Signos para dialogar com Deus

Qualquer pessoa que entrou numa igreja católica antiga e teve a curiosidade de contemplar o prédio deve ter percebido a riqueza de informações à sua volta. Há alegorias para representar a caridade, símbolos para contar narrativas religiosas e imagens de santos associadas a objetos variados. Nada foi colocado de forma aleatória e tudo tem um significado.

Não se preocupe se você não decifrar todos os símbolos presentes nas paredes, no teto e nos nichos onde repousam imagens de santos nas igrejas. A tarefa é difícil. “É complexo entender tudo, até porque, na liturgia, os símbolos no espaço sagrado não estão ali para serem entendidos de forma racional, mas para serem sentidos no diálogo com Deus”, afirma o historiador e cientista religioso Iron Mendes de Araújo Júnior.

Muitos desses símbolos, diz ele, surgiram da necessidade de transmitir o Evangelho aos fiéis pelas imagens. “A finalidade era ensinar o texto sagrado à população analfabeta”, destaca o historiador. A identificação é inesgotável. “O símbolo não remete a uma só informação e sim a várias informações que se completam”, ressalta.

Cada templo cristão estampa as verdades defendidas pela Igreja Católica, por meio da iconografia e do simbolismo, acrescenta o museólogo e pesquisador aposentado da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) Fernando Ponce de León. “Desde a sua fundação a Igreja viu a eficácia da imagem para esclarecer, memorizar a levar à compreensão, instruindo os fiéis na verdade da fé”, diz ele.

Um triângulo iluminado remete à Santíssima Trindade, a figura do galo recorda a negação de Cristo por São Pedro, a orelha colada a uma espada faz referência ao gesto do santo de golpear Malco (o servo da orelha cortada no Novo Testamento) no Jardim das Oliveiras durante na prisão de Jesus Cristo, cita Fernando Ponce.

“Os símbolos são links para verdades bíblicas do Antigo e do Novo Testamento que se queria transmitir, são as ligações com as ideias representadas em toda a igreja, nas pinturas, na azulejaria, na capela-mor, no teto e nos retábulos (painéis atrás ou acima do altar)”, observa Fernando Ponce. “É preciso cuidado ao se fazer essas identificações porque são elementos visuais com significados muito fechados.”

Os artistas contratados criavam os painéis e azulejaria baseados em estampas aprovadas pela Igreja Católica, esclarece Fernando Ponce. A literatura hagiográfica (narrativas sintéticas sobre a vida dos santos) e a literatura sagrada (narrativas sintéticas da Bíblia em texto e figuras) também serviam de suporte para os artistas.

Alguns símbolos são acessíveis, diz Iron Mendes Júnior, mas passam despercebidos porque na pressa do dia a dia a pessoa não faz uma reflexão sobre o sentido da imagem. “É preciso olhar com delicadeza para refletir sobre a peça”, pondera. Nessa troca de informações, o dado ao lado da imagem do Senhor Bom Jesus dos Martírios ganha sentido. Foi no jogo da sorte que soldados romanos disputaram a túnica de Cristo. Nada está ali por acaso.


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24 de Dezembro de 2017

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