Exemplo de resistência

“Eu sei que ele ia me matar, mas não sei o que ele faria com a minha filha.” A estudante de turismo Brenda Guedes, 23 anos, ainda possui uma lembrança muito viva da tentativa de homicídio do seu ex-companheiro e, pai da sua filha Lara, hoje com 4 anos. O choro da criança, a falta de ar provocada pelo estrangulamento, os respingos de sangue no chão. Brenda esteve muito perto de ser mais uma das mulheres assassinadas em Pernambuco em 2016, quando houve 260 vítimas femininas, segundo a Secretaria de Defesa Social (SDS). Sobrevivente, hoje sua história é contada junto àquelas que resistiram. Uma experiência traumática e que a levou a assumir a maternidade sola aos 20 anos de idade.

A revelação da gravidez de Brenda foi um divisor na relação dela e do seu agressor. Desde a notícia, o relacionamento passou a ser marcado pela violência psicológica e até por cárcere privado. O medo e a solidão acompanharam a gestação da estudante, que quando tentava romper a relação, ouvia chantagens e ameaças. “Ele sempre falava que ia mudar e se tornar um pai de verdade. Dizia que eu não podia deixá-lo, pois não queria a filha dele cresceria longe do pai.”

O nascimento de Lara fortaleceu a decisão de Brenda de terminar o relacionamento. A coragem de colocar um ponto final veio enquanto ambas ainda estavam na maternidade. A partir daí, o pai, que já se negava a muitas responsabilidades, ficou mais ausente. “Ele aparecia uma vez ou outra, não contribuía financeiramente e não mantinha nenhuma afetividade. Quando resolvia ver a filha, postava uma foto nas redes sociais e se divulgava como pai participativo.”

O estopim veio depois de seis meses, quando o agressor invadiu a casa de Brenda portando uma faca, ao saber que ela estaria em um novo relacionamento. A estudante foi salva pelo irmão, que voltou para casa por ter esquecido um documento. “Ele veio direto no meu pescoço. Depois agrediu meu irmão e, em seguida, minha mãe. Eu não sabia o que fazer. Minha filha estava lá e acompanhou tudo”. De lá até agora, Brenda e Lara estão sob medidas protetivas. O agressor responde em liberdade pelos crimes de invasão em domicílio, agressão corporal e Lei Maria da Penha.

Com a responsabilidade de criar a filha sozinha, os sonhos de Brenda de fazer um intercâmbio e terminar a graduação precisaram ser adiados. Segundo estudo divulgado pelo IBGE em 2017, a falta de escolha é comum nessa idade, pois quanto mais jovens essas mães solas, menor é a elevação do nível de escolaridade.

Enquanto algumas lutam pelo reconhecimento paterno, Brenda busca o direito de retirar o nome do pai da certidão de nascimento da filha. Não há uma lei que defina o caso e a decisão varia de acordo com o juiz. “Para mim, seria um alívio. Vou continuar tentando, na esperança de conseguir. Até lá, vou trabalhar todos os dias para ensinar a Lara que sangue não é nada. Família é aquela com a qual você se sente bem.”

A evolução das agressões vividas por Brenda é um roteiro conhecido por milhares de mulheres brasileiras. Segundo balanço divulgado em agosto de 2018 pelo extinto Ministério de Direitos Humanos (MDH), de janeiro a julho do mesmo ano, foram registrados 79.661 casos de violência contra a mulher no País. Desse total, 26.527 classificados como violência psicológica, e 37.396, violência física.

Quando a maternidade salva vidas

Ser mãe também ajudou a salvar a vida de Mariana Castro, 33 anos. Quando a radialista rompeu o relacionamento com seu agressor, o filho Guilherme, fruto daquela união, tinha apenas dois meses de nascido. Para ela, ser mãe nunca foi um sonho, mas a maternidade ressignificou a resistência e a vontade de viver. “Durante a gravidez passei por muitas situações de agressão. Quando Guilherme nasceu, me dei conta de que não dava mais pra continuar com aquilo. Por ele e por mim.”

A decisão da mãe ganhou força em meio à rejeição da paternidade, que não demorou a acontecer. Com o abandono paterno cada vez mais evidente, Mariana viu a oportunidade de criar seu filho longe do ambiente violento em que vivia. Diferentemente da maioria das mulheres, foi acolhida de volta pelos pais e desde então divide com eles o desafio de educar Guilherme, hoje com 3 anos de idade. “A última vez em que ele apareceu, Guilherme tinha um ano. Ele nunca ligou nem pra saber se o garoto está vivo.”

Até conseguir mudar de vida, Mariana enfrentou dois anos intensos de violência. Inicialmente, o convívio era harmonioso, mas logo passou a ser vítima de agressões psicológicas e, posteriormente, físicas. Cometidas longe dos olhos dos amigos e da família, normalmente, nos fundos de um bar do qual o agressor era proprietário, em Olinda, na Região Metropolitana do Recife



A radialista começou a sentir as consequências no corpo e na mente. Desenvolveu um quadro de depressão profunda e chegou a pesar 42 quilos, peso que manteve até o sexto mês de gestação. “Eu tive vários traumas, um deles foi a minha dicção. Ele sempre me silenciava. Eu comecei a me acostumar a ficar calada em qualquer lugar. Depois de meses me dei conta desse comportamento.”

Para a psicóloga Izabel Santos, terapeuta e coordenadora de terapias comunitárias do Centro de Mulheres do Cabo, na Região Metropolitana, os impactos dessa violência se refletem de muitas formas. “É comum recebermos muitas mulheres com autoestima baixa e sentimento de culpa. A maioria continua vivendo no ambiente doméstico para preservar os filhos. Dizem para ela ficar porque é mais fácil.”

A terapeuta observa que tão importante quanto o apoio moral, essas mulheres precisam de políticas públicas. “Nós temos o Centro das Mulheres do Cabo e encaminhamos essas vítimas a lugares que possam ajudá-las. Fazemos rodas de terapias comunitárias para entender cada caso e ajudar as vítimas a encontrarem uma saída. Então, é necessário que as políticas públicas funcionem, com aparato das delegacias da mulher, os centros de referência em apoio a mulher, que contam com psicólogos.”

Assim como a maioria das mães solo, Mariana sente o peso do acúmulo de funções, da falta de tempo e de ajuda financeira. Apesar disso, tomou a decisão de não buscar os direitos negados com o abandono paterno. “Prefiro enfrentar essas dificuldades a colocar a educação do meu filho em risco. Não vou confiar em um cara que me agrediu.”

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Expediente

Publicado em 10 de março de 2019

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