Alicerce da família

Ele era um bom pai, estava presente no cotidiano das crianças. Ajudava no banho, vestia a roupa e dava a comida. Levava e buscava na escola. Cuidava dos filhos até a mãe chegar do trabalho. Exercia a paternidade. Todos em sua volta o elogiavam. Era um bom pai. Na vida da cirurgiã-dentista Paty Sampaio, 44 anos, as palavras homem e paternidade deixaram de rimar após a separação. O casamento dos dois estava difícil e decidiram se divorciar. Ele sumiu da vida dela e dos dois filhos. Yago e Nina, na época com 7 e 2 anos, ficaram sem resposta. Sentiram. A partir dali seria só Paty e eles.

O desaparecimento foi acontecendo aos poucos. Morando a 10 minutos da casa das crianças, o pai só aparecia a cada duas semanas. Chegou a dizer a Patrícia que não se sentia feliz quando estava com os filhos. “Tinha dia em que os meninos ficavam com a bolsa nas costas esperando, mas ele não aparecia. Eles ficavam frustrados. Depois, ele sumiu de vez. Coincidiu com o momento em que me casei novamente. Ele disse que ia trabalhar em Garanhuns (Agreste pernambucano), para pagar a pensão. Mas ele simplesmente sumiu e até hoje não vi essa pensão. Ele nunca pagou. Dava um dinheirinho aqui e outro ali, mas nunca o que havia sido acordado na Justiça. Depois nunca conseguimos achá-lo. A Justiça nunca o encontrava.”

A ausência do pai foi uma rasteira na família de Paty. Yago, aos 8 anos, sofreu as primeiras consequências. Pelo abandono paterno, começou a desenvolver complexo de inferioridade. Sentia falta do pai, que não lembrou sequer do seu aniversário. Começou a tirar notas baixas na escola. Foi diagnosticado com depressão infantil. A doença do filho e problemas financeiros e a sobrecarga emocional abalaram a cirurgiã-dentista, que desenvolveu depressão profunda. “O pior momento da minha vida foi durante a depressão. Não tinha motivo para sair daquela situação.”

Nina, a filha mais nova, absorveu a instabilidade e tomou os antidepressivos do irmão. A mãe conseguiu salvar a vida da criança, levando-a para o hospital mais próximo, mas enfrentaria um novo desafio. Foi denunciada por envenenar os filhos por causa do episódio com a caçula. Sem saber de quem tinha sido a queixa, ela provou sua inocência através de testemunhas e da comprovação de medicação do filho.

Eu tenho a sensação de que ele é um criminoso e as pessoas passam a mão na cabeça.

Paty Sampaio, cirurgiã-dentista.

Para Paty, o abandono é inerente ao homem. Ela sentiu na pele duas vezes. No segundo casamento, o marido também sumiu da vida da filha mais nova, da qual cuidava como se fosse pai. O pai natural das crianças reapareceu em 2016. Estava em Salvador, na Bahia, manteve contato com os filhos por seis meses, contribuiu com uma pensão baixa, e sumiu novamente, como na primeira vez. “Eu tenho a sensação de que ele é um criminoso e as pessoas passam a mão na cabeça.”

Depois de tudo, Paty e os filhos superaram as ausências. Ela virou o alicerce da família, construindo uma nova maternidade. Transformou abandonos em combustão: especializou-se em políticas de gênero. Tornou-se doula e cuida de gestações de outras mulheres como se fossem suas. Paty Sampaio é múltipla. Mulher, mãe, feminista, dentista, especialista em gênero e doula, ainda encontrou espaço no cicloativismo. Diariamente, carrega histórias e lutas sobre as duas rodas. A rotina dela parece não caber nos ponteiros, mas há espaço para ser mãe. “Eu me acho uma grande mãe. Com todas as falhas possíveis que eu tenho, sabe?”

Pobreza é uma realidade para a maioria das mães

O cenário de pobreza atinge a maior parte das mães sozinhas. Indicadores sociais apontam que o Estado também é ausente nessas vidas. De acordo com a Síntese de Indicadores Sociais 2017 (SIS 2017), do IBGE, a taxa de pobreza por família é a maior entre as mães sozinhas (57%). Quando a mãe solo ainda é negra, o índice sobe para 64%. Nos casais com filhos, o percentual cai para 30%, enquanto em núcleos sem filhos a pobreza atinge 12%.

A vulnerabilidade tem explicação. Essas mulheres têm menos acesso a direitos universais. A SIS 2017 aponta que 39,7% das mães sozinhas possuem restrição à proteção social. O percentual também aumenta quando elas são negras: 46,5 %. Isso significa que, apesar de toda a insegurança social, essas mulheres não têm as condições necessárias para sair da pobreza. Para se ter uma ideia de comparação, o índice atinge apenas 8,2% dos casais sem filhos. Fatores como desemprego, falta de moradia e creches contribuem para estatísticas tão expressivas.

xxxxxxxxxxxx
Secretária Sílvia Cordeiro reconhece ser dever do Estado garantir as políticas sociais


As mães que enfrentam situações vulneráveis em todos os campos necessitam ainda mais de políticas públicas eficientes. Essas ações ajudariam a direcionar planos de soluções para as demandas. A falta de creches, por exemplo, é uma das maiores barreiras para a saída dessas mulheres da pobreza. A pesquisa Primeiríssima infância: creche 2017, do IBGE, mostra que um terço das crianças de 0 a 3 anos, de baixa renda, não possui acesso à educação infantil por falta de vagas na rede de ensino. O problema funciona em efeito cascata. Sem lugar para deixar seus filhos, a mãe fica impossibilitade de acesso ao emprego formal.

Programas sociais e de assistência dos governos federais nas últimas duas décadas – como o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida – acabaram contemplando essas mulheres. “No Brasil ainda há um olhar de classe bastante presente quando se pensa nestes programas. O ideal seria que se pensasse para cada classe oprimida”, lembra Alyne Nunes, historiadora e doutora em sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco.

A secretária da mulher de Pernambuco, Silvia Cordeiro, concorda com Alyne Nunes e considera fundamental a importância de um núcleo governamental direcionado às políticas de gênero. “É dever do Estado garantir políticas universais, como saúde e educação, e políticas específicas para essas mulheres. A secretaria da mulher serve para atender essas demandas, principalmente para apoiar essas mães”, enfatiza.

Comentários:

Expediente

Publicado em 10 de março de 2019

Diretoria

Laurindo Ferreira
Diretor de Redação do Jornal do Commercio

Maria Luiza Borges
Diretora de Conteúdos Digitais do SJCC

Beatriz Ivo
Diretora de Jornalismo da Rádio e TV Jornal

Edição

Betânia Santana

Ciara Carvalho

Reportagem

Bruno Vinícius

Luane Ferraz

JC Imagem

Arnaldo Carvalho
Editor Executivo

Leo Motta
Fotógrafo

Alexandre Lopes
Edição de imagem

Danilo Souto Maior
Editor de vídeo

Design

Karla Tenório
Editor Assistente de Artes

Moisés Falcão
Coordenador de Design Digital

George Oliveira
Design

Bruno de Carvalho
Front-End