Dedicação a sementeira para amadurecer e colher bons frutos

Tudo o que se planta se colhe. Eulis Santos, 25 anos, aprendeu isso da pior e da melhor forma. Teve que conhecer os dois lados do ditado popular para começar a cultivar algo bom em sua vida. Quem o vê trabalhando com tanta dedicação na sementeira da Prefeitura do Recife, no bairro de Casa Amarela, não imagina o quanto que ele teve que preparar o seu próprio terreno para hoje se considerar maduro, a ponto de dar bons frutos. Fruto de esforço, de força de vontade, de fé.

A trajetória de Eulis se confunde com a de tantos outros jovens marginalizados das periferias. “Minha mãe morreu quando eu tinha 2 anos e meu pai me abandonou. Fui criado pela minha avó, mas vivia na rua. Lá só tive más influências”, contou. De acordo com ele, as tais influências pesaram quando faltou o básico. “Chegava na casa da minha avó e não tinha o que comer. Ficava desesperado, com fome, e via meus colegas esbanjando dinheiro, com tudo do bom e do melhor. Aí tive a vontade de também ter aquilo, via que era muito fácil e passei a vender drogas com eles”, contou, com a mesma naturalidade com que entrou na vida do crime. Eulis, contudo, tinha plena noção de que era um caminho errado. Tentou mudar de rota. Todavia não seguiu a estrada do bem.

Ele foi preso 22 de abril de 2013 com 50 gramas de maconha e 70 pedras de crack, tendo recebido 5 anos de pena.

“Arranjei emprego em uma transportadora como carregador. Trabalhava o dia inteiro pra ganhar uma diária de R$ 25. No tráfico tinha dia em que ganhava R$ 700. Passei só um mês e 15 dias no trabalho”, relatou, com a consciência de quem hoje sabe que calculou mal e teve parte da vida subtraída.

O resultado desta conta veio no dia 22 de abril de 2013. Os números que o fizeram ser presos foram dos 50 gramas de maconha e 70 pedras de crack encontrados na casa dele pelos policiais. Lá também estavam uma balança de precisão e um revólver calibre 38. Cinco anos de condenação. Na prisão, diz que viveu incontáveis momentos terríveis. “Mortes, assaltos, incêndios, presos colocando fogo um nos outros dentro das celas. Não é fácil lá dentro não”, relembrou, com olhar ao longe.

O tom ficou mais leve quando Eulis contou o que para ele foi fundamental para a sua mudança. “Dentro do sistema penitenciário, eu fui apresentado a Jesus por um irmão de cela. Aceitei o evangelho e adotei um novo pensamento, uma nova forma de viver”, assegurou. A nova forma de vida pôde ser colocada em prática em agosto do ano passado, quando deixou o presídio. Nove meses depois teve a chance que ansiava ao ser chamado para a sementeira municipal, através da qual tira o justo sustento para a casa alugada em Afogados, Zona Oeste do Recife, onde mora com a esposa e o filho de 7 anos.

“Aqui eu descobri um novo mundo. Não sabia nada de plantas. Pelo contrário, quando era moleque passava por uma, arrancava, cortava para brincar. Não reconhecia como um ser vivo, como todos nós. Hoje em vez de maltratar, eu rego”, confessou. As mãos sujas pelo tráfico hoje permanecem sujas. Mas pela terra que utiliza para fazer um paralelo com a sua vida. “Antes a minha terra não estava preparada para dar bons frutos e no tempo que eu estava preso eu fui adubando. Hoje dentro dela tem a misericórdia de Deus, um amor imenso pela vida e em todas as suas formas, tanto as pessoas que cuido em casa, como as que cuido aqui”, afirmou, com semblante feliz, brotando sorrisos. Realmente, tudo o que se planta se colhe.