A força do trabalho

A arte é intrínseca a Virginia Brasil, 40 anos. Ela é artista visual, arte-educadora, escritora, locutora, dubladora e preparadora de elenco. Além disso, trabalha com serigrafia e encadernação artesanal. No meio de todas estas atividades, Virginia encontrou espaço para a maternidade três vezes. Em duas, sozinha. Mas o mercado não enxergava esse espaço na vida dela: “Às vezes eu comentava sobre determinada exposição ou projeto e as pessoas me falavam que até pensavam em mim, mas que eu não conseguiria dar conta por ser mãe”.

Com a ausência dos pais e de políticas acolhedoras nas duas primeiras maternidades – sem creches e espaços adequados às crianças – a artista teve que driblar as dificuldades que impediam seu progresso profissional. “O impacto financeiro na vida da mãe solo é como um todo, não é só o mercado. Tem a sobrecarga financeira, principalmente, quando o pai não está junto nas despesas e não entende a responsabilidade que tem. A lei colabora com isso: o pai do meu filho do meio, por exemplo, é autônomo e só dá 20% do salário mínimo como pensão. Então, tenho que cobrir todo o resto, e não retiro só esse percentual do meu salário.”

A realidade de Virginia sintetiza a vida de milhões de mães brasileiras. De acordo com a pesquisa “Licença-maternidade e suas consequências no mercado de trabalho do Brasil”, da Escola de Economia e Finanças da Fundação Getúlio Vargas, metade das mulheres analisadas no estudo estava fora do mercado de trabalho após completar um ano de início da licença-maternidade. Com base nos dados do extinto Ministério do Trabalho, pesquisadores analisaram 247.455 mulheres, de 25 a 35 anos, que tiraram o benefício entre os anos de 2009 e 2012. O estudo fez o acompanhamento delas na empregabilidade formal até 2016.

As análises apontam que os desligamentos das empresas variam de acordo com a escolaridade. As mais prejudicadas são as que possuem apenas o ensino fundamental completo: 53% deixaram suas funções após a maternidade. Contudo, a qualificação não garante o trabalho, já que as mães com ensino médio e com ensino superior também deixaram as atividades após a licença. Segundo a pesquisa, 49% do primeiro grupo estavam desempregadas, enquanto 35% do segundo grupo foram atingidas.

Mercado de trabalho de portas quase fechadas

As motivações são múltiplas, mas o estudo mapeou que maior parte delas vem através de rescisões contratuais – com e sem justa causa. Melícia de Carvalho, procuradora do Ministério Público do Trabalho (MPT) em Pernambuco, pontua que a maternidade ainda é vista como barreira profissional pelas empresas. “As empresas dispensam trabalhadoras que se tornam mães, alegando que elas não têm mais disponibilidade, que vão precisar se afastar muitas vezes para cuidar dos filhos, ou dizendo de forma expressa que elas não têm mais condições de exercer o trabalho. O que é um equívoco muito grande. Estudos apontam, inclusive, que as mulheres despertam outras habilidades no trabalho depois que se tornam mães.”

Os homens sofrem menos ou quase nenhum impacto quando se tornam pais. Analistas apontam que 92% deles permaneciam trabalhando após a paternidade. “A maternidade acaba sendo um entrave por causa de uma cultura machista e patriarcal de delegar à mulher apenas o cuidado com filho, família, casa. Quando uma mulher se torna mãe, um número significativo delas deixa o mercado de trabalho porque não tem opção. Não contam com apoio familiar, não dispõem de creches públicas e, consequentemente, não têm condições financeiras de pagar a uma babá para continuar trabalhando.”

A tendência é que a situação piore. Com a Lei 13.467, da Reforma Trabalhista, gestantes e lactantes podem exercer funções em locais de insalubridade baixa ou média. Uma medida provisória (MP), publicada em 14 de novembro de 2017, no Diário Oficial da União (DOU), ainda permite que, em caso de gravidez, a mulher apresente atestado médico e peça afastamento do trabalho. “A gente considera um retrocesso. A trabalhadora vai ficar com medo de perder o emprego se levar o atestado. Muitas não têm sequer acesso a médico para pedir esse documento.”

Em decorrência desse ambiente hostil, trabalhadoras estão desenvolvendo o espírito empreendedor. De acordo com pesquisa da Rede da Mulher Empreendedora (REM), em 2016, 75% das mulheres partiram para um negócio próprio após a maternidade. “Isso vem depois da experiência num ambiente inóspito à maternidade. Geralmente, não é um ambiente favorável a uma mãe, que precisa de horários flexíveis, e que terá, por exemplo, mais dificuldades para viajar”, reitera Marcela Matias, empreendedora do setor feminino e integrante da REM.

Empresa prova ser possível dar oportunidades


Helena Rocha, diretora de auditoria da sucursal
PwC do Recife

Tendo como meta a inclusão de gênero, o escritório da PwC Brasil, no Recife, possui um programa específico para acolher a maternidade das empregadas. A empresa, que faz prestação de serviços em auditoria e asseguração, criou, há seis anos, três planos de flexibilização de tempo e espaço para que as trabalhadoras tenham seguridade após o período da licença-maternidade.

Funciona da seguinte forma: a mãe tem a opção de fazer a redução da carga para seis ou quatro horas, pode optar pela flexibilidade de local de trabalho, na forma de home office, ou manter-se com as oito horas de jornadas. O acordo é feito mediante contrato, que reduz o salário correspondente à carga horária, e tem validade até o primeiro ano de vida da criança.

A diretora de auditoria da sucursal do Recife, Helena Rocha, afirma que o intuito da ação é manter essas mulheres nos cargos de liderança, já que parte delas acabava desistindo da carreira por não conseguir conciliar trabalho e cuidados com o filho. “O grande objetivo da empresa foi reter as mulheres na liderança, porque costumamos contratar mão de obra feminina para os cargos de trainee. O número delas é maior que o de homens. Mas quando vai evoluindo na carreira, você vê uma quantidade muito inferior delas. Muito menos gerentes, diretores e sócios mulheres que homens”, diz, enfatizando que elas ocupam, em média, 10% das gerências.

Daniela Queiroz, gerente sênior de auditoria da PwC.

Durante o programa, as seis mulheres que se tornaram mães depois de estarem na empresa aderiram a um dos planos. Uma delas foi a gerente sênior de auditoria da PwC, Daniela Queiroz, que reduziu a jornada de trabalho para quatro horas diárias. “Eu era gerente, e em julho fui promovida a gerente sênior. Isso coincidiu com a volta da maternidade. Eu tive a possibilidade de optar pela flexibilidade e fiz isso até meu filho completar um ano. Nesse tempo, só trabalho meio período e consigo conciliar tranquilamente trabalho e cuidados com ele.”

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Expediente

Publicado em 10 de março de 2019

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