PUNTA ARENAS É ESCALA OBRIGATÓRIA

Por Mona Lisa Dourado

PUNTA ARENAS - Cá estou outra vez. No centro da Plaza de Armas de Punta Arenas a beijar o dedão do índio que enfeita o monumento em homenagem ao português Fernando de Magalhães. A mandinga garante retorno breve à cidade. Lenda ou não, comigo funcionou. A perspectiva de voltar à capital da Região de Magalhães e Antártica Chilena sinalizava aventura das boas pela frente. A escala é quase obrigatória para quem pretende percorrer o lado chileno da Patagônia e da Terra do Fogo ou cruzar a Passagem de Drake em direção ao continente branco.

Mais do que servir de ponto de apoio, no entanto, Punta Arenas merece alguns dias de atenção. Nem que seja pela sua importância histórica. Devido à descoberta do Estreito de Magalhães, em 1520, o lugar já foi a principal via de navegação entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Somente no início do século 20, quando se inaugurou o Canal do Panamá, a cidade perdeu parte de sua importância naval e comercial.

O que não diminuiu foi seu caráter cosmopolita, alimentado por imigrantes e visitantes de todo mundo, que dispõem de uma oferta de serviços de padrão internacional. Restaurantes de alta gastronomia, bares transadinhos, casino e casas noturnas asseguram diversão razoável para quem não abre mão de prazeres urbanos.

O turismo de compras é outra tentação, estimulado pela presença de uma zona franca, onde produtos como eletrônicos, perfumes e roupas podem custar até 30% mais barato. O artesanato também é rico em produtos de lã e objetos decorativos de influência indígena. Ah, e não dá para esquecer os pinguins de pelúcia. O mascote local ocupa o topo da lista de suvenires. Para vê-los de perto, um passeio 60 quilômetros ao norte de Punta Arenas leva às pinguineras do Seno Otway.

Quem optar por uma caminhada verá resquícios dos tempos áureos em cada rua da cidade, nos casarões, igrejas, praças e palacetes suntuosos. Além de admirar a arquitetura, é possível recorrer as dependências internas de muitos deles, transformados em museus. Caso dos palácios Braun Menéndez e Sara Braun. Ambos patrimônio nacional, abrigam coleções que ajudam a explicar a saga dos pioneiros dessa região e o DNA empreendedor de Punta Arenas.

Croatas, russos, portugueses, ingleses, suíços, escoceses, espanhóis, italianos, alemães e franceses, entre outros, costuraram o tecido social da cidade, que já foi uma das mais pujantes do Chile. A memória desses colonos está guardada no Cemitério Municipal. De tão bonito, o lugar se transformou em atrativo turístico.

Aliados às rebuscadas lápides em mármore e granito, 600 ciprestes cuidadosamente podados afastam qualquer morbidez.

Para uma viagem ainda mais longa no tempo, é preciso se deslocar 60 quilômetros ao sul de Punta Arenas. Margeando o Estreito de Magalhães, se alcança o Forte Bulnes, um dos pontos mais característicos da colonização do fim do mundo. Construções originais em madeira, a exemplo dos galpões, das habitações e da igreja, contam a história do primeiro povoado estabelecido pelo Chile na região. Ali nasceu a comunidade magalhânica, hoje formada por 158 mil pessoas. Como o forte está dentro de um parque natural, a visita ainda oferece belas vistas a partir de mirantes que circundam o bosque nativo.

De volta à Punta Arenas, na parte alta da cidade, a Reserva Nacional de Magalhães permite continuar desfrutando da paisagem silvestre a poucos minutos do Centro. Todo bem equipado, inclusive com espaços apropriados para piquenique, o lugar é super acolhedor. Ideal para um dia de imersão, entre frondosas árvores de coigues e lengas. Os mais dispostos podem se aventurar – a pé, a cavalo ou de bicicleta – pelas várias trilhas, devidamente sinalizadas. No caminho, observa-se o surgimento das águas subterrâneas que abastecem a população. Dá para beber direto na fonte.

Na descida da reserva, aproveite para passar no mirante Cerro de la Cruz e registrar a panorâmica mais emblemática de Punta Arenas. Os telhados coloridos das casas coloniais conduzem o olhar até um espigão modernoso que desponta à beira-mar. No porto, embarcações singram o mar azul, encrespado pelo vento. Adiante, a silhueta de uma ilha denuncia a Terra do Fogo. Hasta la vista!