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De onde vem e para onde vai

É difícil precisar a origem exata da renascença. Certeza, apenas, que a renda que ganhou novas tramas, pontos e características no Nordeste brasileiro surgiu na Europa. As divergências em sua maioria surgem quando se fala do País onde ela teria se originado. O pesquisador Carlos Medeiros afirma que tanto na Itália quanto na Bélgica, até hoje, existe um produto muito similar. “Tempos atrás, as peças também eram vistas na Irlanda”, conta. Foram as freiras missionárias que trouxeram a arte para o Brasil em meados do século passado. Daí em diante não teve jeito: a renascença virou propriedade nordestina.

Carlos explica que Pernambuco e Paraíba são os Estados que se destacam na produção. “A renda chegou primeiro em Poção e, depois, foi para Pesqueira e Jataúba. De lá, seguiu até Monteiro, na Paraíba. Fora dessa região, apenas uma cidade de Sergipe faz renda”, conta.

E embora não existam números que dimensionem a quantidade de rendeiras, nem de lares onde a renda já colocou comida na mesa, sabe-se que a quantidade é expressiva. Carlos estima que mais de três mil mulheres estejam envolvidas com a arte nos dois Estados.

Quem reitera o peso dos números é o secretário de Cultura e Turismo de Poção, Fábio Eduardo Monezzi. Ele estima que cerca de 90% da população local esteja envolvida com o ofício. “Praticamente 70% das mulheres da cidade são rendeiras. E ainda há alguns homens que fazem renascença ou o risco da renda.”

Mas a verdade é que o único número disponível – e atual – vem do Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro (Sicab). O levantamento aponta que existem apenas 276 rendeiras e rendeiros cadastrados em Pernambuco. “Obviamente, esse não é um número real. Ainda não temos os dados totais dos produtores. A grande dificuldade é conseguir chegar até eles, pois nem sempre o artesão tem conhecimento desse cadastro”, explica a coordenadora do Programa do Artesanato Brasileiro em PE, Célia Novaes.

O número serve apenas para confirmar o que já se sabe: Poção e Pesqueira lideram o ranking com 108 e 91 artesãos cadastrados, respectivamente. Apesar disso, Célia afirma que a produção de Pesqueira, hoje, é maior. Em ambas as cidades, existem grandes empresas – que se intitulam fábricas – responsáveis por produzir as peças em massa e pela exportação do produto. É para esses lugares que vai boa parte da produção das rendeiras da zona rural.

Célia planeja investir para aproximar o levantamento da realidade até o fim de 2013. Ela lembra da importância econômica da renascença para o Agreste de Pernambuco. “Em tempos de seca, quando as plantações de tomate estão fracas e a pecuária anda devagar, o que fez e faz boa parte da população sobreviver é a renda. Ela é a grande mãe da região.”

Olhar profissional

O estilista Eduardo Ferreira é um dos muitos que já foram fisgados pelos encantos dessa arte. Na década de 90, imergiu no mundo da renascença, de onde tirou inspiração para algumas de suas coleções. “Para entender melhor a logística, me mudei para o Agreste e passei um tempo entre as cidades produtoras. Aprendi a riscar, acertei alguns pontos, acordei às três da manhã para acompanhar as feiras onde as rendeiras vendem suas peças aos atravessadores.”

Com a vivência, Eduardo pode perceber a complexidade e a voracidade desse mercado. “O cartel que se estabeleceu deixa invisível a verdadeira artesã.” O estilista refere-se justamente aos atravessadores. “Por causa dessa interferência, ficou muito caro adquirir a renda. Mas o incrível é que, apesar disso, a rendeira continua recebendo um valor baixíssimo. Uma quantia que não faz jus nem ao trabalho nem à nobreza da renascença.”

EXPEDIENTE
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