RUMO AO DESCONHECIDO

Por Mona Lisa Dourado

Mares tempestuosos e um ambiente inóspito à vida fazem da Antártida até hoje um continente selvagem e quase intocado. Mas a existência da região polar austral já era vislumbrada pelos gregos desde o século V a.C. Imaginava-se naquela época que, em um planeta esférico, para contrapor as massas continentais do Hemisfério Norte, deveria haver um continente de dimensões similares no Hemisfério Sul. O território incógnito foi assim chamado de Antarktikos, em oposição ao Ártico, nome da estrela polar da constelação da Ursa Maior (em grego, Artikos).

Centenas de anos se passaram até que as metrópoles europeias decidissem organizar expedições em busca da Terra Australis. Com o avanço da exploração da costa sul-americana até latitudes patagônicas, tornava-se cada vez mais provável a localização do continente desconhecido. Tão nebuloso quanto o horizonte abaixo do paralelo 60° são os registros sobre os pioneiros desbravadores da Antártida.

As primeiras incursões de que se têm notícias nas gélidas águas antárticas foram feitas em 1675 pelo marinheiro mercante inglês Anthony de la Roche (de origem francesa por parte de pai). Quase um século depois, o capitão James Cook cruzou o Círculo Polar Antártico, em 1773 e 1774, sem nunca ter avistado o continente.

Descobriu, no entanto, as Ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul, ressaltando em seus relatos as grandes colônias de “mamíferos de pele valiosa”, provavelmente focas. O achado atraiu à região aventureiros movidos pela perspectiva de lucro com a caça. Nessa corrida, o britânico Willian Smith alcançou, em 1819, a Ilha Livingston, no arquipélago das Shetland do Sul, praticamente apontando o caminho para as terras continentais.

Naquela direção navegaram três capitães que disputam o título de primeiro descobridor a ver o continente branco, no ano de 1820. O estônio Fabian Gottlieb von Bellingshausen (da Marinha Imperial Russa) teria observado em 27 de janeiro a costa da Terra da Rainha Maud. Outro registro aponta que, em 30 de janeiro, o irlandês Edward Bransfield haveria identificado o litoral noroeste da Península Antártica. E, em 16 de novembro, o norte-americano Nathaniel Palmer garantiu ter costeado a península a uma distância de apenas três milhas marítimas.

Seja de quem for o mérito, a partir de então, pisar em solo antártico era apenas uma questão de tempo. Façanha atribuída ao norte-americano John Davis, que teria desembarcado na Antártida Ocidental em 1821.

Desse período até meados do século 20, os mares do extremo sul estiveram tingidos de vermelho do sangue de mais de 300 mil animais, entre focas, baleias e lobos-marinhos exterminados por caçadores. Além da pele, extraía-se o óleo da gordura dos mamíferos, que era utilizado na iluminação pública do Velho e do Novo Mundo. Somente em 1966 a atividade foi proibida, quando algumas espécies já beiravam a extinção.

A CONQUISTA DO POLO SUL

Uma vez mapeada a zona austral, em paralelo à exploração econômica, aumentavam também os interesses científicos e territoriais pela região. Entre o fim do século 19 até a década de 1920, 17 expedições financiadas por oito países marcaram o que ficou conhecido como ciclo heroico. Foi a era das epopeias de grandes desbravadores que arriscavam a vida pela glória e a fama de atingir os limites da Terra e entrar para a história.

O episódio mais conhecido dessa fase é a disputa pela conquista do Polo Sul geográfico, vencida pelo norueguês Roald Amundsen, em 14 de dezembro de 1911. Vindo de uma família de navegadores, o aventureiro ainda foi o líder da expedição que atingiu pela primeira vez o Polo Norte, em 1926. Antes, entre 1903 e 1906, já havia realizado a proeza de atravessar a Passagem do Noroeste (entre o Alasca e a Groenlândia).

Só mesmo Amundsen poderia ter tirado do britânico Robert Scott a honra da vitória. Também experiente em solo polar, Scott partiu com meses de antecedência, mas encarou uma sucessão de problemas na viagem – como o encalhe do navio Terra Nova no gelo e a morte dos pôneis siberianos que carregavam os equipamentos. Com o atraso, chegou ao Polo Sul um mês após os noruegueses, em 17 de janeiro de 1912. O expedicionário e seus cinco homens não apenas amargaram a derrota como foram vítimas de uma das maiores tragédias testemunhadas na Antártida. Sob um frio de 40 graus negativos (que necrosava os pés), todos morreram de fome e exaustão, depois de dois meses de sofrimento, ao regressar da aventura.

O legado de Scott, no entanto, é bem maior que a empreitada infeliz. Sua contribuição para o mapeamento de acidentes geográficos e coleta de amostras do ambiente antártico é reconhecida como uma das mais importantes da época.

Alheio à competição no interior do continente antártico, o explorador australiano Douglas Mawson, então com 30 anos, foi outro que travou uma luta titânica pela vida em nome da ciência. Era líder da Expedição Australasiana à Antártica (AAE), que pretendia investigar uma ainda incógnita faixa de terra na costa. Após percorrer 478 km em 35 dias, inicia o trajeto de retorno, em dezembro de 1912. Castigado pelos rigores do clima, perde os dois companheiros, trenós e mantimentos, empreendendo sozinho parte do caminho de volta. O homem chega devastado, mas com a missão cumprida. A expedição rendeu 96 relatórios com resultados científicos jamais alcançados nas áreas de biologia, oceanografia, geologia, meteorologia, magnetismo e glaciologia.

A jornada épica só não é mais impressionante que a protagonizada pelo inglês Ernest Shackleton. Perdida a corrida ao Polo Sul, o navegador impôs-se o desafio de atravessar a pé o continente, passando sobre o marco geográfico. Sai da Inglaterra em agosto de 1914 a bordo do Endurance, com 27 homens. Não imaginava que o navio ficaria preso na Baía de Vahsel por uma grossa camada de gelo que acabou por tragá-lo. O resto da história é de pura resistência, com todas as vidas preservadas. Dispondo de apenas três botes, a tripulação enfrentou 24 meses e 22 dias sobre o gelo, entre a escuridão mais profunda e o sol intenso, driblando a neve, a chuva, o frio e a fome. Contada em livro e filme, a saga é a mais bem documentada do período, graças à presença do fotógrafo australiano Frank Hurley entre os expedicionários. A odisseia de Shackleton marcou o fim do tempo dos heróis na Antártida. Um ciclo que deixou como saldo avanços inestimáveis para a ciência.