DESAFIO SOBRE O GELO

Por Mona Lisa Dourado

"Os prejuízos foram da irreparável perda de duas vidas humanas a toda uma memória que se transformou em cinzas. É muito triste chegar lá, lembrar de como a base era ativa e ver que boa parte dela virou escombros.” A impressão do capitão de mar e guerra Marcelo Seabra, que conversou com a reportagem do Jornal do Commercio em Punta Arenas (Chile), sintetiza o sentimento de quem voltou à Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) neste verão. Pouco mais de um ano depois do incêndio que destruiu 70% da estrutura da base brasileira no continente gelado e matou dois militares, o cenário desolador começa a abrir espaço para o esboço de uma nova residência do País na Antártida. Uma casa que deve se apoiar sobre três pilares: segurança, conforto e sustentabilidade.

Esses são os critérios básicos exigidos no termo de referência do concurso lançado em janeiro pela Marinha e o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) para selecionar o projeto arquitetônico das novas instalações da EACF. Estão convocados a participar arquitetos brasileiros ou estrangeiros associados a escritórios locais. O prazo para as inscrições vai até 14 de março e os projetos devem ser entregues até 2 de abril. A estimativa é que até o dia 30 de abril o resultado seja homologado, para dar início ao processo de licitação.

Como o ambiente da Antártida tem características muito peculiares impostas pelo clima imprevisível, a proposta vencedora deverá contemplar tecnologias flexíveis, modulares e com capacidade de adaptação às demandas futuras. A ideia é que as edificações principais da nova base tenham uma vida útil de 40 anos com o mínimo de necessidade de manutenção. É o que explica o coordenador geral do concurso, o arquiteto Luiz Fernando Janot. “Todos os materiais e técnicas utilizados devem atender às exigências de cuidados ambientais. Por isso, solicitamos a formação de equipes multidisciplinares para elaboração e implantação do projeto, que envolve mais de uma dúzia de especialidades, entre elas arquitetura, sistemas construtivos, segurança, geotecnia, conforto ambiental, geração de energia, automação, tecnologia da informação, etc.”, detalha.

Segundo Janot, deverão ser priorizadas soluções que promovam a integração entre energias renováveis e fósseis. Dessa forma, a matriz energética da estação deverá ser híbrida, reunindo sistemas eólico, solar, de cogeração e aproveitamento de calor e de resíduos para o processamento de biocombustíveis. A eficiência será garantida por um método de smart grid, que gerencia a rede de forma inteligente e automatizada. Ainda no quesito sustentabilidade, a nova base deverá contar com unidade de tratamento de resíduos sólidos e efluentes líquidos. Uma sugestão é a incineração do lixo orgânico a partir de equipamentos que tenham mecanismos de filtragem e retenção de poluentes atmosféricos.

No aspecto da segurança, a orientação é para o uso de materiais não combustíveis, como fibra de carbono e aço inoxidável, e a separação dos ambientes em blocos, o que auxilia no combate a incêndios. De acordo com as bases do concurso, algumas estações hi-tech construídas nos últimos anos no continente gelado podem servir de referência para o Brasil, como a norte-americana Amundsen-Scott, de formas aerodinâmicas, e a belga Princess Elizabeth, esta última conhecida como “a primeira estação de emissão zero de carbono”. “Essas experiências podem servir de subsídios para extrair o que há de melhor para as nossas necessidades”, reitera Janot.

Para garantir o tráfego de dados em alta velocidade exigido pelas pesquisas, também está prevista a instalação de uma de uma rede cabeada e sem fio com capacidade de transmissão de 1 Gbit.

Com área total em torno de 3,3 mil m2, a nova base brasileira será construída no mesmo local ocupado pela anterior. Sua estrutura comportará 34 cabines com capacidade para abrigar até 64 pessoas por vez, sala de estar/jantar, hall, banheiros, biblioteca, lan house, sala de TV, academia, sala de videoconferência, cozinha e áreas de serviços, operações e laboratórios.

O BRASIL NA ANTÁRTIDA / LINHA DO TEMPO

A Marinha prevê que o processo de reconstrução já tenha início em novembro deste ano e seja concluído em fevereiro de 2015. “Todas as etapas ocorrem paralelamente. Sendo modular, a base pode ser construída e testada fora da Antártida, desmontada e levada para lá”, diz Janot.

Baseada em experiências de outros países com mais tradição no ambiente polar, a coordenadora para Mar e Antártica do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Janice Trotte Duhá, acredita que o processo, na verdade, pode se estender até 2019. “O Canadá está construindo uma estação no Ártico, cujo cronograma aponta para sete anos de trabalho. Não conseguiria estimar um período inferior a esse para o caso brasileiro”, explica.

Até lá, as pesquisas científicas – principal razão da presença do Brasil na Antártida – se desenvolverão em paralelo às obras. A maioria das atividades ocorre durante as chamadas Operações Antárticas (Operantar) realizadas nos meses de verão, de outubro a março, quando a temperatura chega até 5ºC e os ventos são mais amenos. No inverno, de abril a setembro, as condições climáticas severas (até -25°C) inviabilizam as saídas de campo. Hoje, o País desenvolve 19 projetos na Antártida, além de manter dois Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia dedicados aos estudos no continente: o Antártico de Preservação Ambiental (INCT-APA) e o da Criosfera (INCT da Criosfera).

