Há 60 anos, o escritor Ariano Suassuna (1927-2014), um paraibano que viveu em Pernambuco, escreveu o Auto da Compadecida, obra que o consagrou como um dos mais importantes dramaturgos do Brasil. Neste 16 de junho de 2015 Ariano faria 88 anos. Através de memórias, depoimentos, curiosidades e imagens, o Jornal do Commercio relembra a trajetória da Compadecida – uma das peças mais encenadas do teatro brasileiro, com três versões para o cinema e uma para a televisão. É a nossa homenagem a Ariano, um grande brasileiro.

Editorial

Adriana Victor

Ariano, cuja criação é composta por romance, teatro, poesia e ensaio, sempre dizia que era muito difícil para ele escolher apenas um entre os seus livros. Mas, quem o conheceu, sabia bem: não era de deixar pergunta sem resposta e costumava ir além da reflexão provocada. Assim, avaliava que, caso precisasse salvar apenas uma de suas obras de um hipotético incêndio, levaria nas mãos o Romance d’A Pedra do Reino, “obra na qual me expressei de forma mais completa”.

Se A Pedra do Reino fez com que ele ascendesse ao panteão dos grandes escritores brasileiros – “não é qualquer vida que gera obra desse calibre”, afirmaria o poeta Drummond – o Auto da Compadecida, criação que chega aos 60 anos neste 2015, misturou Ariano ao povo do Brasil Real, à gente que ele amou com devoção, com apaixonado e sincero fervor.

“Quem um dia ler o Auto da Compadecida, vai saber que eu estou do lado de João Grilo e de Chicó, os dois personagens que representam o povo do Brasil Real”, asseverava. Referia-se àqueles que usam a perspicácia para a sobrevivência, a astúcia como necessidade. E, apesar de sua professada fé, valeu-se do livro para fazer críticas à Igreja que afasta de si os mais pobres e as lições do Cristo, que propaga a exclusão e o preconceito. Ariano era, sim, um defensor e um seguidor da Igreja de São Francisco de Assis, daquela que pratica como regra a partilha e o bem comum.

Era lindo de se ver: não foram poucas as cidades que, ao perguntar aos espectadores quem dali vira ou assistira ao Auto da Compadecida, o que se testemunhava era um balé harmônico de mãos e braços levantados. A dança dos braços se repetia em grandes teatros como o Municipal, no Rio de Janeiro, o Santa Isabel, no Recife, e em muitas outras salas nobres Brasil afora.

Mas ainda mais emocionante era confirmar de que a história tornara-se conhecida por aqueles que estavam longe dos grandes centros, por quem viva, em teoria, à margem. Gente de cidades sem foco no mapa, nos confins dos sertões, entre a palha da cana da Mata, nas favelas e nos presídios por onde Ariano passou com suas aulas-espetáculo – história que, por dádiva, acompanhei de muito perto.

Ariano era, tanto quanto um escritor célebre, um filósofo em essência: pensava sobre a vida e o homem, desgostos e sonhos, rumos e permanência. Entre tais reflexões, estava a sua diferenciação sobre ‘êxito’ e ‘sucesso’: afirmava que só o tempo era capaz de dimensionar e validar o êxito de uma obra de arte. Para exemplificar, dizia que Lady Gaga era sucesso; o Dom Quixote conquistara êxito. O Auto da Compadecida é êxito inconteste.

Certa vez, numa conversa sobre o tempo, indaguei-lhe se havia um dia em sua vida que gostaria de viver novamente. Ele revelou que, na verdade, seriam dois: um deles, no início de 1957, quando apresentou ao Brasil, no Rio de Janeiro, a peça que havia escrito dois anos antes – justamente a Compadecida. Lembrou-se de como a plateia, ao final da sessão, não satisfeita em aplaudir de pé, subiu nas cadeiras de madeira do Teatro Dulcina, batendo nelas os pés e fazendo um barulho que deixou-o inebriado. Penso que, ali, o advogado Ariano, antes dos 30 anos, libertou-se de qualquer indagação sobre seus caminhos – ficou provado, era um escritor. O dia 6 de janeiro de 1948 é outro momento que ele gostaria de ter vivido novamente: quando pediu Zélia em casamento. “Pedi a ela, só nós dois. Foi o dia mais importante da minha vida.”

