O QUE O GELO TEM A CONTAR?

Por Mona Lisa Dourado

Um gaúcho e um carioca. Em comum, o fascínio pelo continente que adotaram como laboratório de pesquisa. Ambos fizeram do gelo objeto de estudo. Juntos, os cientistas Jefferson Cardia Simões, diretor do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), 54 anos, e Heitor Evangelista, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), 45, lideram o projeto mais ousado do Brasil na Antártida. Trata-se do módulo Criosfera 1, que completou no último dia 12 um ano de atuação no interior do território antártico, a 2,5 mil km da Estação Comandante Ferraz. O ponto avançado, a 84 graus de latitude Sul, coleta dados sobre o ambiente polar que permitem fazer conexões diretas entre as mudanças climáticas na América do Sul e no Brasil. Essencial para o entendimento de fenômenos como as frentes frias e o aumento da temperatura na superfície do Atlântico Sul, a experiência tem no intercâmbio de conhecimentos entre pesquisadores de instituições diversas um dos seus maiores méritos. Sobre essa parceria, e os desafios da pesquisa em condições extremas Jefferson e Heitor conversaram com a editora Mona Lisa Dourado.

JC - O que o gelo tem a nos contar?

JEFFERSON – Ele é um dos principais reguladores do nosso dia a dia, do clima do planeta e também guarda o melhor registro da história do clima e da química da atmosfera ao longo de 800 mil anos. Através dos testemunhos de gelo, como chamamos as amostras no nosso jargão, conseguimos identificar como se processaram as grandes alterações climáticas, se houve grandes erupções vulcânicas e podemos detectar o aumento da poluição em âmbito global. Detectamos até mesmo as explosões nucleares realizadas na atmosfera nas décadas de 50 e 60. Tudo isso está guardado nas camadas de neve e gelo que se acumularam através de milhares de anos na Antártida. 

JC - Sabe-se que a Antártida é essencial para entender o clima do mundo. Que conexões concretas podem ser feitas com os fenômenos naturais registrados no Brasil?

HEITOR - A variabilidade do gelo marinho na Antártida tem fortes implicações sobre a dinâmica de frentes frias e padrões de chuva no Brasil. Parte das incertezas dos modelos de previsão do tempo poderá ser reduzida se essa relação climática for melhor esclarecida. O continente também pode controlar o nível e a temperatura dos oceanos. No Atlântico Tropical, por exemplo, verificamos uma anomalia em torno de um grau na temperatura superficial do mar (SST) desde o início da redução do ozônio, que tem gerado impacto na taxa de crescimento de algumas espécies aqui na costa do Brasil.

JEFFERSON - A verdade é que a Antártica e o Ártico são tão importantes quanto a Amazônia para a questão climática mundial. Os processos que se formam na Amazônia e ações humanas como as queimadas afetam a Antártida e vice-versa.

JC - O Criosfera 1 é a primeira investida do Brasil fora da Ilha Rei George, onde está a Estação Comandante Ferraz. O que representa para o País ter um ponto de presença no interior do continente?

JEFFERSON – Novas possibilidades nas áreas de geologia, geofísica, glaciologia e química da atmosfera. No futuro, esperamos ter atividades de astronomia e astrofísica. Isso faz parte da evolução do próprio Programa Antártico Brasileiro (Proantar).

JC – O módulo opera de forma automatizada com painéis solares e turbinas eólicas desde a sua instalação, em 12 de janeiro de 2011. Quais as impressões do primeiro ano de funcionamento? 

HEITOR – O Criosfera 1 foi projetado para monitorar a química da atmosfera, o CO2 (principal gás do efeito estufa), a variabilidade da altura do manto de gelo (este em tempo quase-real) e dados meteorológicos em alta resolução. No último mês, passamos 21 dias no acampamento fazendo a manutenção e instalando novos equipamentos. Tudo foi coletado dentro do esperado e enviado via satélite pelo sistema Argos para redes meteorológicas internacionais, mas ainda estamos analisando as informações.

