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Busca por dignidade

Marli Márcia da Silva, mais conhecida como Marli Maravilha, 57 anos, é uma das responsáveis pelas conquistas em relação ao reconhecimento da paternidade no Estado. Em 1991, ela decidiu transformar sua vivência de mãe solteira – assim ela define – em militância social. “O retrato da mãe solteira é negra, pobre e de periferia. Ela não tem apoio, basicamente, de ninguém. Eu sou um exemplo. Após o abandono do pai do meu filho, nem meus amigos me ajudaram. Nem casa eu tinha para me abrigar. Depois que passou a turbulência, eu decidi criar a Associação Pernambucana de Mães Solteiras (Apemas) e ajudar outras mulheres. Ninguém lutava pela gente. Nem mesmo as nossas famílias.”

A instituição é uma das pioneiras na abordagem desse tema no País. Sem sede oficial, a Apemas funciona na residência de Marli, no Vasco da Gama, bairro da Zona Norte do Recife, em um trabalho conjunto com 12 mulheres. O intuito é oferecer aparato jurídico e social para mães de periferia. “Essas mães, muitas vezes, não têm o reconhecimento paterno e não têm com quem deixar seus filhos. E sem ter com quem deixá-los, só sobra trabalhos de venda na porta de casa, que é abrir um fiteiro, vender galeto na rua. É a realidade delas. Na maioria das vezes, ajudamos com a entrada no processo de reconhecimento paterno para o pagamento da pensão alimentícia. Mas entendemos, também, que é um direito do filho ter o nome do pai no registro civil”, afirma Marli, que já ajudou a realizar mais de 50 mil reconhecimentos paternos em Pernambuco.

De acordo com a ativista, o direito dá acesso a causas essenciais na vida das crianças. “Com o reconhecimento paterno, a criança tem acesso a pensão de alimentos, tem o direito a herança da família. É uma ação que dá dignidade à criança. A partir dele, há o contato com a família, porque muitas vezes não existe nenhum laço até a mãe provar que o pai da criança é o responsável. É de fundamental importância esse aparato social e psicológico na vida da criança, já que a família é a base do nosso desenvolvimento”, diz Marli Maravilha.

VAZIO

Ele sentia a falta do pai. Constrangimento, amor e admiração ocupavam o vazio deixado pelo genitor na vida do lutador e educador físico Ulisses da Silva, 27, durante a infância. “Quando fazia uma atividade na escola, sempre pensava nele. Eu tirava notas boas para mostrar a ele. Eu sabia que ele era advogado e um cara inteligente. Então, sabia que teria orgulho de mim. Essa ausência me incomodava”, conta. Filho de Marli Maravilha, o jovem nasceu de um relacionamento extraconjugal. Foi abandonado recém-nascido, ainda sem registro civil. O nome do pai acabou sendo uma conquista da luta da mãe, quando ele tinha 4 anos de idade. Porém, o contato com a pai só aconteceu seis anos depois. Ulisses não lembra o motivo, mas as pequenas lembranças do momento ainda estão guardadas na memória. “Depois desse primeiro contato, passei a frequentar a casa dele. Eu dormia lá e era bem recebido pelos meus irmãos.”

Contudo, a aproximação não foi do jeito que Ulisses esperava. Seu pai trabalhava muito, dedicava-se a ajudar outras pessoas. Consequentemente, não estava tão presente. “Acho que ele é muito ausente na vida dos meus irmãos também. Essa questão da ausência me une muito aos meus irmãos. Chegava o dia dos pais e, quando íamos fazer o almoço, estavam todos os filhos, mas meu pai não estava. Ele era um pai relapso. Já tive muita mágoa. Mas hoje a gente se dá bem, a gente conversa. Acredito que, como estou mais velho, é mais fácil perdoar”, explica o lutador, que ressalta a importância de não ter presenciado conflitos dentro de casa. “Uma coisa que hoje vejo positivamente foi a falta de brigas de casal em casa. A vantagem de ser criado por uma pessoa sozinha é essa. E, dentro do que minha mãe podia fazer, ela era muito presente na minha vida.”

Toda a conjuntura serviu de reflexão para Ulisses. Ele não quer repetir os mesmos passos e promete ser um bom pai. Quer representar além de uma figura de pouco contato com o filho. “Se um dia eu for pai, pretendo ser diferente de como foi o meu. Ele não foi um mau pai. Ele me aconselhava, mas tenho mais exemplos de como não ser um pai. Pelo fato de ser criado por uma mulher e pela história dele, desenvolvi uma alma muito paternal. Ela é meu maior exemplo”, conta Ulisses, que leva o acolhimento paterno aos seus alunos.

“Hoje eu dou aula para quem está em situação de vulnerabilidade. Muitos me chamam de pai, por termos uma relação próxima. Alguns deles têm idade até parecida com a minha. Mas me consideram como pai”, relata Ulisses, justificando a postura dos estudantes. “Sempre levo essa alma paternal para eles, não só na luta, como também na vida pessoal. Acho que isso acontece pelo fato de eu não ter tido um pai. Então, sempre repasso isso para eles”, completa.

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Expediente

Publicado em 10 de março de 2019

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