ONDE O PINGUIM É REI

Por Mona Lisa Dourado

TERRA DO FOGO - Há visitantes que se apaixonam por um lugar e decidem fazer dele morada. Acontece com muita gente. Pode ocorrer com bicho também. Pelo menos é esse o curioso caso dos pinguins rei que há cerca de dois anos se instalaram em uma fazenda de criação de ovelhas na Terra do Fogo.

Escutamos a história enquanto contornamos a bela Bahía Inútil para chegar à praia que alberga os famosos hóspedes. Assim chamada por hidrógrafos britânicos que não encontraram naquelas águas boas condições de navegação, a baía acabou se tornando habitat seguro para as aves-marinhas.

Se não fosse pela placa que identifica o novíssimo “Parque Pinguino Rey”, na Estância San Clemente, um turista desavisado jamais desconfiaria daquela nobre presença. Brincadeiras à parte, não se sabe ainda ao certo por que motivo os animais se estabeleceram nessa região. Alguns arriscam culpar os desequilíbrios ambientais causado pelo aquecimento global. Achados arqueológicos recentes confirmam apenas que os pinguins rei trafegam por essa costa há 500 anos, desde o tempo dos Selknam, os nativos habitantes da ilha.

O fato é que agora está ali a única colônia acessível da espécie no continente sulamericano. Numa área de aproximadamente 30 hectares, vivem quase cem indivíduos, que começam a se reproduzir. Fora da Terra do Fogo, só na Antártida e nas ilhas Malvinas e Geórgia do Sul se pode avistar os animais em ambiente natural. Sorte de biólogos e ecoturistas que já não precisam ir tão longe.

Pelas regras do parque, deve-se manter uma distância mínima de 20 metros dos bichos. É o suficiente para admirar a sua imponência. O pinguim-rei, cujo nome científico é Aptenodytes patagonicus, só perde em tamanho para o primo imperador. Pode chegar a um metro de altura e impressiona pelo afilado bico laranja. Também pelo brilho e contraste da plumagem preta com detalhes amarelo-alaranjados. Semelhante a uma capa de neoprene, ela protege os animais das temperaturas gélidas nas profundidades de até 300 metros que são capazes de atingir. Para quem não lembrava, apesar de serem aves, os pinguins não possuem asas. Em troca, têm nadadeiras aerodinâmicas que funcionam como mecanismo propulsor para dar agilidade em sua corrida de até cem quilômetros diários na busca por alimento.

Somente pequenos grupos de dez pessoas podem se aproximar dos pinguins por vez. A restrição visa não alterar o comportamento normal dos bichos. Assim, recomenda-se à plateia sentar, ouvir e calar. O show é garantido.

Mantido pela iniciativa privada, o Parque Pinguino Rey cobra entrada de US$ 24 (cerca de R$ 50). Segundo uma das proprietárias e chefe de operações, Cecilia Durán Gafo, a taxa é revertida para manutenção do lugar como espaço de turismo sustentável e investigação científica. “Receber os pinguins reis nessa terras é uma alegria imensa, um privilégio. Cabe a nós conservar essa espécie e todo o ecossistema e sítios arqueológicos do entorno. Para isso, precisamos de um programa adequado de monitoramento e visitação, para protegê-los de seu principal predador, que é o homem”, resume Cecília.

NOSSA TERRA

Sustentabilidade também é o conceito que norteia outro parque fueguino: o Karukinka – “nossa terra”, em idioma Selknam. Criada em 2004 pela organização norte-americana Wildlife Conservation Society, a reserva natural tem uma filosofia clara: “manter o território tal qual o conheceram nossos antepassados”. Conta com quase 300 mil hectares de um inigualável corredor ecológico dos mais convidativos aos esportes de aventura. Mountain bike, trekking e pesca desportiva são alguns deles. Se a ideia é somente contemplar, deixe o esforço por conta dos bichos: flamingos e cisnes de pescoço negro nadam despreocupados em baías espelhadas, enquanto volta e meia bandos de guanacos cruzam os pampas. É a natureza na sua melhor forma.