Cerca de 70% das investigações não sofreram interrupções e já retomaram suas atividades em navios da Marinha, nos dois refúgios (mini-estações) localizados nas Ilhas Elefante e Nelson, na Base Antártica Câmara, cedida pela Argentina na Ilha Livingston, e no Criosfera 1, ponto avançado próximo ao Polo Sul, dentro do continente antártico.

No fim de janeiro, a presidente Dilma Rousseff tomou outra medida para assegurar a continuidade das pesquisas. Assinou um tratado de cooperação bilateral com o presidente do Chile Sebastián Piñera que prevê, entre outras questões, o uso da estação antártica chilena por militares e pesquisadores brasileiros enquanto a EACF é reconstruída. O acordo estabelece, ainda, a realização de atividades em parceria entre os dois países e o intercâmbio de informações científicas, além da aquisição e o uso conjuntos de novas soluções de gestão ambiental.

“O percentual de prejuízo para as pesquisas decorrente do incêndio foi inferior a 10%, porque muitos dados já haviam sido enviados para computadores e laboratórios no País”, diz Janice Duhá. Segundo a coordenadora do INCT-APA, Yocie Yoneshigue, os projetos mais afetados foram os de biociências, que se utilizam de uma expressiva quantidade de coleta de materiais.

ESTAÇÃO PROVISÓRIA

Tanto esses quanto os demais estudos que dependem da base deverão ser tocados a partir da próxima temporada 2013-2014 na própria área da Estação Comandante Ferraz, localizada na baía do Almirantado, na Ilha Rei George. Lá, estão sendo montados 29 módulos emergenciais, pouco menos da metade dos 63 que a EACF possuía antes. Instalada pela empresa Weatherhaven Canada Resources na área onde ficava o heliponto, a estrutura provisória terá capacidade de acomodar cerca de 60 pessoas, contando com dormitórios, banheiros, refeitórios, cozinha, laboratórios, enfermaria e geradores, além de estações de tratamento de esgoto e área de armazenamento de resíduos. “Serão empregadas as mais novas tecnologias resistentes ao fogo e dentro dos padrões de segurança para a operação na Antártida”, destaca o contra-almirante José Roberto Bueno Junior, diretor do Centro de Comunicação Social da Marinha.

Também estarão disponíveis as estruturas isoladas do prédio principal da EACF que permaneceram intactas após o incêndio. Caso dos refúgios de emergência, dos laboratórios de meteorologia, química e estudo da alta atmosfera e da Estação Rádio de Emergência. Escaparam ainda do fogo tanques de combustíveis e dois módulos de captação de água doce. Durante o inverno, 15 militares do Grupo Base da Marinha, responsáveis pela manutenção da estação e apoio às pesquisas, já permanecerão na Antártida ocupando os módulos, à espera dos cientistas no próximo verão.

A preparação do terreno da nova base envolve 76 pessoas, entre civis e militares, que trabalham no desmonte da EACF. Iniciada em novembro, a remoção da parte incendiada foi concluída no último dia 12 de janeiro, informa Bueno Junior, com a retirada de 800 toneladas de destroços, que voltarão ao País no mês de abril. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), todo o trabalho segue as normas estabelecidas em tratados internacionais. “As diretrizes para a elaboração do plano de desmonte pautaram-se no princípio da precaução, considerando que todos os materiais removidos podem estar contaminados, o que sugere tratá-los como perigosos”, afirma a analista Jaqueline Madruga.

Enquanto as obras avançam, pelo menos um serviço já foi restabelecido. No último dia 20 de fevereiro, a Oi retomou a estrutura de telecomunicações, que permite o uso de celular e internet, além de acesso a canais de TV por assinatura. Desde o incidente no ano passado, militares e alguns pesquisadores só conseguiam contato com o Brasil através de uma antena via satélite, desmontada todos os dias para não sofrer danos com as intempéries do clima. Responsável pelo sistema desde 2006, a Oi assumiu o ônus dos novos equipamentos, sem revelar quanto foi investido. “O custo foi menor do que a gratidão por trabalhar nesse projeto”, limitou-se a dizer o diretor de Inovação e Novos Negócios da empresa, Pedro Ripper, durante a videoconferência entre o Rio de Janeiro e a Antártida, que marcou a retomada do serviço.

Para erguer por completo uma estação no “estado da arte”, a verba prevista é de R$ 100 milhões. Na avaliação da comunidade científica, se for acompanhada de um aumento dos recursos para pesquisa, a nova base elevará a um patamar de vanguarda o Programa Antártico Brasileiro, que completou 31 anos em janeiro.

Matéria publicada originalmente no Jornal do Commercio em 23/01/2013 e atualizada para este especial em 07/03/2013