Decisão de abrir portas e construir outro mundo

De tanto ver portas se fecharem, Rony Neves decidiu criar uma. E abriu. Mais que um negócio, uma oportunidade de voltar – de cabeça erguida – para um novo/velho mundo que deixou à força e cabisbaixo. Quando saiu do Complexo Prisional do Curado, na Zona Oeste do Recife, em novembro de 2017, o jovem de 22 anos sabia que carregaria a prisão pelo resto da vida, só não imaginava que teria um peso tão grande na hora de se inserir no mercado de trabalho. Um fardo mais fatigante a cada não recebido. Até que resolveu dizer sim ao seu sonho. Como não arranjou emprego, decidiu empreender. Em junho do ano passado, montou uma hamburgueria em casa, no Ibura, Zona Sul da cidade, onde vende 300 lanches por semana e atende mais de dez localidades por delivery.

As portas fechadas marcaram, mas não mais do que o trancar do portão da cela. Um som aferrolhado até hoje na mente de Rony. Disto ele não se liberta. Assim como da culpa de ter tido “mente fraca”, como ele diz, para entrar na criminalidade. “Não foi falta de conselho nem de pai nem de mãe. Infelizmente era muito novo, tinha 19 anos. Andei com pessoas erradas. Me fizeram proposta de muita grana e comecei a fazer pequenos assaltos”, contou. A primeira vez deu certo. A segunda e a terceira, também. Na quarta, não mais. Na tarde do dia 29 de fevereiro de 2016, o grupo assaltou um mercadinho em Prazeres, em Jaboatão dos Guararapes, Grande Recife, mas a polícia foi acionada e depois de uma perseguição conseguiu prendê-lo. Artigo 157 - Assalto à mão armada: seis anos de prisão.

Rony Neves, de 22 anos, virou empreendedor depois de ver várias portas fechadas quando procurava emprego

No complexo prisional, Rony diz ter conhecido um novo e indesejado mundo. “Você vê de tudo. Pessoas brigando e se matando por um pedaço de chão de um metro pra dormir. Você vê gente chegando boa e saindo doida. Gente pulando de laje pra bater a cabeça no chão. Só quem passou sabe”, disse. Situações que, segundo ele, o fizeram repensar a vida. Foi aí que pediu atenção. “Em uma visita dos meus pais chamei eles e disse: Só tenho vocês, se quiserem me abandonar fiquem à vontade, mas caso não, garanto que vou mudar. Todo mundo merece uma segunda chance”, clamou aos pais que, de pronto, atenderam.

Rony teve a oportunidade de provar isso quando deixou a prisão em 22 de novembro de 2016 para cumprir o resto da pena no regime aberto até 2022. Mas a segunda chance dada pelos pais não foi concedida com a mesma facilidade pelas empresas onde procurou emprego. “Três dias depois ser solto, fui a uma lan house e imprimi 100 currículos. Dei a parentes e amigos para distribuir e fui entregar de porta em porta em todo tipo de lugar pela cidade: lanchonete, padaria, mercado, posto de gasolina.”

Passou quatro meses entregando currículos e só recebeu negativas. “Teve um restaurante que não pediu logo meus documentos e trabalhei uns 15 dias em teste. Chegava todo dia uma hora mais cedo, mostrei serviço. Mas só foi entregar a documentação que no dia seguinte me mandaram embora”, contou, com voz embargada. Na hora, Rony não conteve o choro. “Muitas pessoas acham que por ser um ex-presidiário você não é humano. É muito difícil você não querer ficar parado, tentar ajudar a sua família, bater em várias portas e fecharem bem na sua cara”, disse.

Daí transformou a mágoa em outro sabor. E com gosto de infância. “Sempre amei cozinhar e meu lanche favorito era o hambúrguer. Comecei a fazer uns, misturando molhos e coisas diferentes e o pessoal de casa gostou. Aí pensei: É daqui que vou tirar dinheiro”, lembrou.

Em março do ano passado, comprou uma bicicleta e duas caixas de isopor e carregava 40 hambúrgueres, para vender no Centro de Abastecimento e Logística de Pernambuco (Ceasa), no Curado. “Acordava de madrugada, preparava, saía de casa umas quatro horas e pedalava oito quilômetros para passar a manhã vendendo”, disse.

No dia 25 de junho do ano passado, Rony montou na própria casa, no Ibura, a hamburgueria delivery Kero Mais

Três meses depois, deu um passo mais ousado. Por que não fazer o lanche chegar mais longe e diretamente na casa das pessoas? No dia 25 de junho do ano passado, montou na própria casa a hamburgueria delivery Kero Mais e passou a atender pedidos por telefone e WhatsApp nos bairros do entorno, com as entregas sendo feitas por um motoqueiro. Decidiu se qualificar e fez um curso de doces e salgados oferecido pelo Patronato Penitenciário de Pernambuco, que incentiva a reinserção de reeducandos no mercado de trabalho.

A capacitação aflorou ainda mais seu lado empreendedor. Passou a aceitar cartões de crédito, ampliou o cardápio (oferece também batata-frita, açaí e cachorro-quente) e criou três molhos diferentes: Segredo da Casa (queijo do reino), Kero mais (queijo ricota) e o Especial (ervas finas). “É um sucesso, visse? Todo mundo pede esses molhos e fica querendo saber como se faz, mas é segredo, não conto nem pra minha mãe”, disse.

A equipe do Jornal do Commercio acompanhou algumas entregas e viu que os lanches fazem sucesso. A cobradora Ana Paula Alves dos Santos disse que se tornou cliente fiel. “Os lanches dele são ótimos. O nome já diz: quem prova fica querendo mais”, registrou Ana, enquanto saboreava o famoso hambúrguer.

Hoje, o faturamento mensal é de mais de R$ 2 mil. Um sucesso que orgulha quem participou de toda a luta, como a esposa Alanna Michelly Lima, 28 anos, com quem divide o trabalho na cozinha. “Em nenhum momento pesou pra mim o fato de ser um ex-detento porque eu o conheci de verdade e vi que era uma boa pessoa. A questão é que antes ele não acreditava nele e depois passou a enxergar que podia ser alguém na vida”, analisou.

A esposa de Rony, Alanna Lima, diz que ele só precisava acreditar em si para conseguir dar a volta por cima.

Surpreendeu até quem lhe deu a vida. A mãe Rosângela Maria da Silva, 55, diz que conheceu dois Ronys. “Aquele que foi preso ficou lá. A cadeia foi uma grande lição. Saiu de lá um guerreiro para batalhar aqui fora”, disse, tentando, em vão, segurar as lágrimas.

Hoje, Rony quer mais da vida. “Deus é tão bom que só dá uma missão pra um soldado que seja compatível com ela. Agora eu posso dizer que estou vencendo essa guerra. E isso é só o começo. Pode escrever aí!”, prometeu. A respeito das portas fechadas, ele sonha em não ver outros dando de cara com elas. “Tenho fé que vou poder ajudar quem passar pelas mesmas dificuldades”, projetou, porque agora aprendeu a fazer isso.