A dor e a união

A vontade de ser mãe nasceu aos poucos, enquanto ela via a filha crescer em seu ventre. Um crescimento conjunto. Um abandono também compartilhado. Hay Anna Saldanha, professora, 30 anos, é sozinha, mas precisou aprender a ser muitas por sua filha, Iná, hoje com 15 meses de vida. O cordão umbilical que na gestação uniu mãe e filha, parece não ter sido desfeito, pois elas, ainda, somente têm uma a outra. Ainda na gestação, o pai de Iná as abandonou. Para ele, não ser pai era uma opção legítima. E, desde então, não deixou outra escolha para a filha, a não ser integrar o grupo de milhões de crianças sem reconhecimento no Brasil. Uma realidade que finca as raízes do abandono paterno como um ato naturalizado e protegido pela sociedade.

No mesmo ano em que a professora deu à luz a filha, diferentes mulheres carregaram em seus corpos outras criança desse mesmo homem. O histórico de sucessivos abandonos era longo, para surpresa de Hay Anna. Vítimas, todas essas mães e filhas compartilhavam da negligência e ausência de um único pai. “Eu não tenho ideia de quantos irmãos minha filha tem. Para mim, a partir do momento que você está gerando vida, sem tomar responsabilidade, isso é um crime”, desabafa a mãe de Iná.

A pouco mais de 280 quilômetros do Recife, em Natal, Rio Grande do Norte, Nimba Hadiya, empreendedora, 28, estava grávida de Nina, hoje com 3 anos. Outra mãe e filha sozinhas. Hay e Nimba se descobriram através de uma amiga em comum, que percebeu semelhanças nos relatos das duas. “As histórias eram tão próximas que ela disse ‘eu acho que conheço o pai de Nina’. Quando tive certeza de que minha filha tinha uma irmã no Recife, pensei logo na possibilidade de um contato”, revela Nimba.

O primeiro encontro das duas famílias aconteceu em fevereiro deste ano, no Parque da Jaqueira, Zona Norte do Recife. As mães, que nunca tinham se visto, se identificaram de longe. O Jornal do Commercio acompanhou. Cada uma carregava nos braços o motivo do encontro. Durante um longo abraço, encontraram um espaço de resistência em meio ao abandono que cruzou suas vidas.

Durante quase quatro horas, esqueceram um pouco de que eram sozinhas. Falaram sobre empoderamento, solidão da mulher negra, retribuíram conselhos pessoais e combinaram outros encontros, como grandes amigas. “Às vezes as ex-mulheres de um mesmo homem se veem como rivais, mas nós queremos nos amparar e unir nossas filhas. Foi um presente”, conta Hay. No parque, cruzaram com outras mães solas de diferentes idades e recortes sociais, que ao perceberem do que se tratava o encontro, se aproximaram para contar suas experiências e apresentar, em tom de orgulho, suas crianças. Todas sempre sozinhas.

Hay e Nimba presenciaram, emocionadas, as filhas compartilharem da irmandade que lhes haviam negado. As pequenas, sem entender a força desse novo laço, ainda não sabem que não têm um pai. Mas, a cada a abraço e brincadeira, alimentaram a esperança de que a união brotada das mães será a força para não caminharem sozinhas. “A paternidade é opcional, a maternidade, não. A mulher vai ser mãe e ainda carregar culpa que só depois entende não ser sua. Ela também foi vítima”, completa Nimba.

Mãe duas vezes

Para Patrícia Reynaldo, funcionária pública, 59 anos, a maternidade sola só foi possível devido ao apoio de outra mulher. O amparo veio de dentro de casa. Veio de Josefa Maria da Conceição dos Santos. carinhosamente chamada de Deda, uma senhora que trabalhava há anos para a família e era vista como segunda mãe. “Quando eu soube que seria sola, desabei no colo de Deda. Disse que queria aquela criança, mas só poderia se ela parisse comigo, pois não tinha ninguém. E ela foi firme: ‘Vamos ter juntas, nós seguramos essa barra’”.

Deda participou da maternidade como se também carregasse a criança. “Eu estava aprendendo a ser mãe, ela me ensinou muita coisa. Eu não queria abortar, mas só tive minha filha porque Deda me permitiu”. A criação de Rafaela, hoje com 30 anos, continuou sendo construída entre as duas. Um apoio fundamental para que Patrícia pudesse continuar a estudar e trabalhar. “Lembro que assim que Rafa nasceu, me demitiram. Precisei me dividir em muitas. Se eu não tivesse o apoio dela, eu teria sido uma outra mãe e Rafa, uma outra criança.”


Segundo a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (Pnad), das 10,3 milhões de crianças brasileiras com menos de 4 anos em 2015, 83,6% (8,6 milhões) tinham como primeira responsável uma mulher, seja mãe biológica, de criação ou madrasta. Deda, que muitas vezes foi uma segunda mãe, é na verdade, o retrato de muitas mulheres que durante a vida abraçaram outras maternidades além das suas. Uma rede feminina inteira praticando empatia e união frente ao abandono paterno

Rede de apoio

Quando se trata de abandono, elas não estão sozinhas. Por trás da maioria das mães solas no Brasil, há quase sempre o amparo de uma outra mãe, amiga, avó. São sempre mulheres se amparando em outras mulheres no desafio da maternidade. Elas se enxergam na sobrecarga das funções, no olhar social que aponta como “fracassada” a sua estrutura familiar, na descrença do mercado de trabalho quanto a sua capacidade, na procura para reencontrar a sua identidade de mulher e muitos outros obstáculos.

Em 2014 a ilustradora Thais Leão, resolveu compartilhar a sua experiência com a maternidade sola nas redes sociais, ao criar a Página Mãe Solo. O espaço chegou a ter mais de 80 mil curtidas. Passados quatro anos, o projeto cresceu e se fundiu à ONG Casa Mãe, um instituto de São Paulo, também criado por Thais, que funciona como espaço fora das redes sociais em apoio à causa. “Com o Mãe Solo foi possível perceber a alta demanda de acolhimento. Era preciso ser mais. Por isso, o propósito desse novo projeto é alterar a experiência das mulheres em relação à maternidade”, enfatiza, explicando a estrutura da instituição. “Aqui contamos com uma equipe de assistentes sociais, temos parceria com uma ONG de juristas e com a rede de enfrentamento a violência em São Paulo”, completa.

Em Pernambuco, o Coletivo de Mães Feministas - Ranúsia Alves (ComFRA) nasceu em 2016, com o intuito de aliar maternidade e feminismo, criando um diálogo entre as mães. “Eu entrei no Coletivo em 2017. A gente se reúne com mães de várias partes do Estado. Tem mulher da Região Metropolitana, do Recife, de Belo Jardim. Não temos sede fixa, mas sempre nos juntamos para debater o empoderamento dessas mães”, explica Isis Carina Braz, integrante da ComFra.

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Expediente

Publicado em 10 de março de 2019

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