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Mulheres rendeiras

Nem só de linha, agulha e lacê vive a renascença. A cultura, fortemente presente no Agreste de Pernambuco, carrega consigo, além da beleza das peças, histórias de vida. Enredos de mulheres que, dia após dia, costuraram as tramas de suas vidas. Para elas, a renda é mais que trabalho. É provedora. Constrói casas, sustenta famílias, encanta quem faz e quem vê. E mesmo teimando contra a falta de dinheiro e driblando os problemas de saúde, as rendeiras não desistem. É quando a renascença mostra seu traço de resistência. Conheça histórias de cinco famílias que, a partir da renda, inventam e reinventam a vida.

Conheça as histórias

Três gerações dedicadas à renda

A pequena Kaylane Cordeiro tem apenas 8 anos e já ganhou seu rolo – instrumento indispensável na feitura da renascença. Menor e mais leve que os da mãe, da avó e da tia-avó, foi feito com tecido rosa. E, apesar de não ser um brinquedo, diverte a menina. É entretenimento. Um passatempo quase romântico para os fins de tarde no Sítio Roçadinho, zona rural de Pesqueira. Um dia, possivelmente, deixará de ser. Vai virar trabalho. Assim como, hoje, é para as mulheres adultas da família Cordeiro.

“Aqui, a partir dos 5 anos, as crianças já fazem renda. Não todos os pontos, né? Mas uns dois ou três...”, diz a tia-avó de Kaylane, a rendeira Quitéria Cordeiro, 48. Ela e outras seis irmãs, de um total de sete, também cumpriram o destino que parece certo para a maioria das mulheres daquela terra. Aprenderam cedo os segredos da renascença. A curiosidade ensinou. Não aprenderam com a mãe. De tanto verem as vizinhas trabalharem nos terraços, pegaram os macetes.

Mas o entusiasmo da infância acaba. Depois de tantos anos em meio a agulhas, rolos e lacês, as jovens demonstram cansaço. Quem reclama é Ana. A irmã de Quitéria, a mãe de Andrea, a avó de Kaylane. Também rendeira. “A gente faz para sobreviver, para complementar a renda, mas isso é coisa de doido. Prejudica a vista, a coluna e o dinheiro é muito pouco.” E porque, mesmo assim, a renda ainda desperta o interesse de novas gerações? É Quitéria quem responde: “É feito casamento. Todo mundo sabe que não presta, mas todo mundo quer.”

As mulheres da família Cordeiro há muito desistiram de investir todos os esforços na renascença. A tentativa provou-se financeiramente inviável. A agricultura e a pecuária ajudam no sustento da casa. Plantação de tomates e a criação de galinhas e bodes são as outras atividades. Fazem isso da hora que acordam até o meio da tarde. Quando o sol começa a esfriar é o sinal de que está na hora de colocar as cadeiras para fora, apanhar os rolos e começar a dar forma às tramas.

“É muito trabalhoso, sabe? Mas quando a gente vê as peças prontas, é gratificante”, solta Quitéria, que parece gostar mais do ofício que a irmã. Fundou uma cooperativa de rendeiras no Sítio Roçadinho. Só lá, mais de 60 mulheres trabalham com renascença. A cooperação entre elas é importante do começo ao final do processo: desde a compra de material à distribuição da renda pronta.

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Da renda, o sustento

É na comunidade do Espinhaço da Gata, zona rural de Pesqueira, que vivem as irmãs Eliane e Elizângela Silva, 31 e 33 anos. Discretas, foram abordadas pela reportagem enquanto trabalhavam no fim da tarde de uma sexta-feira. Diferentemente de muitas outras mulheres que também tiveram suas histórias guiadas pela renascença, continuam dedicando-se exclusivamente à feitura da renda.

Aprenderam o ofício aos 6 anos. O incentivo veio da mãe, que já não vive perto delas. “Na nossa casa eram os grandes fazendo e os pequenos olhando”, conta Elizângela. Elas têm mais quatro irmãos: outra mulher e três homens.