Teatro popular com inspirações épicas

O Auto da Compadecida foi um livro escrito por um jovem de 28 anos, em 1955. Inspirado nos autos medievais e, principalmente, na Literatura de Cordel, o paraibano Ariano Suassuna escreveu, no Recife, a peça que viria a lançar, no Brasil, um estilo de teatro popular com base no épico. Um marco na dramaturgia moderna nacional, que seria montado no ano seguinte. O livro demorou mais a sair: foi publicado em 1957.

a_compadecida_primeira_versao foto arquivo projeto memorias da cena pernambucana

O Auto foi encenado pela primeira vez a 11 de setembro de 1956, no Teatro de Santa Isabel, pelo Teatro Adolescente do Recife, sob direção do pernambucano Clênio Wanderley.

Durante os três dias de apresentação, a encenação resultou num retumbante fracasso de público e crítica, chegando a ser suspenso na terceira noite por falta de quem quisesse assistir-lhe. “Na primeira noite tinha metade da plateia; na segunda, metade da metade. Na terceira, decidimos suspender”, lembrava Ariano. Como avaliou o crítico pernambucano Joel Pontes (1926-1977), no livro O Teatro Moderno em Pernambuco (1966), a maneira com a qual Clênio Wanderley dirigia seus atores, conservando a espontaneidade de cada um deles, não conquistava os recifenses, acostumados com “primarismo” nas interpretações, nas quais “modelo e ator” estariam “demasiadamente próximos”.

a_compadecida_primeira versao 1957 foto arquivo projeto memorias da cena pernambucana

Mas uma apresentação fora de Pernambuco daria uma reviravolta na trajetória da peça, aparentemente fadada ao limbo. Selecionada para participar do primeiro Festival de Amadores Nacionais, a montagem pernambucana foi encenada em janeiro de 1957, no Teatro Dulcina, no Rio de Janeiro, sendo consagrada com três prêmios (medalhas de ouro): Melhor Espetáculo, Melhor Diretor (Clênio Wanderley) e Melhor Atriz (Ilva Niño).

O grupo recebe o convite para estender a temporada por mais uma semana no Teatro Dulcina, com imenso sucesso de público a cada sessão. No mês seguinte, Paschoal Carlos Magno, um dos principais represetantes do teatro nacional, descrevia o Auto da Compadecida, no jornal Correio da Manhã, também do Rio de Janeiro: “É uma peça que se interrompe a cada instante com aplausos. É uma peça que se aplaude de pé. Uma peça como poucas do teatro brasileiro de todos os tempos. E quem representa é um punhado de moços de talento, de muitíssimo talento. Há neles dignidade, entusiasmo, honestidade”. Outro crítico da época, Accioly Netto, dizia que “O Rio de Janeiro aplaudiu o aparecimento de um grande comediógrafo – o jovem advogado pernambucano Ariano Suassuna, autor de A Compadecida.

Àquela época, o escritor ganharia destaque na cena carioca justamente pela ousadia de Ariano – um católico, devoto de Nossa senhora, a Compadecida – em criticar a corrupção e os desmandos da da Igreja Católica. “Uma peça inteligente e corajosa, além de oportuna. Seu autor, enfrentando preconceitos e preconceitos, deu-nos obra viva e digna de aplausos”, legitimava o crítico de teatro Milton de Moraes.

Desde então, o texto ganhou inúmeras outras montagens. Naquele mesmo ano, foi encenado em São Paulo, pelo Teatro Natal, com direção do pernambucano Hermilo Borba Filho (1917-1976) tendo como destaque, no elenco, o humorista Agildo Ribeiro, que vivia João Grilo, papel que encenaria, seguidamente, por cinco anos.

A peça de Ariano também conquistou plateias internacionais. Em 1959, uma das principais companhias brasileiras, a Companhia de Cacilda Becker fez sua versão para o Auto numa turnê pela Europa. A montagem foi dirigida por Cacilda, considerada por muitos a maior atriz do teatro brasileiro. Em mais de 60 anos, a peleja de João Grilo e Chicó transformou-se num clássico do teatro nacional. Seu apelo popular e sua reflexão universal fez da peça de Ariano um dos textos mais montados nos palcos brasileiros – seja por companhia profissionais ou grupo amadores.

