Uma bênção que se pode tocar e morar. Em Olinda, ela tem até endereço: Rua Igarassu, 39, Peixinhos. A humilde casa é considerada uma graça divina pelos moradores dela porque foi comprada a partir de doações vindas de todo o país. O destinatário delas foi Veronaldo Silvino da Silva, o entregador de água mineral e torcedor do Sport que este ano completou uma década tetraplégico depois de ser atingido por uma pedra na cabeça lançada das arquibancadas do Arruda no dia de um jogo. A história de sofrimento e superação dele e da família comoveu o Brasil inteiro.

Por Leonardo Vasconcelos



Uma bênção em forma de casa

Uma bênção que tem rua, número e bairro em Olinda. De fora uma humilde casa. De dentro um milagre. A residência simples de número 39, na rua Igarassu, em Peixinhos, tem valor divino para os moradores porque ela foi adquirida por meio de doações vindas de todo o Brasil depois de uma reportagem do Jornal do Commercio. Elas foram endereçadas para Veronaldo Silvino da Silva, que ganhou um novo endereço, assim como a vida da família ganhou um novo sentido.

“Casa da bênção, com honra e glória do Senhor”. A frase da placa fixada na entrada da residência resume o sentimento de gratidão imenso que não cabe naqueles poucos metros quadrados. Alegria sentida em cada cômodo que teve origem em um incômodo. No último dia 11 de abril, o entregador de água mineral, apaixonado pelo Sport, completou dez anos tetraplégico após ser atingido na cabeça por uma pedra lançada das arquibancadas do Arruda. Era a primeira vez que Veronaldo, então com 21 anos, ia a um estádio ver o time do coração. Nem chegou a entrar e ver a equipe, nem a pedra jogada de cima quando estava passando na rua ao lado para comprar o ingresso do amigo. Teve afundamento do crânio e entrou em coma. Desde então, se tornou uma vida que resiste. Que insiste em ser vida.



Este ano, no dia em que o jovem completou uma década de sofrimento, o JC fez uma reportagem denunciando o caso e pedindo ajuda para a família. Depois disso, a mãe de Veronaldo, Hozineide Gomes Xavier, uma guerreira de 53 anos que luta para sustentar o filho quase sem recurso algum, disse que a data ganhou um novo significado. “Antes, o 11 de abril simbolizava dor e tristeza, mas a partir deste ano ele passou a significar fé e esperança. Porque depois da reportagem publicada nesse dia os anjos de todo o Brasil viram o meu filho, entraram em contato comigo e começaram a mandar fraldas e alimentação para meu filho, com a glória do Senhor”, contou.

O país inteiro se comoveu com a história de Veronaldo depois que a reportagem publicada no JC Online foi compartilhada pelo portal UOL. A notícia permaneceu na home do portal por 1 dia, 3 horas, 41 minutos e 1 segundo. Ela foi vista por quase 400 mil pessoas, a maioria de São Paulo, ficando entre as 5 mais lidas do JC Online no ano. Números refletidos diretamente na conta bancária da família humilde nos dias que se seguiram. “Cada vez que eu ia puxar o extrato uma nova surpresa. Eu me impressionava com a quantidade de bons corações espalhados por esse país. Pessoas de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro que nunca nem vi ajudando meu filho. Eu saía do banco todo dia chorando de alegria. Quase nem acreditei quando depois de um tempo eu vi um saldo de R$ 112 mil!”, disse dona Hozineide, com olhos brilhando e marejados.

Com esse montante, oito meses depois da reportagem, a família deixou o casebre alugado de apenas dois cômodos e se mudou para a citada bênção em forma de casa. Ela comprou uma casa deteriorada no mesmo bairro por R$ 70 mil e usou o resto do dinheiro doado na reforma. “Graças a Deus e os anjos do Brasil eu consegui realizar o sonho de ter uma casinha e fazer um quarto grande para meu filho do jeito que sempre quis e não tinha condições”, falou com orgulho. Único quarto, inclusive, da casa. Questionada onde dormia, a dona de casa apontou para um sofá velho na sala voltado para o quarto. “Eu preferi fazer um quarto grande para meu bebê do que ter um pra mim. Então eu durmo feliz da vida nesse sofazinho que foi doado de frente para o meu filho porque se ele tiver qualquer problema de noite ou madrugada eu corro pra ajudar”, explicou.

Todavia, na obra da casa e na compra de medicamentos para o filho, dona Hozineide, sem instrução e orientação financeira, acabou gastando mais do que havia recebido. “Fiz a casa do jeito que queria e comprei tudo que meu filho necessitava, mas acabei indo além do limite. Daí fui pedindo dinheiro emprestado a vizinhos. Hoje estou devendo uns R$ 12 mil. Mas digo para eles terem calma porque eu tenho fé que logo logo vou conseguir pagar”, garante, com firmeza.