Quando ainda moravam em Mimoso de Jataúba, ajudavam a mãe a sustentar a casa. “Nem nosso pai, nem nossos irmãos trabalhavam. Lá não tinha serviço para os homens. Era nós quem dava de comer a eles. Tinha vez que a gente amanhecia o dia fazendo. A nossa mãe trocava renda por comida, a gente nem via o dinheiro.” A labuta era sob a luz do candeeiro.

Para Eliane e Elizângela, a renascença não foi uma escolha. “Não tinha outra coisa pra gente fazer.” Com o trabalho, cada uma consegue contribuir com R$ 100 no orçamento da família. “Quando a gente desconta o material, é isso que sobra, sabe?” Vendem as peças na feira livre de Mutuca, também distrito de Pesqueira. Cada pala que costuram repassam por R$ 8.

Contam apenas com a vista aguçada, a habilidade das mãos e a ajuda dos dois rebentos de Elizângela. “A gente fica a tarde toda aqui. Fazendo e conversando. Vendo o movimento. Às vezes, falando mal do povo.” A fábrica da família Silva é o estreito terraço de casa, que fica na beira da estrada de barro. Por perto, vê-se apenas algumas árvores, pequenas plantações cuidadas pelos homens e uma casa abandonada. A vida é calma, mas não parece ser chata. As crianças da vizinhança rondam, fazem uma visita, pedem a bênção das ‘tias’ e se despedem. As irmãs respondem a eles e à reportagem sem tirar os olhos da almofada e da agulha. Por lá, tempo é dinheiro.

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Mãos abençoadas

A mestre rendeira Maria Ivoneide da Silva, 46 anos, fez da renda um verdadeiro negócio. Em seu ateliê, recebe encomendas tanto de pessoas físicas quanto de empresas ou lojas. O trabalho não para, mas ela conta com ajuda. Para dar conta da demanda, terceiriza parte do serviço. Neide mora no Centro de Pesqueira, mas boa parte de suas colaboradoras são da zona rural.

Diferente da maioria das outras mulheres, não recebeu o ofício de herança. Aprendeu sozinha, observando uma vizinha e, até hoje, trabalha só. A mãe, que sempre foi operária de fábrica, só entra em campo no final do processo: é a responsável por lavar, passar e engomar as peças que a filha monta.

Depois de anos na profissão, Neide recebeu o título de mestre rendeira. Antes disso, tentou a vida em São Paulo, trabalhou para os outros. “Para montar minha oficina, precisei trabalhar muito. Fazia aqueles paninhos de colocar em garrafa de vinho, que chamam garçons. Fiz uns cem por mês durante mais de um ano.” Hoje, vende blusas, toalhas, vestidos, coletes, paninhos. “Nenhuma peça é difícil não.”

O trabalho é demorado. São necessários dois meses para deixar uma blusa pronta, de oito a um ano para fazer um vestido de noiva e mais do que isso para criar uma toalha de mesa de dois metros. Os valores variam muito. Mas a toalha de mesa chega a custar R$ 1,1 mil. “A renda é minha paixão. Fico feliz demais quando vejo o produto prontinho. Fazer um vestido de noiva, por exemplo, é muito prazeroso.”

Neide só tem um filho. Cria o menino na casa onde também trabalha, cercada de uma vegetação rica e uma vista encantadora. A renda da família é responsabilidade exclusiva das suas mãos. As mesmas que alguns clientes já chamaram de abençoadas. Infelizmente, na família Silva, a tradição parece ter um fim previsível. Não há uma próxima geração.

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De mão para mão

É na casa de Socorro, 41 anos, que a reportagem conhece a família Florêncio. Reunidas na sala, estão a dona da casa ao lado das irmãs Selma, 40, e Margarida, 36. Todas sob o olhar da mãe Maria do Carmo, 60. “A gente tinha uns 7 ou 8 anos quando nossa mãe aprendeu. Quando ela ia para a cozinha, a gente ia mexer no bordado dela. Quando ela voltava, tava uma bagaceira. Aí quando ela viu que nossa vontade era pra valer, comprou fita bebê, que é mais barato que o lacê, e colocou a gente para aprender”, narra Socorro.

