Construir uma casa e reconstruir a vida inteira

Um sonho de pouco mais de 15 metros quadrados. Erguido a partir de um trabalho e com muito trabalho. A humilde residência da Rua Quarenta, em Maranguape I, no Paulista, Região Metropolitana do Recife, é a representação material da mudança de vida da proprietária dela Fabiana Celestino dos Santos, 39 anos. Ambas edificadas com suor e lágrimas. Casa e dona de casa. Duas obras ainda em construção, mas ambas seguem em busca de estabilidade.

Uma morada simples, é verdade, com sala, cozinha, quarto e banheiro. Restos da construção pelos cantos. Alguns móveis antigos. Mas muito carinho no pouco que se tem. O plano de arquitetar essa sonhada residência foi adiado por anos desde que Fabiana entrou pela primeira vez em outra edificação: um presídio. E ainda como visita. Em 2003, começou a visitar no Presídio de Igarassu o irmão que havia sido preso por assalto, e no local acabou conhecendo e se envolvendo com outro detento. “Ele começou a me induzir a fazer uns favores. Vá buscar umas caixas de comprimidos e depois deixe em tal lugar que você ganha certa quantia. Foi assim que eu comecei no tráfico de drogas”, contou. Engravidou e passou a ir ao presídio agora já como visita conjugal e, segundo ela, “se afundou ainda mais”.

Não demorou para ser pega pela polícia com drogas e ir conhecer o outro lado das grades. Cinco anos de prisão. Chegou à Colônia Penal Feminina do Recife no dia 9 de maio de 2007, data ainda mais marcante por ser dias antes do Dia Das Mães. “Me senti a pior mãe do mundo. No dia de comemorar a data meus filhos fizeram uma surpresa e entraram pela porta da cela. Aquilo partiu meu coração”, rememorou, com voz embargada. Esta e diversas outras experiências vividas na penitenciária fizeram Fabiana mudar de vida. Ela garante. E para marcar essa mudança fez um pedido. “Pedi a Deus que me desse a chance de construir uma casa para reconstruir a minha vida”, revelou.

A oportunidade veio quando foi transferida quase um ano depois da unidade do Recife para a Colônia Penal Feminina de Paratibe, para cumprir pena no regime semiaberto. Em 2008 começou a trabalhar como operadora de máquina na Algo Bom e voltando para dormir na prisão. Após o fim da pena em 2011, foi efetivada. Depois de um ano de carteira assinada conseguiu, com a ajuda da empresa, um empréstimo de R$ 5 mil para comprar material de construção. Quarenta e oito prestações de R$ 174 que assustaram no início, mas foram pagas todas no prazo. “Comprei tudo direitinho e quando vi o pedreiro demorar a entregar a casa, não tive dúvida. Arregacei as mangas e botei a mão na massa. Ajudei a fazer massa, colocar tijolo, tudinho pra ver minha casinha em pé”, afirmou a disposta Fabiana que finalizou a obra em três meses.

Fabiana se orgulha de ter construído sua casa e sustentar a família, que está crescendo de forma digna

Durante esse período descobriu que estava grávida. De gêmeos. Agora seriam quatro filhos para sustentar. Além do casal de gêmeos, uma menina de 13 anos e um rapaz já com 18, de outro relacionamento. Uma conta ainda mais difícil de fechar depois que saiu da empresa por redução de quadro em 2016. Para sobreviver e não cair novamente na tentação do tráfico passou a fazer doces e vender de porta em porta pelas ruas de Maranguape. “Só volto pra casa quando vendo tudo, assim tenho dinheiro pra fazer os docinhos do dia seguinte”, contou. A renda mensal com as vendas é de cerca de R$ 700. A vizinhança adora. A dona de casa Ivanilza do Carmo é uma das clientes fiéis. “Sempre compro, os docinhos são uma delícia, todo mundo do bairro gosta. Ela é uma guerreira, por isso o pessoal ajuda”, disse.

Contando sua história sentada em uma cadeira na frente da sua sonhada casa, Fabiana fez um desabafo. “Eu já me senti a pior mãe do mundo, mas hoje que consegui dar uma casa a meus filhos e sustentá-los com dignidade, não mais. Pode parecer doidice, mas agora eu agradeço ter passado pela prisão, porque se Deus não tivesse colocado esse freio em mim, talvez, eu não estivesse aqui contando essa história pra você”, disse, alisando a barriga. Grávida de cinco meses do quinto filho, Maria Ester, Fabiana diz que vai sentir orgulho de contar sua história a ela. “Quero que ela saiba que a mãe dela é uma guerreira”, disse, sorrindo.