O ator Marco Pigossi esteve no elenco de uma adaptação carioca da peça, em 2011, e com a qual ficou em cartaz por dois anos, interpretando Chicó. Na montagem, os atores mantiveram o sotaque carioca. “Foi sucesso em todas plateias. As pessoas sempre se identificam com o Auto. É uma história que se parece muito com o Brasil, tem a cara dos brasileiros”, diz o ator. “A necessidade de sobrevivência”

Em Pernambuco, a mais conhecida entre as encenações da obra é a da Dramart Produções, que ficou impressionantes 20 anos em cartaz, circulando com a peça por todo o Brasil. O espetáculo era dirigido, originalmente, por Marco Camarotti (1947-2004), e manteve no seu elenco a atriz Socorro Rapôso no papel de Nossa Senhora (personagem que ela encenou também na estreia, em 1956). Hoje, se recuperando de problemas de saúde, Socorro já não atua mais. “Ela é a minha eterna Compadecida”, dizia Ariano.

Um Nordeste sem caricaturas extasia a crítica

O fracasso de público nas três primeiras apresentações do Auto da Compadecida, no Recife, em setembro de 1956, podia ter sido uma mácula no currículo do espetáculo, não fosse a reviravolta que o futuro traria à companhia pernambucana. Quando subiu ao palco do Teatro Dulcina, no Rio de Janeiro, naquele início de 1957, o elenco deixou a plateia e a crítica cariocas encantadas com a encenação e com o texto da montagem.

No Diario Carioca de 22 e 23 de fevereiro daquele ano, o jornalista e dramaturgo Francisco Pereira da Silva (1918-1985) escreveu duas críticas nas quais exaltava a obra de Ariano Suassuna – para ele um achado na dramaturgia moderna nacional. Além disso, Francisco também destacou a importância do trabalho do diretor Clênio Wanderley (1929-1976), que criou uma direção hábil e inteligente, em “perfeita comunhão” com o texto.

O jornalista elogiou o ritmo dado pela direção, inspirado nas pantominas circenses, o que conseguiu, segundo ele, criar um espetáculo “alegre, vivo, com todo o colorido e sabor da região nordestina, sem cair nas desagradáveis caipiradas ou matutices” a que estavam fadadas as montagens apresentadas no Rio até então. Segundo Francisco Pereira da Silva, a vitória do grupo pernambucano no Festival de Amadores Nacionais foi merecia e completa.

Uma das maiores referências na crítica teatral brasileira, a rígida carioca Barbara Heliodora (1923-2015) se despediu de O Globo, onde atuou por 25 anos, com um artigo sobre Ariano Suassuna. Em 23 de julho de 2014, dia em que Ariano morreu, Barbara escreveu Auto da Compadecida, um Clássico – que estará na publicação comemorativa de 60 anos do Auto, a ser lançada neste ano pela editora Agir.

No texto, a crítica afirmou que devia “a Ariano Suassuna uma das experiências mais ricas de toda a minha vida de espectadora no teatro”. “Não estava no Rio, nos idos de 1956, quando estreou aqui a montagem de Auto da Compadecida pelo Teatro Adolescente do Recife, e quando cheguei várias pessoas me disseram que estava em cartaz uma peça brasileira de excepcional qualidade”, lembrou.

“Com a maior curiosidade, lá fui eu ao Teatro Dulcina e… não acreditei; no dia seguinte fui ver de novo o Auto da Compadecida para ter confirmada a minha impressão de que havia visto algo realmente extraordinário.”

Para Bárbara Heliodora, Auto da Compadecida é um dos dois únicos “clássicos” do teatro moderno brasileiro, ao lado de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues (1912-1980). Especialista na obra de Shakespeare (1564-1616), uma das fontes de inspiração do teatro suassuniano, Barbara destacava como principais elementos da peça de Ariano a qualidade dramatúrgica e brasilidade da narrativa – autor cujo texto diverte e questiona a moralidade, ao mesmo tempo.