De todas, apenas Selma ganha a vida integralmente da renda. “Minha almofada está acima de tudo. Sempre foi minha prioridade.” Orgulhosa, não se faz de rogada: “Nunca neguei serviço. Nem aqueles de última hora. O segredo é a concentração, sabe? Pode dar vontade de ir no banheiro 300 vezes e eu não levanto”, diz, sem absolutamente nenhum tom de brincadeira na voz.

Selma é daquelas mulheres nas quais, de longe, se enxerga a força. Batalhadora, conta que construiu a casa em duas semanas. “Me meti na obra. Coloquei a mão na massa. Não tinha isso de deixar o serviço pesado para os homens não.” E completa, apontando para o outro lado da pista: “Pode ir lá. Cada objeto da minha casa foi a renascença que deu.” Mas a renda trouxe outras coisas também: hérnia de disco e a cegueira parcial no olho direito. O lado ruim de quem trabalha todo dia, o dia todo, curvada sobre uma almofada e cobrando, da vista, a perfeição.

A mãe, Dona Carminha, não fica para trás. Braba que só ela, aprendeu o ofício já adulta, com a irmã. “Levei um bocado de cascudo até acertar.” O método surtiu efeito. Depois que pegou o jeito, dedicou parte do seu tempo, durante 10 anos, a dar aulas. Cumpriu a missão com a renascença. Passou adiante.

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A sobrinha de Lala

Dona Vera Lúcia de Medeiros tem 54 anos. Mas os cabelos completamente brancos, o andar devagar e a pele castigada do sol teimam em dizer que ela viveu um bocadinho mais. Tinha 8 anos quando sua tia Elza Medeiros, mais conhecida como Lala, a “pegou” para criar. Foi justamente aí que começou sua história com a renascença. Uma das muitas tramas que a renda protagonizou na cidade de Poção, no Agreste.

Segundo conta a tradição de toda a região – que envolve os municípios pernambucanos de Poção, Pesqueira e Jataúba e algumas cidades paraibanas – , foi tia Lala a primeira disseminadora da renda no Agreste pernambucano. Vera conta que tudo começou com a jovem Maria Pastora. Nascida em Poção, veio, no início da década de 30, para a capital. Foram as freiras europeias do Convento Santa Tereza, em Olinda, que apresentaram os pontos à jovem. Ninguém sabe ao certo a nacionalidade delas, mas o pesquisador Carlos Alberto Medeiros afirma que tanto na Itália quanto na Bélgica existem rendas similares à que é feita no Agreste.

“Maria Pastora sabia fazer renda, mas não queria dar a vida pra Poção. Aqui era uma seca grande e todo mundo tava morrendo de fome. Tia Lala aprendeu na teimosia. Botou uma escada bem grande, subiu e olhou como ela fazia. Aí ela se apertou e ensinou a tia Lala.” A história pitoresca tem uma justificativa: no livro Renda Renascença, uma memória de ofício paraibana, de Chritus Nóbrega, há uma passagem que diz que, na época, unicamente a irmandade podia produzir o material, sendo as ajudantes proibidas de repassar a técnica.

O fato é que não importa se foi espiando do alto da escada ou a partir do momento que Maria Pastora decidiu disseminar a arte. Consenso é que Lala, depois de aprender, não guardou a sabedoria para si. “Minha tia ensinou muita gente por aqui. Eu mesma aprendi com ela. A gente fazia a renascença juntas. Eu, ela e Berenice, a filha dela.”

A renda, que já foi trabalho para Vera, hoje, é paixão. É o descanso entre um afazer e outro na casa onde presta serviços domésticos. “Tô fazendo uma blusa pra mandar pra Itália. Vou dar de presente para uma amiga, num sabe?” A produção é tímida. O material custa caro. Seu ateliê é a calçada da casa recém-construída. Mora só, mas vive cercada das vizinhas e da meninada que mora perto dela. “São meus colegas. Tem uns que sentam aqui mais eu para fazer renda”, diz, apresentando as meninas.

Vera, como manda a tradição, passou a lição para a filha. Mas hoje a cria mora longe. Saiu do Agreste pernambucano, veio mais para perto da capital. O sonho, agora, é ter oportunidade de ajudar a netinha a acertar os primeiros pontos: os passos iniciais de toda boa rendeira.

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