir os percentuais de massas gorda e magra, a série de testes realizados por profissionais de Educação Física é capaz de detectar, inclusive, qual o tipo de exercício mais adequado ao perfil de cada indivíduo.

Apesar de muitos negligenciarem essa etapa, a avaliação física é imprescindível inclusive para quem já é praticante assíduo de atividades físicas. “Independente se o aluno é iniciante ou se já treina há muito tempo, é super importante que ele sempre esteja realizando avaliações físicas. Porque é através dela – que a gente também considera uma etapa do treinamento – , que o professor de Educação Física consegue mensurar fatores de risco à saúde, medir percentual de gordura, se há alguma compensação postural, se tem alguma análise do movimento que precisa ser corrigida durante o treinamento. Por isso, é tão importante realizá-la”, afirmou a responsável pelas avaliações da Santé Club, Sylmara Luiz.

Os fatores de risco apontados pela profissional de Educação Física dizem respeito à hipertensão arterial, lesões pré-existentes e histórico familiar de doenças crônicas. “Antes de qualquer coisa, a gente sempre pede que o aluno, ao chegar à academia, traga um parecer médico dizendo que ele está apto à prática de exercícios”, afirmou Sylmara.

Sylmara alerta que a avaliação física deve ser feita, inclusive, por quem já treina há certo tempo.

Boa parte das academias de ginástica contam com pessoas capacitadas para fazer as avaliações. Mas se não houver um responsável no local em que se pretende treinar, é possível procurar outro estabelecimento apenas para ter acesso ao serviço. Outra saída pode ser buscar o atendimento particular de um profissional de Educação Física.

“Qualquer professor de Educação Física está apto a fazer a avaliação. Como em todas as profissões, há nichos e os que buscam mais cursos para se especializarem. Mas não é obrigatório (ter esses cursos), embora não seja tão simples (fazer avaliações), pois é necessário ter equipamentos específicos”, concluiu Sylmara.

Por que procurar um cardiologista?

Para evitar surpresas indesejadas e realizar o processo de condicionamento físico com mais tranquilidade

Quem precisa fazer Check up?

Indispensável para sedentários que pretendem fazer exercícios mais intensos que corrida

Com que periodicidade realizá-lo?

Ao menos uma vez por ano para homens com idades a partir dos 40, 45 anos e mulheres a partir do 45, 50 anos.Antes dessa faixa etária, apenas pessoas com histórico de doença cardíaca na família, diabéticos, obesos, com colesterol alto e fumantes precisam seguir essa frequência.

Rafael Sá (@rafasanutri)
ERROS QUE DIFICULTAM O EMAGRECIMENTO

1. Focar apenas na balança | O peso na balança apenas mostra o valor total da massa corporal. Não há detalhamento da composição corporal (músculo, gordura, água, ossos, etc.)

2. Comer muito pouco ou comer demasiadamente | Dietas com ingestão calórica muito baixa fazem com que o corpo gaste menos energia, desacelerando o metabolismo e, consequentemente, diminuindo a taxa de emagrecimento. Se comer demais, não haverá o balanço calórico negativo.

3. Não comer proteína | As proteínas associadas ao exercício ajudam na manutenção da massa muscular durante a restrição calórica. Além disso, os ingredientes ajudam na saciedade.

4. Estabelecer metas fora da realidade | Expectativas irrealistas podem levar à frustração e desistência. Faça objetivos mais modestos”

Lêda Barreto (@ledabarretonutri)

“A maioria das pessoas não aprendeu a fazer refeições saudáveis. Isso aconteceu principalmente depois do surgimento do fast food. É cada vez mais comum as pessoas optarem por industrializados no lugar de alimentos naturais. As consequências são péssimas como o aparecimento de doenças crônicas. As pessoas precisam compreender que alimentação saudável proporciona qualidade de vida e longevidade. Os alimentos têm o poder da cura”

GUIA ALIMENTAR PARA A POPULAÇÃO BRASILEIRA

O Ministério da Saúde em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) e a Universidade de São Paulo (USP) elaborou o Guia Alimentar para os brasileiros. São 10 dicas sobre refeições e hábitos saudáveis que facilitam o processo de reeducação alimentar.

1. Prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados

2. Utilize óleos, gorduras, sal e açúcar em pequenas quantidades

3. Limite o consumo de alimentos processados

4. Evite alimentos ultraprocessados, que sofrem muitas alterações no preparo e contêm ingredientes que você não conhece

5. Coma regularmente e com atenção. Prefira alimentar-se em lugares tranquilos e limpos e na companhia de outras pessoas

6. Faça suas compras em locais que tenham uma grande variedade de alimentos in natura. Prefira os alimentos orgânicos e acroecológicos

7. Desenvolva habilidades culinárias. Coloque a mão na massa, aprenda e compartilhe receitas

8. Planeje seu tempo. Distribua as responsabilidades com a alimentação na sua casa. Comer bem é tarefa de todos

9. Ao comer fora, prefira locais que façam a comida na hora

10. Seja crítico. Existem muitos mitos e publicidade enganosa sobre alimentação. Avalie as informações que chegam até você

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