Também na época da estreia do Auto da Compadecida, no Rio de Janeiro, em 1957, o crítico teatral Sábato Magaldi, 88 anos, escreveu sobre a apresentação do grupo pernambucano no Festival de Amadores. Sábato, categórico, disse que a peça evidenciava Ariano como “um escritor teatral autêntico de quem se pode esperar muito”. Além disso, segundo ele, o Auto “trata-se de uma dramaturgia católica, na melhor tradição que esse teatro fixou em todo o mundo, vindo das formas medievais, em que se assinalam os caracteres populares e folclóricos e uma religiosidade simples, sadia, irreverente e presidida pela Graça, com a condenação dos maus e a salvação dos bons”.

No exterior, a peça também fez sucesso. Em 1959, a Companhia de Cacilda Becker encenou o Auto da Compadecida em Portugal (antes da excursão internacional, o espetáculo foi apresentado no Recife), recebendo inúmeros elogios. Cacilda (1921-1969), considerada o mito do teatro brasileiro, além de dirigir a montagem também interpretava Nossa Senhora. No elenco, ainda estavam nomes como Cleide Yáconis (1923-2013), que vivia o Palhaço, e Walmor Chagas (1930-2013), interpretando João Grilo.

“João Grilo e Chicó são herdeiros da commedia dell’arte,

mas são herdeiros também do palhaço besta e do palhaço sabido, do circo;

e de dois personagens do espetáculo popular: o Mateus e o Bastião.”

“Quem um dia ler o Auto da Compadecida, vai saber que eu estou do lado de João Grilo e de Chicó,

os dois personagens que representam o povo do Brasil real.”

ENTREVISTA:

Manuel Dantas Suassuna

Um companheiro do pai

Em entrevista do Jornal do Commercio, o artista plástico Manuel Dantas Suassuna, relembra a relação de Ariano, seu pai, com o Auto da Compadecida:

“Meu pai sempre que falava do Auto, falava na questão da conversão dele para o catolicismo, influenciado por mamãe. E uma coisa que ele gostava muito, aqui em casa, era quando a gente repetia os textos dos personagens. Os filhos faziam isso e agora quem faz são os netos. Sempre tem alguém que diz ‘Lá em São João do Cariri…’, ou ‘Não sei… Só sei que foi assim’, ou ‘Disse ou não disse?’.

Particularmente, eu convivi bastante com o processo de adaptação do Auto para o cinema. A primeira versão, de 1968 (dirigida por George Jonas). Eu tinha 9 anos e, apesar de ser muito novo, me lembro bem. Fui para reunião na casa de Francisco Brennand; fui para set de filmagem, em Brejo da Madre de Deus. Ia sempre junto com papai.

Aliás, acho que essa versão foi a que ele achou mais bonita. Inclusive, ele participou da adaptação do roteiro.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ENTREVISTA:

Socorro Rapôso

A primeira Compadecida

A pernambucana Socorro Rapôso, 82 anos, foi a primeira atriz a viver o papel de Nossa Senhora da obra de Ariano Suassuna. Em setembro de 1956 ela estava no palco do Teatro de Santa Isabel, no elenco do Auto da Compadecida, dirigida por Clênio Wanderley. Enfrentando problemas de saúde, Socorro precisou deixar os palcos. Em entrevista ao Jornal do Commercio, em 9 de março de 2012, a atriz – que também era dentista – relembrou daquela apresentação histórica que, segundo ela, lhe deixou “anestesiada”, tamanho nervosismo.

“Fui convidada por Clênio Wanderley (diretor da peça e fundador do Teatro Adolescente do Recife) e no dia 11 de setembro estávamos estreando neste palco. Este papel seria da atriz Miriam Nunes, só que o Teatro de Amadores de Pernambuco tinha recebido um convite para viajar (com Bodas de Sangue, de Federico García Lorca)”, recordou a atriz, em conversa com a repórter Eugênia Bezerra.

“Eu estava anestesiada (na apresentação), não podia me imaginar no palco. Estava com medo de estragar a estreia”, lembrou Socorro, que por pouco não esqueceu o texto em cena. Socorro Rapôso voltaria a interpretar a Compadecida durante 20 anos, de 1992 a 2012, numa montagem do grupo pernambucano Dramart.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ENTREVISTA:

Francisco Brennand

Figurinos viraram obras de arte

Em texto escrito a pedido do JC, o artista plástico Francisco Brennand conta como, a convite de Ariano Suassuna, pintou, nos anos 1960, um a um os figurinos para a primeira versão cinematográfica do Auto da Compadecida.

