De detento a destaque e novo presidente da Cipa

Um funcionário orgulhosamente chato. Quando o operador de máquinas Sílvio Lobo, 29 anos, vai passando pelos corredores da empresa Algo Bom, que reutiliza resíduos de algodão para produzir produtos de limpeza, em Paratibe, Paulista, município da Região Metropolitana do Recife, todos ficam atentos. Qualquer mínima irregularidade, ele já chama a atenção. Não com soberba e, sim, com amor, que recebeu na empresa e hoje espalha com satisfação.

Orgulho em ter se tornado um funcionário e mais ainda por ter sido eleito duas vezes seguidas, com larga vantagem, o presidente da Comissão Interna de Prevenção de Acidente (Cipa).

"É uma grande responsabilidade. Você ganhar o respeito dos outros funcionários e saber que eles acreditam no seu potencial, que eles confiam em você para manter nosso ambiente de trabalho seguro para todos. Por isso, sempre estou cobrando deles o uso dos equipamentos de segurança e dos superiores, as melhorias necessárias na empresa”, contou Silvio, de forma séria e compenetrada. Mas a expressão fechada logo se abriu em largo sorriso quando questionado sobre o apelido de chato. “Admito que, nesse sentido, sou chato, sim, mas um chato do bem. Pego no pé mesmo. Às vezes até peço desculpas aos meus colegas, mas eles estando bem, a empresa também vai estar”, disse, contendo a alegria, para manter a pose sisuda.

Embora hoje atue com desenvoltura no trabalho, sua vitória na eleição para o cargo foi recebida com grande surpresa. “Sinceramente, eu achava que não teria chances, porque estavam concorrendo outros funcionários mais conceituados e com bem mais tempo de empresa”, afirmou. Não esperava, mas ganhou. E com folga. “No ano passado, venci com 18 votos. Este ano tive 29, sendo 10 de diferença pro segundo colocado, com a graça de Deus que me abençoou e me deu a chance de cuidar dos meus amigos”, contou.

No seu dia a dia, Silvio aprendeu não só a identificar, mas a lidar com a falha dos outros. Transformar erros em lições. Assim como a própria empresa fez com ele, que hoje é um exemplo para os colegas. Silvio errou. Todos sabem. Mas procurou acertar e conquistou o reconhecimento de patrões e empregados. O que não apaga o seu deslize. Quando lembra dele rememora a imagem da avó. “Ela sempre me dizia aquele ditado: 'Me diga com quem andas e eu te direi quem és'. Eu infelizmente andei com pessoas erradas e acabei cometendo o erro. Participei de um assalto à mão armada em 2008 e fui preso em flagrante”, disse, naturalmente voltando ao semblante fechado.

Passou cinco anos preso e o que viveu nesse período diz que não deseja a ninguém. “Sofrimento, saudade, angústia, tensão, mortes. Tudo isso mexe muito com nosso psicológico, mas graças a Deus mexeu para o bem e decidi sair dessa vida”, relatou. A chance de provar isso veio quando saiu da prisão e teve, segundo ele, a primeira data inesquecível pós-presídio: 10 de abril de 2012, dia em que começou a trabalhar, ainda no regime aberto, na Algo Bom como ajudante de operador de máquina, depois de ser encaminhado pelo patronato.

É uma grande responsabilidade. Você ganhar o respeito dos outros funcionários e saber que eles acreditam no seu potencial, que eles confiam em você para manter nosso ambiente de trabalho seguro para todos”, contou Silvio Lobo, 29 anos

A segunda data, 2 de janeiro de 2015, Silvio achou que poderia ser marcada “negativamente”, mas foi outro dia feliz. “Neste dia terminei de cumprir minha pena e fui saber da empresa se eu iria ser desligado, se não precisava mais voltar. Foi aí que me disseram: ‘Agora é que o melhor vai começar, traga a sua carteira de trabalho!’ Quando vi a carteira sendo assinada foi mágico. Você ver seu nome sendo escrito e saber que agora ele está limpo não tem preço”, relembrou.

Hoje, casado há quatro anos, com três filhos (Ketly, 12 anos; Mateus, 11; e Davi, 3), Silvio diz que esse dia da sonhada contratação até hoje mudou a sua vida e por consequência a da sua família. “É uma satisfação para mim chegar em uma loja para comprar algo e mostrar que sou um operador de máquina industrial. Consultarem e verem que tenho carteira assinada. Isso te abre novos horizontes e sou muito grato por isso”, finalizou Silvio.