Descoberta de parceiros eficientes

Faltava pouco tempo para o Natal de 1999 e Celso Maranhão, então administrador de um shopping em Caruaru, no Agreste do Estado, se viu diante de um problema para ornamentar o local: milhares de lâmpadas de pisca-pisca estavam queimadas. Foi aí que um amigo sugeriu mandar o material para a Penitenciária Juiz Plácido de Souza, no município, para que os detentos pudessem fazer o conserto. “Nunca havia feito esse tipo de parceria, mas era uma quantidade enorme de lâmpadas, imaginava que só ia ficar pronto no Natal do ano seguinte. Mas para a minha surpresa, em menos de 15 dias, o material voltou todo pronto. Foi aí que me dei conta de que no sistema prisional havia uma força de trabalho muito grande e que deveria ser melhor explorada para dar oportunidade ao pessoal”, contou Celso Maranhão.

Oito anos depois, quando voltou ao Recife para administrar a empresa Pórtico, que tem 343 funcionários e fabrica esquadrias de alumínio desde 1990, resolveu usar o trabalho das unidades prisionais. “Começamos com essa sementinha em 2008, para ir aos poucos quebrando preconceitos na empresa. Começamos com seis reeducandas, hoje contamos com 56 de ambos os sexos no regime fechado, semiaberto e aberto. Eles atuam na matriz, na Imbiribeira, na filial, em Goiana, e nas unidades dos presídios de Gravatá e Igarassu”, explicou.

mais importante e gratificante é dar esta segunda chance a quem tem uma força de trabalho enorme. Eles sabem que não terão tão facilmente outra oportunidade e identificamos uma vontade grande de aprender.” afirmou o diretor Celso Maranhão

O diretor da empresa disse que ao longo dos 10 anos de parceria com o Patronato Penitenciário pelo menos 12 pessoas foram efetivadas após ganharem liberdade. “Uma delas começou como ajudante na empresa e hoje opera uma máquina chamada centro de usinagem, da Itália, avaliada em quase um R$ 1,3 milhão. E opera de maneira exemplar.”

Ele admite que os benefícios fiscais são atraentes, mas procura não colocar isso como primordial. “Não pagamos INSS, FGTS nem existe vínculo empregatício. Claro que é interessante para alavancar os negócios. Mas o mais importante e gratificante é dar esta segunda chance a quem tem uma força de trabalho enorme. Eles sabem que não terão tão facilmente outra oportunidade e identificamos uma vontade grande de aprender.”

Sobre o tratamento na empresa, ele garante ser igualitário. “Procuramos não fazer distinção. Eles desenvolvem as atividades da mesma forma. A gente se entende como família, sem estigmas nem preconceitos. São funcionários como os outros.”

De portas abertas a qualificar mão de obra prisional

A Algo Bom, em Paulista, no Grande Recife, é uma das 22 empresas públicas e privadas que empregam ex-detentos, como Silvio Lobo e Carlos Mizael, por meio de convênio com o Patronato Penitenciário de Pernambuco, órgão ligado à Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Estado. Entre as privadas, é uma das que mais dão oportunidades e há mais tempo. Fundada em 1945, a empresa, que reutiliza resíduos de algodão para fazer produtos de limpeza, passou a ser parceira do Patronato em 2000. Atualmente, tem 118 funcionários e conta com 32 reeducandos.

“Eu comecei a empregar a partir de um pedido de um amigo que tinha um conhecido que estava no regime semiaberto procurando trabalho. No início eu relutei um pouco, mas decidi dar essa chance a essa pessoa que tinha toda a capacidade de se ressocializar e precisava apenas de uma oportunidade. Tempos depois, eu conversando com essa pessoa ela me disse que se eu fosse mais um a ter fechado a porta, provavelmente, ela teria voltado para o crime”, contou o proprietário da empresa, Antônio Claudio Cavalcanti.

A Pórtico tem uma política bem definida de dar chances a pessoas que passaram por prisões

A política da Algo Bom é bem clara: se ao final da pena o reeducando tiver demonstrado um bom trabalho ele é automaticamente efetivado. Vinte dos atuais funcionários do quadro normal da fábrica passaram por esse processo. “Achei que essa seria uma forma da nossa empresa contribuir para diminuir a criminalidade no nosso Estado. Entendo que essa é uma tarefa do poder público, mas acho que o setor privado também tem que dar a sua contribuição. O raciocínio é lógico: A pessoa precisa sobreviver e quando tem uma ficha criminal ela é marginalizada desde o começo e tem dificuldade de arranjar emprego. Nós temos condições de ressocializar essas pessoas, fazer com que ela aprenda uma atividade e volte à sociedade”, afirmou Antônio Cavalcanti.

Ele sabe dos benefícios financeiros e fiscais do convênio, mas garante que os sociais são bem maiores. “Eu acho que qualquer pessoa em algum momento da vida, devido às circunstâncias, pode ter um ato de fraqueza e cometer um delito. O que não quer dizer que, necessariamente, tenha uma essência má. Existem pessoas de boa índole que reconhecem que tomaram uma atitude errada e só querem uma oportunidade. Toda pessoa que comete um delito deve ser julgada e sentenciada, mas essa sentença tem que terminar no final da pena e não durar até o fim da vida”, finalizou.