Uma dupla conquista: emprego e amor

Um acelerar de coração que terminou em casamento. Quem diria que, depois de deixar a prisão, seria possível conquistar um emprego e nele o amor de sua vida? Nem o próprio Carlos Mizael, 34 anos, imaginava isso, mas dizem que o amor é capaz de superar todos os obstáculos e acabar com qualquer preconceito. Inclusive o contra pessoas com ficha criminal. Acredite ou não, o dito popular se fez uma bela verdade na antes tão atribulada vida do ex-detento.

Carlos foi criado pela avó. Nunca conheceu o pai e recebia visitas da mãe uma vez por mês. Começou a usar crack aos 19 anos. Foi preso no dia 28 de julho de 2008 com 90 pedras, quando estava vendendo a droga em Santo Amaro, na área central do Recife. Pegou 13 anos de pena. Diz que continuou se drogando ainda por um ano, quando garante que decidiu parar sozinho “na raça e na fé em Deus”. “Quando a pessoa decide mudar não importa o lugar. Então, lá mesmo no presídio, comecei a trabalhar, a estudar, a me preparar para a vida que queria ter aqui fora”, assegura Carlos.

Ele deixou a prisão no dia 30 de abril de 2014. Quase dois meses depois foi encaminhado pelo Patronato Penitenciário para a Algo Bom. Começou como ajudante na expedição e depois foi transferido para o setor de corte e costura, onde conheceu Luciene Maximiano, 41, que confessou ter tido uma sensação diferente quando o viu pela primeira vez. “Foi muito estranho. Assim que eu o vi meu coração do nada começou a bater bem forte e acelerado. Eu não entendi aquela minha reação. Porque eu até brinco que na ocasião eu o achei feio e gordo”, lembrou Luciene, entre risos, contrariando o tão propalado “amor à primeira vista”.

Enquanto ela tinha dúvida sobre o motivo do coração acelerado, ele tinha uma outra a respeito do estado civil dela, e arrumou um jeito, digamos, criativo de tirá-la. “Eu comprei um bombom e entreguei a ela: ‘Trouxe esse chocolate pra você, irmã! mas espero que seu marido não reclame, se quiser pode comer com ele mais tarde’. Aí ela me respondeu que era solteira, então, eu disse ainda bem”, rememorou o esperto Carlos. Luciene havia saído de um casamento de 12 anos e tinha uma filha de 16.

Daí, eles foram conversando, se aproximando, mas Carlos sabia que seu passado poderia atrapalhar. “Eu imaginava que, por ser um reeducando, ela não iria querer nada comigo. Ninguém quer estar perto, sempre pensam que nós podemos fazer mal”, confessou. Mas Luciene diz que nunca viu isso como um obstáculo. “Eu fiquei receosa só por minha família. Mas quando conheceram Carlos se encantaram, assim como eu. Ele, que foi abandonado pelo pai, foi recebido de braços abertos”, afirmou.

Carlos Mizael conheceu Luciene Maximiano na empresa e três anos depois estavam casados

Eles se enxergaram como casal e caminharam como tal. Namoraram, noivaram no réveillon de 2015 e casaram no dia 17 de janeiro de 2017. Um amor iniciado na empresa e também comemorado nela. Como são evangélicos, fizeram um pequeno culto em uma sala da fábrica dias depois da oficialização do matrimônio, como uma forma de celebrar a união onde ela começou. A funcionária Linda Celma da Silva, 58, que apresentou um ao outro e também comandou o culto, deu o seu testemunho. “O que Deus uniu, preconceito nenhum no mundo é capaz de separar. O amor do irmão e da irmã é verdadeiro e pela honra e glória do Senhor vai permanecer”, pregou Linda Celma.

Hoje Carlos comemora o quanto o emprego mudou completamente a sua vida. Em todos os sentidos. “A gente pode mudar, basta querer. Eu errei, mas o trabalho me deu um novo sentido de vida. Fui recuperado por ele e, principalmente, pelo amor. Quem me faz querer ser uma pessoa melhor a cada dia é a minha esposa, que eu conheci aqui”, disse. Luciene, por sua vez, se mostra realizada com quem outrora parecia feio. “Nós somos prova de que o amor vence tudo, todas as dificuldades e preconceitos. Hoje, sim, eu entendo a razão daquele coração acelerado quando o vi pela primeira vez”, contou Luciene, feliz, de mãos dadas com quem lhe presenteou mais que um bombom.