QUANDO O MELHOR DA VIAGEM É O CAMINHO

Por Mona Lisa Dourado

PUNTA ARENAS - Um cruzeiro de quatro dias entre glaciares e fiordes, refazendo os caminhos de Darwin pelo Canal Beagle com destino ao fim do mundo. Pode não ser a opção mais curta. E nem de longe, a mais em conta. Mas certamente a alternativa tentadora revela o trajeto mais cinematográfico para chegar à Terra do Fogo. Típico caso de quando o caminho já vale a viagem.

Com argumentos tão convincentes, embarcamos no porto de Punta Arenas num fim de tarde de verão. Nem a chuvinha fina foi capaz de esfriar os ânimos dos 180 passageiros a bordo do navio Stella Australis. Depois de uma calorosa recepção na área externa do barco, zarpamos cheios de expectativas.

No dia seguinte, elas começavam a se concretizar. Ao amanhecer, já estamos navegando no fiorde Almirantazgo, para ancorar na Bahia Ainsworth, onde se localiza o Glaciar Marinelli. Hora de colocar os jalecos salva-vidas alaranjados e rumar para terra firme em botes zodiac. Leões-marinhos se espreguiçam na praia, despreocupados com o assédio dos visitantes. Dividem a atenção com o azulado bloco de gelo que flutua na água. Há mais para conhecer e a guia Sheiza Castro nos chama para apresentar a vegetação de lengas, coigues e ñires, arbustos de raízes curtas comuns nos bosques patagônicos. Também nos aponta o esguio canelo, de onde os índios nativos Yámanas extraíam a matéria-prima para produzir arcos e flechas usados na caça.

À tarde, é a vez de contornar as ilhotas Tuckers, onde a avifauna é a atração. Cormorões, chimangos e skuas mantêm colônias ali, em meio a uma balbúrdia de sonoridades. O ritual de um casal de pássaros que parece estar em cortejo nos chama a atenção. E de novo a simpática Sheiza nos salva da ignorância. “São carancas.” O macho, branco de bico negro, é alimentado pela fêmea, de cor cinza-escuro com manchas brancas. “Acontece que se ela o abandona, ele se desorienta, come qualquer coisa e morre. Dependente como em todas as espécies”, diverte-se a guia.

Nesse cruzeiro de expedição, conhecimento é tão valorizado quanto as luxuosas instalações. Por isso, entre um e outro desembarque, sempre há palestras, projeções de documentários e bate-papos com especialistas na região. Também sobra tempo para curtir os amplos salões de janelões envidraçados por onde desfila uma sucessão de imagens extasiantes. Até do restaurante se pode admirá-las. Do quarto, então, a sensação é de integração total à paisagem.

Ainda mais quando salta à sua frente o majestoso Glaciar Pía. O dia está frio, a ponto de nevar. Em pleno verão! Caprichos do clima imprevisível do fim do mundo. Reforçamos as capas de roupa e lá vamos nós outra vez aos zodiac, desviando dos pedaços de gelo que parecem formar um grande quebra-cabeças flutuante. Para esquentar, caminhada morro acima. E as dimensões do paredão se tornam cada vez mais impactantes. De repente, um estrondo. Um pedaço enorme do glaciar se desprende. E logo se ouve o tilintar de copos que brindam, com uísque e gelo glaciar, à força da natureza.

O Pía é só o aperitivo para o que está por vir. Enquanto navegamos pelo Braço Noroeste do Canal Beagle, desponta a Avenida dos Glaciares. De parar o trânsito, deixa os turistas atônitos. Romanche, Alemanha, França, Itália e Holanda. Batizadas com nomes de países, as geleiras surgem numa sequência arrebatadora. Seria o suficiente para justificar a viagem. Não houvesse ainda muitas emoções reservadas para o último dia do cruzeiro.

