MEIO AMBIENTE DITA AS REGRAS DO TURISMO

Por Mona Lisa Dourado

ILHA REI GEORGE - O turismo na Antártida teve início no verão de 1958, quando o cargueiro argentino Les Eclaireurs transportou pela primeira vez visitantes ao continente branco. Desbravada a rota, vieram veleiros, iates, barcos de expedições e navios de grande porte, além de aviões. Dos 500 turistas iniciais, no início da década de 90 o número já havia ultrapassado os cinco mil. Para esta temporada, a previsão é que chegue a quase 50 mil, somados 34.950 passageiros, mais staff e tripulação. Um crescimento que desperta sérias preocupações ambientais. Tanto que em 1991, o Sistema do Tratado da Antártica decidiu agregar a seus acordos o Protocolo de Madri. Entre outras determinações, o documento regula a atividade turística na região, definindo uma série de normas voltadas à avaliação de impacto, conservação da fauna e da flora, coleta e tratamento de lixo e prevenção de poluição marinha. Tudo para proteger o frágil ecossistema polar.

“Em termos gerais, cada nação é responsável pela orientação e atitudes dos seus cidadãos no território austral. Os governos também devem assegurar que tudo o que entre na Antártida sob a sua bandeira saia de lá sem causar danos”, explica Jefferson Simões, pesquisador brasileiro com larga experiência nos polos e defensor do turismo ecologicamente correto. “Não sendo de massa e predatório, ele ajuda a disseminar a importância da região para o equilíbrio do planeta”, argumenta. No País, cabe ao Programa Antártico Brasileiro (Proantar) divulgar os procedimentos a serem observados por todos os viajantes e embarcações com destino ao continente gelado

É preciso obedecer, ainda, às normas impostas pela Organização Marítima Internacional (OMI). Recentemente, por exemplo, a entidade proibiu o uso e transporte de óleo combustível pesado (HFO) em águas antárticas. A medida afetou navios maiores, que costumavam usar o HFO por razões econômicas. Barcos menores não foram impactados, por já adotar regularmente o MGO, gás combustível destilado leve semelhante ao diesel.

Dentro do espírito de colaboração que caracteriza a Antártida, o setor privado também desempenha um papel essencial para promover de modo seguro a presença dos turistas no território austral. A maioria das empresas que atua na região é ligada à Associação Internacional de Operadores de Turismo da Antártida (IAATO, na sigla em inglês). Criada por sete companhias pioneiras, a ONG tem como meta garantir a operação segura e ambientalmente responsável de seus atuais 107 membros, associados e afiliados. “Nosso foco está na educação e boas práticas no campo”, explica o diretor administrativo da IAATO, Steve Wellmeier.

A conscientização começa antes da viagem, com informações específicas de como fazer as malas e limpar roupas e calçados. “Os passageiros são aconselhados a tomar cuidado para não levar inadvertidamente espécies não nativas para a Antártida. Em terra, são orientados a manter distância dos animais, não sair das trilhas e não deixar resíduos”, diz Wellmeier.

Segundo ele, 95% do turismo na região está baseado em navios, com ou sem desembarques. As visitas se concentram na Península Antártica, nos meses de verão, de outubro a março, quando o sol brilha por cerca de 20 horas, as temperaturas são mais amenas e os ventos, mais brandos. Em geral, os turistas fazem curtas incursões nas áreas costeiras, visitam estações científicas, monumentos históricos e colônias de animais. Programas mais radicais incluem atividades como alpinismo, acampamento e mergulho.

Com uma ou outra adaptação, o roteiro autorizado pela IAATO abrange as ilhas Rei George e Melchior, as baías Pleneau, Dalmann, Paradise e Neko, as ilhas Cuverville, Petermann, Deception e Half Moon, além de várias bases científicas como a polonesa Henryk Arctowski, a russa Bellingshausen e a chilena Presidente Eduardo Frei Montalva, além de sítios históricos como Port Lockroy, antigo posto militar britânico que hoje funciona como museu. Antes do incêndio, em fevereiro de 2012, a base brasileira Comandante Ferraz também podia ser visitada com agendamento prévio. Agora, deve demorar para retomar a rotina normal.

ENTRE CÉU E MAR

Quem opta por ir à Antártida de navio geralmente sai do porto de Ushuaia, na Argentina, e precisa enfrentar pelo menos dois dias de navegação turbulenta para cruzar quase mil quilômetros da Passagem de Drake, ponto de encontro entre os oceanos Pacífico e Atlântico. Um roteiro completo pode durar a partir de 10 dias e custa desde US$ 6.500, de acordo com Rodrigo Ruas, diretor da Oyster Tour Operator, operadora com sede em São Paulo, que oferece pacotes para o continente branco. Rodrigo conta que é cada vez mais comum a bordo a presença de cientistas e navegadores experientes, como Amyr Klink, que conferem às viagens um caráter maior de expedição, com palestras e guias especializados.

Para os que preferem ganhar tempo e evitar sacolejos, é possível partir de Punta Arenas, no Chile, e aterrissar em terras geladas, na Ilha Rei George, em pouco mais de duas horas de voo. A principal companhia que opera o trajeto há mais de 20 anos é a Aerovias DAP, responsável por 70% de todas as viagens aéreas para o território austral no verão, incluindo turismo, logística e apoio a missões científicas. “Para essa rota, dispomos de dois aviões BAe 146, com capacidade para 70 passageiros, e dois King Air (100 e 300), para sete pessoas”, detalha o subgerente comercial do Grupo DAP, Nicolás Paulsen. O executivo revela que somente nesta temporada, cerca de mil turistas voaram com a companhia para a Antártida. Os programas saem a partir de US$ 3.960, um dia, a US$ 4.960, dois dias com pernoite em acampamento no glaciar Collins.

Casais acima dos 50 anos com vários carimbos no passaporte são os passageiros mais comuns tanto nos aviões quanto nos navios, mas é crescente o número de pessoas jovens e de famílias que buscam o programa. A maioria são norte-americanos e australianos, seguidos pelos alemães, ingleses, canadenses, chineses, franceses, holandeses e russos. “Em geral, é um cliente já viajado, que busca algo diferente, um destino único e exótico, para sair do lugar comum e conseguir uma nova experiência”, explica Bruno da Cruz, gerente de Marketing da Qualitours, outra companhia paulista que opera para o destino. A quantidade de brasileiros ainda é modesta – foram 246 na temporada 2011-2012, com a melhor marca registrada no verão 2009-2010 (387), segundo números da IAATO.

Independente da origem do visitante, a regra para o turismo na Antártida é clara: “não deixe nada, exceto pegadas; não leve nada, a não ser fotografias”.