NO RODAPÉ DO MUNDO

Por Mona Lisa Dourado

ILHA REI GEORGE - Nossa viagem ao intrigante continente branco foi por via aérea. Pouco mais de duas horas são suficientes para atravessar a temida Passagem de Drake e vencer os 990 km que separam Punta Arenas da Ilha Rei George, parte do Arquipélago da Shetland do Sul, a 120 km da Península Antártica. A aterrissagem é no campo de pouso de 1.340 metros mantido pela Força Aérea do Chile e único na região. Ali começa a aventura em terra e mar antárticos.

Depois do impacto inicial da paisagem que intercala a superfície branca e azul com o solo rochoso de origem vulcânica, é hora de iniciar uma breve caminhada. A pé, percorre-se os principais atrativos do entorno. Em frente ao hangar das aeronaves, pit stop para fotos diante do marcador que aponta a direção e a distância para algumas das cidades mais conhecidas do mundo. Do Brasil, a única referência é o Rio de Janeiro, a exatos 4.537 quilômetros ao norte.

Bem mais próxima está a Base Russa Bellingshausen, onde os turistas são recebidos com chocolate quente, café e biscoito. Em troca, a única exigência é tirar as botas antes de entrar e calçar sandálias secas para não molhar o piso de madeira. O tratamento é dos mais gentis.

Fundada pela Expedição Antártica Soviética em 1968, a estação reúne 14 módulos construídos numa área de 25.236 m2. Abriga em média 25 cientistas, que desenvolvem estudos em áreas como glaciologia, biologia e geologia. Foi uma das primeiras instalações dedicadas à pesquisa na cosmopolita Rei George.

Vários outros países mantêm bases na ilha, entre eles Chile, Argentina, China, Estados Unidos, Peru, Equador, Polônia, Uruguai, Coreia do Sul e Brasil, que trabalha na reconstrução da Estação Antártica Comandante Ferraz, incendiada em fevereiro de 2012. “A Antártida é terra de ninguém e de todo mundo. Isso é o que há de mais lindo. Um mundo quem sabe ideal, que vive da colaboração entre as nações. Vir para cá ainda te permite ter contato com a cultura de distintos lugares”, resume o empresário Nicolás Ibañez, pela segunda vez no continente gelado. O princípio de cooperação citado por ele é repetido por dez entre dez pessoas que vivem ou trabalham no rodapé do mundo, onde os homens se ajudam para lidar com a natureza imprevisível.

A testemunhar como a Antártida mobiliza o melhor do espírito humano está uma preciosidade erguida em 2004 no cume de uma colina 30 metros acima de Bellingshausen. A Igreja Ortodoxa da Trindade oferece, de fora, uma das melhores panorâmicas da plácida Baía Fildes. Dentro, acolhe durante todo o ano quem procura conforto para encarar a rotina na região polar austral. O percurso até o templo já é quase uma penitência. Não tanto pela distância, e sim porque na subida o pé afunda na neve fofa até a altura do joelho. Equilibrar-se é um desafio. Mas vale a pena. A charmosa igrejinha foi construída em madeira de cedro na Sibéria e enviada em navio para ser remontada ali, com o devido reforço de estruturas de aço capazes de resistir às violentas ventanias.

Para baixo.... todo santo ajuda. E a descida da Igreja da Trindade se torna diversão para visitantes de todas as idades e nacionalidades, que improvisam um “esquibunda”. A essa altura, a adrenalina espanta o frio, a ponto de permitir se desfazer de uma das capas de roupa. O calor, aliás, chama a atenção de quem se preparou para enfrentar o ambiente polar. “Fiquei impressionada com a contradição do clima. Estou suando, porque caminhamos muito. Não importa. Tudo é maravilhoso. A cor dessa neve é algo que não se vê em nenhuma parte”, diz a entusiasmada estudante chilena Vanessa Suyabre, 14 anos, que ganhou um concurso de redação para vir à Antártida e espera voltar quando se tornar uma guia de turismo.

Apesar de os termômetros marcarem -1º.C, o sol forte exige cuidado redobrado com a pele e os olhos. Óculos de sol e protetor solar são indispensáveis. Nunca é demais lembrar, afinal, que estamos bem abaixo do buraco da camada de ozônio.

Cem metros apenas separam a estação russa da Capitania dos Portos, na área da Base Chilena Presidente Eduardo Frei Montalva, que opera desde 1969. A ideia nessa visita é conhecer o trabalho desempenhado pelos militares em condições extremas. Somos recebidos pelo solícito operador de rádio Sandro Marin, que nos abre com orgulho as portas da estação, para mostrar seus diferentes recintos, da sala de estar e lazer ao centro de operações, passando pela cozinha, academia, depósito, garagem... “Aqui, controlamos o tráfego de embarcações na baía, monitoramos o índice de contaminação e oferecemos a logística de apoio às bases científicas”, explica.

Ao lado da base chilena, erguem-se como as peças de um Lego casinhas térreas em tons de amarelo, verde, vermelho e azul que formam a Villa Las Estrellas. O povoado civil mais austral do planeta abriga cerca de 150 pessoas no verão e faz a teoria do isolamento cair por terra. Não faltam comunicação por telefone e internet. Sem falar que as TVs sintonizam os mesmos canais por assinatura do Chile.

A despeito da localização remota, os moradores contam com todos os serviços de uma pequena cidade, incluindo minimercado, escola, hospital, capela, ginásio, banco e posto de correio. Aproveite para enviar um postal e garantir o simpático carimbo da Antártida no passaporte.

Civilização demais para quem veio em busca de imersão na natureza? Botes zodiac estão a postos para seguir em direção à Ilha Ardley, ponto alto do passeio. Na praia, os anfitriões de jeitão desengonçado fazem as honras da casa. Pinguins papua de bico alaranjado se multiplicam aos milhares por encostas, rochas e onde mais seja possível arrumar seus ninhos.

Entre janeiro e fevereiro, é comum observar bem de perto casais alimentando os filhotes. Monogâmicas, as aves se revezam na tarefa, que costuma arrancar exclamações enternecidas dos visitantes. Já o andar dos bichos sobre o gelo provoca risadas. Com cerca de 40 centímetros de altura, o papua não caminha mais que um metro sem escorregar e levar um tombo. Desenvoltura mesmo os pinguins têm na água, já que em vez de asas eles possuem ágeis nadadeiras, logicamente muito mais adaptadas ao mar que à terra.

Diante do inesgotável espetáculo natural, não há espectador que se canse. Perdemos a noção da hora. A confusão só aumenta com a presença constante do sol, que ilumina o continente durante mais de 20 horas no verão.

Contrariando a expectativa geral, o guia avisa que é o momento de despedir-se. Cada minuto no continente gelado precisa ser cronometrado, porque em questão de segundos o vento muda influenciando a temperatura e a força da maré. “Já tivemos que ficar na Antártida sem haver programado por pura falta de condições climáticas de regressar a Punta Arenas”, conta o comandante Sergio Cortés, 58 anos, 22 deles dedicados a voos para a região.

Enquanto navegamos rumo à baía, sentimos na pele o frio cortante. Agora sim a sensação térmica condiz com o clima antártico. Nada que a trilha de volta ao aeroporto não ajude a atenuar. Tempo para entender o que o silêncio profundo daquelas terras geladas tem a dizer.