O mar bravio provoca turbulências. Sinal de que resta pouco para atingirmos nosso objetivo: alcançar o último ponto do mapa sulamericano. É madrugada quando avistamos o Cabo de Hornos, o último pedaço de terra do continente antes da Antártida, no extremo sul da Terra do Fogo. Alimentado a mística, os alto-falantes anunciam: “É mais fácil chegar ao Taj Mahal que estar aqui. E vocês agora fazem parte dessa lenda”.

O efeito é imediato. Um rebuliço toma conta do convés. Até porque nem sempre o desembarque se realiza. “O clima é que dita as regras. Quando não há condições de aproximação, não baixamos”, conta o capitão Oscar Sheward. Desde tempo remotos, a navegação em torno do Cabo de Hornos inspira respeito. Entre os séculos 16 e 20, mais de 800 embarcações naufragaram por aqui.

Felizmente, hoje as tecnologias de navegação tornaram a empreitada muito mais segura. O único desafio para os visitantes é vencer os 157 degraus da escadaria que leva ao topo e seguir pela trilha de madeira em direção ao monumento do albatroz em voo. Uma homenagem aos homens que pereceram nesses mares revoltos.

A família do faroleiro que vive na ilha e controla o tráfego de embarcações recebe os turistas com simpatia, respondendo às perguntas curiosas sobre como é a vida isolada de tudo e de todos. “Temos internet”, resume, sorridente, Daniela Cadiz, 14, enquanto negocia os produtos da lojinha de suvenires. Na pequena capela do lado de fora, alguns visitantes agradecem o privilégio de chegar até ali.

Depois do marco geográfico, resta conhecer o lugar que simboliza as investidas colonizadoras nas últimas ilhas austrais. Na Baía Wulaia, o capitão inglês Fitz Roy e o naturalista Charles Darwin travaram os primeiros contatos com o Yámanas, no século 19. Uma antiga estação de rádio naval transformada em museu conta essa história.

O patrimônio antropológico é tão rico quanto a fauna e a flora do entorno. Um clarão no meio da mata desperta curiosidade. São intricados diques construídos por castores. É quase inacreditável que os roedores sejam capazes de derrubar tantas árvores a dentadas. Os animais foram introduzidos na Terra do Fogo na década de 40 para exploração do comércio de peles. Como o negócio não deu certo, a espécie se multiplicou pela região, transformando-se numa praga que causa sérios danos aos bosques subantárticos.

No lado oposto às castoreiras, onde a vegetação ainda é densa, tem-se uma visão esplendorosa da Baía Wulaia, protegida por montanhas acinzentadas. Belo prenúncio das belezas fueguinas.

DESEMBARQUE

Ushuaia reluz do outro lado da ribeira do Canal Beagle, mas é na Ilha Navarino que desembarcamos para continuar a viagem pela banda chilena da Terra do Fogo. Puerto Williams é a nossa próxima escala, a um hora de carro. O trajeto é escuro e cheio de curvas. Sorte que uma lua cheia logo vem em nosso socorro, imprimindo alguma poesia àquele caminho acidentado.

Ao amanhecer, os contornos da cidade mais ao sul do continente se tornam claros. Do Lodge Lakutaia, avistamos os Dientes de Navarino, cadeia de montanhas nevadas, cujos picos escarpados superam os mil metros de altitude. Chamariz para os praticantes de trekking. A oferta de atividades outdoor, aliás, é a principal vocação de Puerto Williams, além do turismo histórico, dada à forte presença Yámana. No Museu Martín Gursinde está a melhor síntese dessa cultura.

Ainda dentro da cidade, a cinco quilômetros do Centro, um ponto interessante é o Parque Etnobotânico Omora. Funciona como uma sala de aula ao ar livre que introduz os visitantes na rica vegetação fueguina. Trilhas cercadas de verde são sinalizadas com placas que explicam as características de cada árvore. Interessantes são os bosques em miniatura que se desenvolvem sobre troncos, exibindo mais de 30 espécies. Diversão certa para quem vê beleza nos detalhes.