A confiança na providência divina, no entanto, não atenua os problemas vistos na casa. O quarto, por exemplo, foi construído com o objetivo de pela primeira vez proporcionar a Veronaldo o conforto de um ar refrigerado, contando com uma porta corrediça para vedar melhor o ambiente. O aparelho de ar condicionado até foi comprado e por ironia está em uma caixa bem atrás da cama. E permanece lá. “Infelizmente eu não tenho condições de instalar, muito menos de ligar o ar. Já estou com duas contas de luz em atraso no valor de uns R$ 150 cada uma. Meu vizinho tem ar e me disse que se eu deixar ligado o dia todo pro meu filho minha conta iria pipocar até mais de R$ 500. O jeito é continuar com o ventilador mesmo”, afirmou a dona de casa que tem como fonte de renda apenas um salário mínimo da aposentadoria do filho e outro pago pela Federação Pernambucana de Futebol.

PROMESSA

A casa da bênção, como Hozineide chama a residência, não ganhou esse nome à toa. Além de ter sido adquirida por meio de doações, ela representa uma promessa feita pelo filho quando ainda era um garoto para a mãe. “Um dia me vendo aperreada sem dinheiro no dia de pagar o aluguel da casa ele virou pra mim e disse: ‘Minha mãe, não se preocupe por que um dia eu ainda vou lhe dar uma casa’(emoção). Hoje eu vejo que mesmo acamado ele cumpriu a promessa!”, afirmou para depois ficar em silêncio, com um olhar carinhoso e agradecido a Veronaldo.

O entregador de alegria

Alegria. Era isso que ele entregava. Quando a bicicleta cheia de garrafões apontava nas esquinas de Peixinhos os vizinhos já sabiam. Lá vem água. Lá vem sorrisos. Veronaldo já parava na frente das casas brincando com um e com outro. Trocava garrafões e piadas. Apesar do peso dos garrafões e das responsabilidades, levava a vida leve. Desde muito novo ajudava no sustento da casa. Diferente dos outros garotos não quis uma bicicleta para brincar e sim uma para trabalhar. Tinha orgulho da profissão: entregador de água mineral. Se entregava para manter a família e deixava em cada residência um exemplo de vida para ser literalmente tomado.



A amiga de infância, Clauber Gonçalves, diz que é impossível não pensar em Nado, como era chamado, e a bicicleta. “Eram quase inseparáveis. Toda vez que falam nele só me vem à cabeça a imagem dele em cima dela pra cima e pra baixo entregando água. Era muito difícil você encontrar Nado empinando pipa ou jogando bola de gude, como os os outros meninos. Um garoto exemplar, que nunca teve problema com ninguém”, relembra.

A vizinha, que foi mãe cedo (com 15 anos), recorda com saudade das conversas alegres na rua. “Quando passava na bicicleta, ele parava pra me dar um abraço, brincar um pouco com o meu filho. Eu perguntava: ‘Quando tu vai ter o teu?’. Ele dizia: ‘Eita, vai demorar um pouco, tenho muito o que trabalhar’. Aí num instante já ia embora: ‘Já vai de novo nessa bicicleta?’, ‘Vou, meu bem! Vou pra luta, trabalhar’. Sempre carinhoso, sempre sorrindo”, recorda. Clauber diz que como qualquer jovem ele tinha sonhos e lutava por eles. “Ele era muito dedicado e estudava. Um menino estudioso que dizia que queria um futuro bom pra vida dele”, disse.

O vizinho Luiz Carlos Calixto conta que Veronaldo rapidamente conquistou a clientela. “Com o jeito honesto e sempre correto, Nado não demorou para ter clientes em todo o bairro. Meu pai mesmo só queria água se fosse entregue por ele. Nem adiantava vir outra pessoa. Nado tinha total acesso lá em casa, meu pai deixava a porta aberta porque sabia que ele era de confiança”, disse Luiz, que facilmente projetou o futuro do jovem: “Ele não dava trabalho, pelo contrário era o trabalho em pessoa. Tenho certeza que se não tivesse acontecido essa tragédia na vida dele, ele teria sido um micro-empresário de muito sucesso”, afirmou.

Nado só deixava as pedaladas pelas namoradas. O jeito simpático e cativante conquistou o coração de várias meninas da área. “Ele era bem namorador, quem paquerava era ele, viu? E não ficava com uma só não, tinha um namorico aqui, outro ali”, conta a amiga da família e enfermeira Edileuza da Silva Santana. Mas de tanto conquistar, ele foi conquistado. “Tudo mudou quando ele conheceu Paula. Ela conseguiu tocar o coração dele. Tanto que logo decidiram noivar e já estavam de casamento marcado”, disse. Data: 11 de maio de 2007. Mas exatamente um mês antes teve um jogo do Sport contra o Santa Cruz no Arruda. Veronaldo nunca havia ido a um estádio porque tinha medo da violência e sempre acompanhava os jogos do Leão pelo rádio e TV. Os amigos insistiram e ele decidiu ir.

