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Linha, agulha, lacê...

Amor amarrado, lua, sorvete e sombrinha. Apesar de parecer, essa não é a descrição de um cenário romântico. São nomes de alguns dos pontos da renascença. Ninguém sabe ao certo a origem dos verbetes nem de onde vem tanta imaginação. A verdade é que, muitas vezes, de um erro nasce um novo ponto. Na cultura da renda, não há limites para inovar. O discurso do aprendizado diário está presente mesmo nas casas das rendeiras mais experientes.

Mestre artesã, Maria Ivoneide da Silva, 46 anos, conta que a variedade de pontos é enorme. “Conheço mais de 80 tipos.” Mas antes que os pontos comecem a dar vida à renda, outras etapas precisam existir. A reportagem acompanhou Neide na criação de uma peça. Antes de mais nada, ela diz, vem a concepção, a ideia. “É a partir do desejo dos clientes que crio os desenhos”, conta.

Depois de imaginar, mãos à obra. Com lápis, papel vegetal e um pedaço de papel grosso ou plástico, Neide faz o molde. Etapa pronta, é hora de contornar as linhas já traçadas com hidrocor azul. Esse recurso facilita a visibilidade e, por consequência, o trabalho que vem a seguir, a parte mais delicada e que requer maior habilidade e atenção: as tramas.

Com desenho fixado nas almofadas em formato cilíndrico – que dão o apoio necessário para o trabalho com a agulha – o primeiro passo é alinhavar todo o contorno do desenho com lacê (fita de algodão usada na borda dos desenhos). É a partir da aplicação desse material que as rendeiras começam a preencher os desenhos.

Ponto a ponto a renda vai tomando forma. Dos rolos, saem blusas, coletes, toalhas, paninhos de bandeja, vestidos. A renda pode tudo. São tantos laços, caranguejos, traças e pontos balão que é difícil acompanhar o ritmo das mãos. Atualmente, os fios utilizados são de algodão, mas já houve um tempo em que a renda era feita de linho.

Quando a trama está toda pronta, é tempo de soltá-la do papel e deixar a peça, finalmente, ter vida própria. Feito isso, é só lavar, engomar e vender. E apesar de nunca conseguirem precisar o destino que cada peça terá, as rendeiras sabem que o trabalho, em sua morada final, terá uma vida glamurosa, refinada. Vai decorar casas, festas. Vestirá modelos: das passarelas e das ruas. Viajará. Há muito, a renascença nordestina ganhou o mundo.

EXPEDIENTE
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