“Em 1968, pintei 76 quadros a óleo sobre tela, de diferentes formatos, relativos aos figurinos das personagens do Auto da Compadecida. Antes de começar esse conjunto, fiz uma centena de desenhos a nankin, representando esses mesmos personagens. Não cheguei a colori-los, pelo fato de ter me interessado mais em pintá-los a óleo sobre tela. Esses figurinos, em parte, foram realizados por costureiros sob a supervisão do grupo que se ocupava da filmagem do Auto da Compadecida, na cidade de Brejo da Madre de Deus.

Apesar destas telas, mais do que elucidativas em termos de figuração – algumas personagens foram pintadas de frente e de costas – nem sempre os figurinos ficaram de acordo com os originais. Eu partia do pressuposto de um acumulo de vestes uma sobre as outras sem levar em conta o problema climático, isto é, o calor das terras nordestinas. Muitos atores se recusaram a usar esses trajes, a começar por Armando Bogus, que preferiu vestir uma calça preta com uma camisa do Flamengo. Contudo, alguns outros artistas, menos pretensiosos, cumpriram à risca aquilo que fora predeterminado nos meus projetos. Regina Duarte, por exemplo, no papel de Nossa Senhora. Enfim, a maioria atendeu (e entendeu).

Essas telas, a pedido do diretor George Jonas, foram levadas para o Rio de Janeiro e São Paulo sob o pretexto de expô-las nos dias de estreia do Auto da Compadecida. Lastimavelmente, apesar de todos os nossos esforços para reavê-las, meus e de Ariano Suassuna, isso jamais foi possível. Vez ou outra, encontro em leilões realizados no sudoeste do País algumas dessas pinturas isoladas. Entretanto, como o assunto me interessava, alguns anos depois, colori todos os desenhos realizados a nankin e hoje eles estão guardados no acervo da Reserva Técnica da Oficina Cerâmica Francisco Brennand.”

 

 

 

 

ENTREVISTA:

carlos newton

ENTREVISTA:

cláudio bezerra

João Grilo chegou ao cinema e à televisão

O jornalista e professor da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Claudio Bezerra, analisa as quatro versões audiovisuais do Auto da Compadecida. O texto de Ariano deu base a três filmes e uma minissérie de TV – sendo a mais recente versão, dirigida pelo pernambucano Guel Arraes, a mais famosa de todas.

Claudio Bezerra, que é doutor em Multimeios pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), é autor de livros como A personagem no documentário de Eduardo Coutinho e de artigos como Do teatro ao cinema: três olhares sobre o Auto da Compadecida. Confira a entrevista:

 

JORNAL DO COMMERCIO – Quais as principais peculiaridades que diferem as três adaptações do Auto da Compadecida para o cinema?

CLAÚDIO BEZERRA – A primeira, de George Jonas, conta com a participação de Ariano Suassuna no roteiro e é marcada pela presença dos folguedos populares. A segunda versão, dirigida por Roberto Farias, traz elementos circenses e da comédia burlesca característica do grupo Os Trapalhões. Já a versão de Guel Arraes suprime partes do texto original e insere outras histórias e personagens de outra peça de Ariano.

JC – A figura do Palhaço, tão importante para Ariano na peça, está presente apenas nas duas primeiras versões cinematográfica do Auto da Compadecida. Mas como este personagem é relido por George Jonas e, em seguida, por Roberto Farias?

CLÁUDIO – No filme de George Jonas o palhaço é vaidoso de sua condição de narrador explícito, onisciente. Já no filme de Farias, o palhaço mostra-se mais irônico e gozador do que orgulhoso de sua função de narrador.

JC – A adaptação de Guel Arraes suprime o Palhaço. Essa opção deixa uma lacuna na história, uma vez que, para a peça, o personagem é essencial?

CLÁUDIO – O palhaço é um elemento importante no texto da peça porque é ele quem narra e comenta os acontecimentos. No cinema há outras formas de narrar. A própria câmera ao mostrar os acontecimentos já exerce essa função de narrar. Em sua versão do Auto, Guel Arraes mostrou que a presença desse narrador pode ser mais difusa, ou seja, estar presente na atuação de todos os personagens.

