Uma luta atrás da outra

“Eu estava só. Eu acho que eu estive sempre só, entendesse? Só com a força espiritual, mas eu sempre estive só. Acho que para toda mulher é meio doloroso, porque quando você pensa em ter um filho, pensa em logo ter um pai, porque ninguém faz um filho sem pai...”

A publicitária Sandra Maria do Nascimento, 41 anos, carregou sozinha a maternidade de Tainá, 13, desde o primeiro momento da gravidez. O pai da filha a abandonou assim que soube. Desempregada e sem suporte da família, ela conseguiu abrigo e apoio de amigas durante a gestação. Mas a publicitária enfrentaria outras barreiras enquanto mãe sozinha. Tainá nasceu cardíaca e necessitava de atenção especial. Sem moradia, Sandra se dividia entre a aplicação de seis doses diárias de três remédios e as idas ao hospital.

Conseguiu um auxílio-doença e alugou uma casa para ficarem juntas. “Antes, a gente morava de favor na casa das pessoas. Eu me preocupava muito com isso, porque eu não ia poder ficar a vida toda na casa dos outros.”

Não bastassem as lutas por moradia e saúde de Tainá, Sandra passou cinco anos tentando o reconhecimento paterno da filha. “Lutei anos por um direito que é dela, complicadíssimo. Acho até que muitas mulheres não procuram esse direito por ser tudo muito demorado, a lei não vinga. Depois que a gente descobriu a paternidade, veio o processo da pensão alimentícia. Ele ficou de dar 20% do salário… Deu durante uns cinco meses, saiu do trabalho e depois sumiu. Ninguém sabia onde morava, onde trabalhava. Hoje o dinheiro que ele dá a ela é 150 reais”, diz, explicando que o pai chegou a colocá-la na Justiça para ver a filha. “Eu a levei e ela conversou com o pai diante de todo aquele processo. Mas não deu em nada até agora.”

O alívio financeiro chegou depois da conquista do emprego, quando a filha completou 3 anos de idade. A partir daí, nada mais parou Sandra: estudou, concluiu uma graduação e incorporou sua luta em organizações em prol à caridade. “Morei 12 anos na mesma casa. Nesse tempo, nunca deixei faltar nada para ela: estudo, reforço, natação, brinquedos e passeios. Também nunca procurei pai para ela, tinha muito receio que algo lhe acontecesse. Hoje moramos em um lugar mais espaçoso e continuo na minha caminhada. Não é fácil, é preciso ter coragem e responsabilidade.”

O difícil caminho de fazer tudo só

De idades e classes sociais distintas, histórias de mulheres como Sandra percorrem caminhos diferentes, mas têm a mesma luta: a reafirmação. E esbarram no mesmo destino: as ausências. Ausências presentes na vida de 11,6 milhões de brasileiras, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – com base em dados de 2015, divulgados em 2017. Elas formam o segundo maior arranjo familiar do país, representando 26,8% dos núcleos familiares compostos por filhos. Apesar deste número ter caído 1,8% na representatividade nos últimos 10 anos, houve um acréscimo de 1 milhão de mães solo neste período.

Essas maternidades demandam causas e soluções bem diferentes. Porém, o peso sempre vai recair sobre as mais pobres, como explica Ana Paula Portella, doutora em sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco. “A realidade dessas mães é bem diversificada, tanto quanto são a das próprias mulheres. Uma coisa é você ser mãe pobre ou miserável, outra coisa é ser mãe de classe média ou rica com alta escolaridade. As mulheres que ocupam posição de privilégio – alta escolaridade, bom emprego e alta renda – vão viver uma maternidade solo de modo mais tranquilo que uma mulher pobre. A mais pobre, muitas vezes, não têm acesso a redes sociais, não tem acesso a direitos e vive numa comunidade que não é segura.”



Ana Paula Portella pontua ainda a sobrecarga. Sem ter com quem dividir responsabilidades, as mães solo têm menos recursos emocionais e menos tempo. “Se a mulher tem filhos e é a única responsável pela casa, tem acúmulo de atividades e o risco de uma sobrecarga aumenta, isso também aumenta a chance de enfrentar situação de vulnerabilidade social.”

As estatísticas são frias diante da realidade. Além de desproteção estatal, a mãe negra, periférica e sozinha carrega o peso dos estigmas e preconceitos diários. A militante do Coletivo de Mães Feministas-Ranúsia Alves (ComFRA), Isis Carina Braz, 30, sintetiza esses percalços. “Criar um filho numa sociedade machista, principalmente na periferia, é mais difícil. Muitos homens não respeitam, acham que as mães não têm capacidade de criar os filhos. Mas o que dificulta muito nossas vidas é a questão econômica. Eu morei num barraco pequenininho dentro do mangue com seis irmãos. Às vezes, minha mãe não tinha nem o que dar de comer a gente. Hoje, tento dar o melhor para os meus filhos”, relata, Isis, que também é educadora e estudante de serviço social.

Isis incorporou a vida de filha e mãe sozinha na militância social. E aponta o quanto a ausência de um olhar governamental interfere na vivência materna periférica. “Emprego não está fácil, mas quando a gente vive numa sociedade machista e preconceituosa, a gente precisa resistir. Você sair manhã para trabalhar ou em busca de um trabalho e não sabe se volta com o alimento para seus filhos. Olhar para panela vazia é muito difícil. Mas nos motivamos olhando o sorriso deles, jogando bola ou brincando com pião. É simples, mas é o que deixa eles felizes.”

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Expediente

Publicado em 10 de março de 2019

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