Antes de sair de casa ligou para a noiva. “Ela ainda pediu para ele não ir, mas Veronaldo disse para ficar tranquila que não ia demorar a voltar. O que não demorou foi pra chegar a notícia. Meia hora depois de sair de casa ligaram falando que tinham jogado uma pedra na cabeça dele. Foi aquele desespero e Paula saiu correndo para socorrer ele”, contou Edileuza. A enfermeira disse que Paula esteve ao lado de Veronaldo durante muito tempo. “Ela foi uma guerreira, ficou ajudando, cuidando dele ainda durante cinco anos. Mas aí ela teve que continuar a vida, né? Hoje já casou, teve um filho. Mas a mãe dela sempre que pode vem visitar ele”, relatou a enfermeira, entre lágrimas.



A força de uma mãe

Sete horas da manhã. Dona Hozineide já está de pé para pegar a sua “maromba”, como gosta de chamar os pesos que com orgulho ela mesma fez. Uma barra de ferro com um balde cheio de concreto em cada ponta. Levantada por quarenta minutos todos os dias no terraço de casa. Aos 53 anos, ela se exercita com o equipamento de cerca de 40 quilos com uma facilidade impressionante. Não por vaidade. E sim por necessidade.

“Dou banho no meu filho todos os dias e muitas vezes ficava com vergonha de ficar incomodando os vizinhos pra pedir ajuda para levantar ele. Então eu resolvi me preparar pra aguentar sozinha meu bebê que pesa uns 50 quilos. Daí fiz minha maromba e hoje em dia aguento colocar meu filho na cadeira, levar pro banheiro e voltar. Por meu filho, eu aguentava o peso que fosse preciso”, disse a dona de casa apontando com orgulho para o muque do braço.

Uma mãe que é um verdadeiro exemplo, mesmo sem ter tido um exemplo em casa. Hozineide foi abandonada pela mãe quando tinha apenas dois anos. Ela e os dois irmãos tiveram que ser criados pelo pai. O segundo contato com quem deveria fazer o papel materno também foi traumático. A menina foi bastante maltratada pela madrasta, que não dava comida e ainda a expulsava de casa quando o pai ia trabalhar. Apesar das decepções, Hozineide decidiu começar cedo no ofício de mãe. Com 18 anos, arranjou um namorado e fugiu de casa. “Quando eu tive filhos, eu lembrei que sempre gostei da letra V. Daí coloquei o nome da minha primeira filha Verônica, o do meio Veronildo e o mais novo Veronaldo”, explicou.



As experiências negativas com as figuras maternas agora vieramn do companheiro, que era alcoólatra. “Ele chegava em casa quase todo dia bêbado. Meus filhos corriam pra se esconder debaixo da cama e se mijavam de medo deitados lá. Ele era muito ignorante. Uma vez ele chegou tão alterado que derrubou a mãe, bateu no pai e no irmão, só parou quando chegou a polícia”, lembrou.

No dia seguinte, o instinto materno e de sobrevivência falou mais alto e ela decidiu fugir de casa. Pegou uma sacola de compras, juntou os três filhos (Veronaldo tinha apenas 4 anos) e foi embora para a casa de uma antiga amiga dos tempos de colégio. Foi aí que começou a batalha para sustentar os três filhos sozinha, assim como o pai fez com ela. “Pra não ver meus filhos passarem fome como eu comecei a trabalhar. Arranjei três empregos de uma vez. Trabalhava de manhã de babá, à tarde de cozinheira e a noite de garçonete. Era quase 17 horas no batente, com muito orgulho”, contou.

E ainda assim, com uma rotina tão pesada, não deixava a leveza com os filhos. Todo domingo fazia questão de proporcionar lazer para eles. “Eu só tinha o domingo para meus filhos, daí eu pedia para eles escolherem o que queriam: praia, parque ou restaurante. Aí, mesmo cansada, com sono, ia levar meus filhotes. Quando íamos para a praia eu levava uma toalha para descansar e dormir um pouco na areia enquanto eles ficavam se divertindo”, contou Hozineide.

Além da dor do ocorrido com Veronaldo, ela teve que aguentar a morte do filho Veronildo em uma acidente de trânsito. Em vez de fraquejar, ficou ainda mais forte para cuidar do caçula acamado. “Pra ele aprendi a me dividir em várias: hoje, além de mãe, sou médica, enfermeira, fisioterapeuta, fonoaudióloga. Sou tudo para ele!”, disse. Tudo é ser mãe, ser mãe é tudo. Hozineide sabe bem disso e aprendeu com ele a ter mais um motivo para se apegar à letra V: “Eu já gostava antes, tanto que batizei meus filhos com ela. Mas hoje gosto ainda mais porque Veronaldo me ensinou que o V é de vitória!”, afirmou, com um sorriso largo.



História

Relembre outras reportagens do JC que Hozineide já participou.

Doações

Poupança

Nome: Hozineide Gomes Xavier

Banco: Itaú | Agência: 7376 | Conta: 09585-2

CPF: 754.244.604-53

Endereço

Rua Igarassu, 39, Peixinhos, Olinda.

Telefone

(81) 98884.9907

Expediente

17 de dezembro de 2017

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