Disposição de não deixar o sonho pela estrada e seguir em busca de mais

Recomeçar. Aos 53 anos, Erivanda Santos faz isto todos os dias. Aprendeu tarde o significado da palavra. Mas aprendeu também que nunca é tarde para colocá-la em prática. Às vezes atrasa, mas nunca deixa de ir às aulas no Centro de Educação de Jovens e Adultos Valdemar Oliveira, em Santo Amaro, área central do Recife. Retomou os estudos depois de 30 anos, para atingir um objetivo: chegar à faculdade. “É meu sonho e vou realizar, eu creio, vou chegar lá”, disse, convicta.

A mesma convicção é que a faz encontrar forças para estudar depois de um dia inteiro de expediente como auxiliar de serviços gerais na empresa Pórtico, que produz esquadrias de alumínio, no bairro da Imbiribeira, Zona Sul da cidade. Ela trabalha das 7h às 17h30. Quando larga segue direto para a escola, onde estuda das 18h30 às 22h. Pesado? Não para quem já carregou nas costas o peso por erros diversos e hoje se orgulha do esforço por acertos. “Só fiz até a quinta série porque aos 22 anos tive que largar a escola e trabalhar como empregada doméstica para ajudar minha família que sempre foi muito pobre. Mas 30 anos depois eu encontrei força para voltar a estudar, seguir meu sonho que tive de abandonar. Chego em casa todo dia umas onze da noite, bem cansada, mas feliz”, disse, entrando na sala de aula com mochila nas costas e esperança de uma adolescente.

Depois de 22 anos sem estudar, ela voltou para a escola para realizar o sonho de chegar à faculdade.

E quando chega em casa não descansa. Erivanda tem 16 netos, sustenta nove, de 4 a 18 anos, que moram com ela em uma pequena casa três cômodos, alugada por R$ 400, no bairro de Santo Amaro. “Sou vó pra tudo. Pra ajeitar eles quando chego, pra botar comida dentro de casa. Os pequenos dormem comigo e os maiores, em dois beliches. Eu amo demais, eles são a minha vida. E dou ainda mais valor a esses momentos com eles depois do tempo em que fiquei longe”, contou Erivanda, sem segurar as lágrimas.

O choro é de quem sabe que errou. Pelos netos, mas errou. Não usa como desculpa. Cometeu um crime e pagou. Em 2008, foi despedida de uma churrascaria, onde trabalhava como caixa. “Fiquei desempregada e na época já tinha cinco netos que eu sustentava. Estava desesperada com o aluguel atrasado e via a hora colocarem a gente no olho da rua. Precisava ajudá-los, mas não queria me envolver em coisas erradas, banais, furto, roubo, essas coisas”, disse Erivanda.

Erivanda Santos, de 53 anos, foi presa por tráfico de drogas em 2008 e foi sentenciada a cinco anos.

Ela relata que, logo depois, conheceu um baiano que lhe fez uma proposta, no mínimo, tentadora. “Ele sabia da minha situação e disse que me daria uma casa. Bastava eu viajar com ele para ir buscar uma tal carga em Salvador. Não posso dizer que fui totalmente inocente porque eu sentia que devia ter algo errado nisso, mas eu fui”, relatou. Na rodoviária da capital baiana, Erivanda relatou que ele despachou uma bagagem no ônibus e avisou a quem deveria entregar no Recife. Na chegada à capital pernambucana. foi abordada por policiais que encontraram quase 200 quilos de maconha escondidos na sua bagagem. Foi quando ela teve a certeza do envolvimento do rapaz com o tráfico de drogas.

Em vez da casa, Erivanda ganhou cinco anos na prisão e o afastamento de quem tentou cuidar em setembro de 2008. “De todas as coisas ruins que vivi lá, a pior foi a distância da minha família”, relembrou. Mas voltou a trabalhar dignamente, como sempre havia feito, para ajudar a sustentar os parentes. Em 2011, ainda no regime semiaberto, teve uma oportunidade na Pórtico, onde atua até hoje como auxiliar de serviços gerais. “Tenho muito orgulho em poder lavar um banheiro, fazer um café. Me sinto muito feliz em saber que no fim de cada mês vou receber pelo meu trabalho digno”, disse.

Em 2011, ela teve uma oportunidade na Pórtico, onde atua até hoje como auxiliar de serviços gerais.

Pela trajetória de vida, Erivanda recebeu, em 2014, uma homenagem da Secretaria Executiva de Ressocialização (Seres). Um exemplo de ressocialização. “Não tenho vergonha de ter passado pela prisão. Deus permite que a gente tenha tudo o que a gente procura. Sei que sou culpada por ter procurado coisas erradas, mas hoje ando de cabeça erguida. Sou ressocializada e posso entrar e sair em qualquer lugar”, afirmou. O próximo lugar que quer entrar ela sabe bem: a faculdade de serviço social. “Acho uma profissão linda a de assistente social que ajuda muitas pessoas necessitadas. Quero retribuir tudo o que fizeram por mim”, finalizou, reiterando mais uma vez que vai realizar esse sonho.