UM LAGO PARA CADA DESEJO

Por Mona Lisa Dourado

TERRA DO FOGO - Um espelho d’água prateado se estende até onde a vista não alcança. A proteger o tesouro, montanhas zelosas se projetam num jogo de luz e sombras que só aumenta a sensação de miragem. Ruído, apenas o de pica-paus bicando as árvores do bosque nativo que tinge de verde essa aquarela. A imagem mais próxima da utopia de uma natureza intocada se faz realidade no Lago Deseado.

Está ali o refúgio prometido no coração da Terra do Fogo. E ele faz valer cada minuto de expectativa astutamente alimentada por Rafael e Patrick, os guias que nos acompanham nessa aventura. Chegar até lá exige disposição. Quem disse que o caminho ao paraíso é fácil? Mas pode ser repleto de prazeres.

Como a Terra do Fogo é uma ilha, só há duas maneiras de alcançá-la: pelo mar ou pelo ar. De cima, a emoção vem em 360º. Somos sete, além do piloto, em um bimotor turboélice. O sobrevoo panorâmico permite distinguir vales nevados, fiordes e canais. Entre Puerto Williams, na Ilha Navarino, e Pampa Guanaco, já em território fueguino, levamos 45 minutos imersos em uma inesquecível aula de geografia 3D.

Ainda faltam 60 quilômetros de estrada cruzando colinas escarpadas até o tão desejado destino. Para quem vem direto de Punta Arenas, a aterrisagem é em Porvenir, de onde o percurso se torna bem mais extenso: 300 quilômetros. Como pegamos um atalho, resta aproveitar o tempo para apreciar as inigualáveis paisagens brancas presentes no trajeto até o início da primavera. Raro a olhares tropicais, o ambiente é irresistível. Haja guerra de bola de neve para um lado e gente escorregando de bunda no chão para o outro.

Passa do meio-dia quando somos recebidos pelo Sr. Deseaaaaado, apelido incorporado pelo sorridente Ricardo Salles, dono do lodge homônimo às margens do famoso Lago Deseado. Inaugurada há dois anos, a pousada tem apenas quatro cabanas erguidas sobre grossos troncos de madeira. Das amplas janelas de vidro salta como tela de fundo um incomparável anfiteatro natural. No meu quarto, praticamente ao lado da cama, ainda ganho como bônus a companhia de um riacho que escorre entre os galhos retorcidos da mata. Poderia passar o resto da tarde embalada por essa melodia. Mas o dever, ou melhor, o almoço me chama.

E a experiência sensorial se completa. Da cozinha, que tem a mesma vista privilegiada de todas as instalações do lodge, vem o perfume de temperos que enriquecem o sabor de peixes e carnes de caça. “Todos ingredientes locais”, gaba-se a chef Andréa, mulher de Ricardo, servindo o melhor da cozinha fueguina, sem afetações. Alguém propõe um brinde, enquanto um curioso carancho aparece para espiar a cena.

Depois de uma merecida sesta, topo de bom grado o convite de explorar a remo as águas mansas do Deseado. Também há opções de passeios de bicicleta, caminhadas a vales e cascatas e navegações mais extensas pelos rios do entorno.

Prefiro o caiaque. Deslizando macio, relaxo a tal ponto de pensar que poderia seguir nesse ritmo até o outro lado, na Argentina. Será? Quem sabe da próxima vez, porque um burburinho me devolve à beira. Uma companheira exibe sorridente a truta que acabou de pescar. Cliques garantidos, o peixe é liberado. Cumpriu o papel de comprovar outra fama do lago: a de ser um dos melhores lugares da América Latina para a prática da pesca desportiva. Se até uma principiante consegue... Ainda não foi a minha vez.

Nem precisava. A energia desse lugar já soava perfeita. Só que tudo que é bom... pode ficar melhor. O Sr. Deseado saca o violão. Patrick o acompanha. Não demora e, animados pelo vinho, estamos improvisando uma serenata com clássicos do cancioneiro popular magalhânico. Uma lua incandescente irrompe por trás das montanhas. Se a paz existe, deve ser algo parecido com isso.

CONVERSA DE PESCADOR

O dia nasce feliz. Com tempo bom, avançamos no recorrido à Terra do Fogo acompanhando o curso de rios infindáveis. Espalham-se pelo vasto platô dando origem a outros lagos tão impressionantes quanto o Deseado.

O maior deles é o Fagnano, não à toa chamado na língua selknam de Khami – “água grande”. Com superfície total de 645 quilômetros quadrados, ele se estende por 110 quilômetros, dos quais apenas uma pequena parte cruza o Chile. O restante está na Argentina. Em meio ao cenário agreste, o Fagnano chama a atenção pelo tom azul vibrante característico de sua origem glaciar. Agitado pela força do vento, forma ondas que desaguam em suas margens. Quase um mar de água doce, que marca o limite entre o norte e o sul da ilha.

De dimensões mais modestas, mas não menos esplêndido é o Lago Blanco, rodeado por um bosque de lengas curiosamente modeladas pelas bravias correntes de ar. A vistosa flora só não compete com a fauna subaquática, vedete dessa região.

A abundância de várias espécies de salmão e truta atrai adeptos da pesca com mosca de todo o mundo para os lagos da Terra do Fogo. “Geralmente são pescadores experientes. No entanto, com um pouco de orientação qualquer um pode tentar”, encoraja o guia Rafael González, proprietário da Magallanes Fly Fishing.

Desafio aceito. Coloco a roupa de borracha própria para encarar a água gelada e me encaminho lago adentro a passos de astronauta. Quem não quiser correr o risco de levar um banho pode se instalar no píer mantido pela Hostería Las Lengas, a mais próxima do Lago Blanco.

Vara e anzol em mãos, olhos e ouvidos atentos, vamos à primeira tentativa, à segunda, terceira... Sim, pesca é atividade para perseverantes. Por isso mesmo, recompensadora e emocionante. Basta um repuxo no nylon para disparar a adrenalina. Agora sim. Lá vem ela, uma linda truta arco-íris, tão agitada quanto eu tentando segurá-la. Só o tempo para registrar o feito e a devolvo, contente, ao seu habitat. Cerca de meio metro e uns dez quilos tinha a minha truta. Juro que não é conversa de pescadora.