JC - Como avalia o investimento nas pesquisas brasileiras em comparação com outros países que também têm base na Antártida?

HEITOR - Alguns países como os EUA, a Rússia, a Inglaterra e a Comunidade Europeia como um todo e mais o Japão têm mais tradição do que nós em termos de Antártida e maior investimento em pesquisa naquela região.  Mas o continente ainda é uma grande fronteira a ser explorada e iniciativas como o Criosfera 1 abrem ao Brasil novas possibilidades.
JEFFERSON - Não estamos entre os que investem menos, mas também não somos dos que investem muito. Comparando com os Brics, o que menos investe é o Brasil. A China tem três estações, a Índia, duas, e a Rússia, de quatro a cinco. O que mostra que mesmo os países emergentes, de economia meio-termo, têm interesse na Antártida, tanto político quanto ambiental. E isso, claro, reflete na produção intelectual. Nós estamos no meio do caminho. Certamente entre os 29 países que são membros do comitê internacional de pesquisa antártica, estamos entre os 15 primeiros, mas ainda não somos de vanguarda.

JC - O Protocolo de Madri definiu a Antártida como território neutro dedicado à ciência e à paz, estabelecendo uma moratória até 2048 para a extração dos seus recursos naturais. A possível exploração econômica do continente preocupa os cientistas?

JEFFERSON - É muito cedo para se preocupar com isso. Vai depender da evolução dos recursos naturais do planeta como um todo. A grande fronteira para os próximos 30 anos não é a Antártida, mas o Ártico. A exploração dos recursos de óleo e gás no Ártico é que está nos preocupando, até porque é muito mais fácil e barato atuar lá do que na Antártida.

HEITOR – Estamos mais preocupados em ter uma presença científica relevante, para ter uma posição de destaque dentro da comunidade internacional.

JC – Por falar no Ártico, quais as principais diferenças entre os dois polos?

JEFFERSON - A Antártida é um continente isolado circundado pelo oceano e o Ártico é o contrário: um oceano gelado circundado por trechos de terra. O Ártico está mais absorvido pela economia mundial. A exploração dos recursos econômicos lá avança tanto quanto o gelo derrete, o que não acontece na Antártida, que só perdeu 1% do seu volume de gelo total da década de 50 para cá. O Ártico tem uma população fixa, de cerca de quatro milhões de indivíduos, pouco em relação à área. Ainda assim, muito comparado à Antártida. Nós somos no máximo cientistas, militares e pessoal de apoio. Chegamos a cinco mil no verão. As duas faunas são adaptadas a condições extremas, mas a fauna Ártica tem animais terrestres, como o urso polar, o que nós não temos no sul. Ambos os ecossistemas são frágeis e sensíveis às ações humanas e ao aquecimento global.

JC – Como se dá a parceria entre os países para viabilizar as pesquisas no continente? Quem são os principais parceiros do Brasil?

JEFFERSON - A grande vantagem do Sistema do Tratado da Antártida é a cooperação muito intensa entre os países. Claro que o Brasil tem uma facilidade de cooperação com o Chile, mas cada vez mais avançam as cooperações científicas de envergadura com Estados Unidos, Alemanha e França, além de estarmos nos aproximando de Japão, Rússia e Inglaterra. África do Sul e Argentina são outros parceiros importantes. É bastante ampla a interação brasileira e isso facilita e reduz até os custos. Sem falar o quanto facilita em casos de emergências. É essencial.

JC – Quais os desafios de fazer pesquisa no continente branco. O que mais assusta e encanta na Antártida?

HEITOR – Assusta constatar nossa pequenez diante do manto de gelo. O que mais me encanta é como uma paisagem tão, aparentemente, simples pode ser tão mutável a cada segundo. 

JEFFERSON – É um ambiente muito difícil e agressivo, mas com o qual estabeleci uma relação íntima em mais de 20 anos de estudos lá. Com o tempo, se torna familiar, faz parte da sua rotina.