JC – Ao mesmo tempo em que retira da obra o Palhaço, Guel Arraes incorpora à sua versão três outros personagens. O que eles representam, efetivamente, na história?

CLÁUDIO – Cabo 70, Vicentão e Rosinha são personagens que Guel foi buscar em outra peça de Ariano, Torturas de um coração (1951). A presença de Rosinha é para adicionar um par romântico no filme, um elemento característico da comédia romântica. Os outros dois são personagens do tipo valente-covarde dos espetáculos populares do nordeste, aparecem na trama para protagonizar um episódio engraçado de disputa pelo amor de Rosinha com Chicó.

JC – De que forma a Compadecida é vista nas três versões? A escolha das atrizes também influencia nessas visões?

CLÁUDIO – Creio que sim. Nas duas primeiras versões, esse papel foi interpretado respectivamente por Regina Duarte e Betty Gofman, então jovens atrizes em início de carreira. Nos dois casos, Nossa Senhora aparece como símbolo de candura e ingenuidade. A compadecida de Guel Arraes, interpretada por Fernanda Montenegro é uma mulher madura e experiente que conhece em profundidade a alma humana.

JC – João Grilo e Chico também ganham desenhos distintos nessas três versões. Como as adaptações olham para esses personagens? Qual seria a mais fiel interpretação dessa dupla, de acordo com as nuances propostas por Ariano?

CLÁUDIO – Na primeira versão, a dupla é interpretada burocraticamente por Armando Bogus e Antonio Fagundes. Eles não estão bem caracterizados, usam camisas tipo polo, calça e sapatos sofisticados para compor o papel de sertanejos pobres. Na segunda adaptação, a dupla vivida por Didi e Dedé está mais viva e melhor caracterizada com roupas de algodão leve e chinelos de couro, no entanto, o estilo eminentemente circense de Os trapalhões transforma o filme quase num pastelão. Na versão de Guel a dupla interpretada por Matheus Nachtergaele e Selton Melo incorpora certas características dos brincantes nordestinos e consegue um equilíbrio entre picardia e crítica social. Pra mim, é a versão definitiva da dupla.

JC – Esteticamente, quais as marcas que merecem destaque em cada uma dessas versões cinematográficas? 

CLÁUDIO – As três versões adotam os princípios da metalinguagem e da intertextualidade como princípios de construção narrativa. A primeira versão dialoga mais com os folguedos populares do nordeste. A segunda com o universo circense e burlesco de Os Trapalhões. A terceira versão apresenta referências estéticas das comédias romântica e burlesca, e incorpora elementos dos programas humorísticos da televisão, com seus esquetes e bordões, a exemplo das cenas em que a mulher do padeiro se despi para o marido e os amantes, dizendo: “sou doida por um homem forte”.

Palhaço

Narrador do espetáculo. Ele é quem anuncia e comenta a história. É, em muitas vezes, a voz do próprio Ariano Suassuna.

João Grilo

Pobre e franzino, faz da astúcia uma arma de sobrevivência. É um personagem picaresco, que tem origem no teatro medieval.

Chicó

É o contador de causos, o mentiroso ingênuo que cria histórias apenas para satisfazer um desejo inventivo.

Antônio Moraes

Rico senhor de terra. É brabo, truculento e impõem medo na cidade.

Padeiro

Comerciante que explora os empregados. Um burguês que tem acordos com as autoridades da Igreja.

Padre João, o sacristão e o bispo

Tríade religiosa que só dá mau exemplo. Representa a Igreja corrompida, preocupada apenas com dinheiro e status.

Mulher do Padeiro

Adúltera, interesseira e mimada. Cuida dos animais de estimação, mas despreza os seres humanos.

Frade

O bom sacerdote. Aparece na trama para aliviar as críticas de Ariano à Igreja.

Demônio

ajudante do Diabo

Severino do Aracaju

O cangaceiro violento e ignorante.

Cangaceiro

Ajudante de Severino. Ele é quem mata os personagens.

O Encourado

É o Diabo. É um antagonista de João Grilo.

A Compadecida

Nossa Senhora. É heroína da peça, advogada de João Grilo e de seus conterrâneos.

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