De que adoecem os rodoviários?


De sonho a pesadelo

Foram 13 anos de estrada que deveriam ter construído a trajetória de um sonho. No fim, sobrou a decepção. É o que conta o ex-motorista de ônibus, Valter Alves Barbosa, aposentado aos 38 anos por invalidez. “Para falar bem a verdade, este é um sonho de criança que eu realizei. Foi dirigir ônibus. Eu digo muito: eu nunca estudei pra ser um médico, um advogado, nada. Minha vontade era dirigir ônibus. E isto virou um pesadelo”. Nos anos em que exerceu a profissão, acabou sofrendo com insuficiência renal. “Eu tive foi pressão alta por causa do trabalho. O estresse foi o que ocasionou, segundo os médicos, o problema renal”, enfatiza o aposentado, hoje aos 44 anos.

A rotina de Valter foi marcada por exaustão, excesso de trabalho e poucas horas de sono. Mesmo morando próximo à garagem da empresa, em São Lourenço Mata, na Região Metropolitana do Recife (RMR), tinha que acordar cedo para realizar as primeiras viagens do dia. “Levantava às 2h30, pegava o bacurau às 3h. Tinha que estar no terminal às 3h46, para pegar a primeira viagem às 4h”. Quando havia hora para largar, era liberado entre 14h e 15h. Se não houvesse um motorista para fazer as outras oito horas de viagens do dia, o jeito era dobrar a carga horária. “Como já aconteceu comigo, de chegar aqui (em casa) aproximadamente meia-noite para sair às 2h30. Tomava um banho, comia alguma coisa e ficava aqui no sofá para não perder o horário novamente”.


Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem


Além das jornadas extras, o motorista tinha que lidar com o estresse e a falta de tempo para descansar nos intervalos das viagens. “A rotina era a seguinte: se desse para ter o café, tomava. Se não desse, não tomava, porque já chegava atrasado devido ao engarrafamento e a gente já enrolava, seguidamente, com outra viagem. Quando dava tempo da gente ter um repouso, tinha. Quando não dava, seguia em frente”. Devido a isto, Valter passou a lidar com sucessivos problemas de saúde. “A pressão sempre estava alta, ânsia de vômito, fastio. Eu fui em vários médicos em São Lourenço, inclusive a empresa me levou uma vez e ocasionou isso aí”, contando sobre seu problema renal.

Em 2012, o ex-motorista se afastou do cargo e começou a fazer hemodiálise em um centro nefrológico em Casa Forte, na Zona Norte do Recife. Durante dois anos e meio de tratamento, ele contou com a ajuda de um amigo para fazer o percurso de quase 30 quilômetros, entre a sua casa e o local de tratamento, três vezes por semana. “Isso eu afirmo com certeza: nenhum aparato da empresa. Nada, nada, nada da empresa. Inclusive eu precisava de carro para me levar, porque a gente fica debilitado por causa da hemodiálise e eles disseram que não tinham condições”, revela.

Hoje, Valter tem um rim transplantado, o qual ganhou há três anos. “A minha rotina é: eu tenho uma caixa de medicamentos, que pego na farmácia do governo, que de vez em quando faltam. São remédios caríssimos e que, segundo o médico, eu vou tomar para o resto da vida, porque o transplante não é uma cura, é um novo tratamento”. Mesmo passando por todo esse processo, o ex-motorista não guarda nenhum atestado em casa dos tempos em que passou doente na empresa. “No caso, se você dá o atestado, paga na sua folga. É como se não existisse o atestado. Muitas das vezes eu trabalhava, justamente com medo de ficar desempregado, porque isto conta para a demissão. Mesmo com o comprovante, eu trabalhava”.

“Rodoviário só ganha doença, só ganha estresse, só ganha decepção”

Onze meses de terror. É desta forma que o motorista Ozéas Marques da Silveira, de 41 anos, descreve o tempo em que passou conduzindo os ônibus da linha 101 – Circular (Conde da Boa Vista/Rua do Sol), da Rodoviária Caxangá, empresa onde trabalhou entre 2006 e 2018. Segundo ele, devido ao grande fluxo de passageiros e ao trajeto, quase sempre engarrafado, seu nível de estresse aumentou muito no período em que estava na linha.

O primeiro desmaio veio em 2012. Estava no horário do café e foi socorrido por um dos colegas de trabalho. Voltou ao volante no outro dia, após liberação do médico. Quase seis meses depois, mais um desmaio. “Era uma carga de estresse muito grande (trabalhar na linha). Depois do segundo desmaio, eu passei três anos e oito meses afastado pelo INSS”, declara Ozéas. A consulta com o primeiro médico indicou que ele tinha um tipo de epilepsia.


Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem


Depois do diagnóstico, Ozéas teve a carteira de habilitação suspensa pelo Detran-PE. Voltou a trabalhar e foi reabilitado como cobrador. Onze meses depois, foi demitido. “Desde que me afastei, não tive mais nenhum desmaio. Procurei outros médicos e perguntei se era por causa do estresse. Uma disse que não e outro disse que sim”, completa. O motorista acabou recuperando a carteira, na categoria B.

Desempregado, o que restou para Ozéas foi a decepção. “Fui pegar minha habilitação e a psicóloga perguntou o que eu queria pro futuro e eu disse que ganhar dinheiro. Porque rodoviário só ganha doença, só ganha estresse. Só ganha decepção”.

A que se devem os adoecimentos?

De acordo com dados do Observatório do Ministério Público do Trabalho (MPT), em Pernambuco, 409 profissionais do transporte rodoviário coletivo de passageiros, com itinerário fixo, municipal e região metropolitana foram afastados, entre 2012 e 2017, por acidentes. O número de afastamentos sobe para 1.015 nos casos de doenças, sendo os problemas osteomusculares e de tecido conjuntivo a principal causa, seguida dos transtornos mentais e comportamentais.

Márcia Bandini, médica e presidente da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), explica que cada profissão tem as vantagens e o risco inerente à rotina do trabalhador. “Esses riscos devem ser reconhecidos e avaliados, para que possam ser implementadas ações preventivas e até corretivas, de forma a fazer com que os trabalhadores adoeçam menos”, comenta.



Ela afirma que, no caso dos rodoviários, e mais especificamente dos motoristas, alguns fatores influenciam para que haja o adoecimento, como o fato de ser um trabalho considerado pesado, com grande responsabilidade (por estar levando passageiros) e de quantidade alta de estresse, devido ao trânsito e aos problemas das metrópoles. “O motorista tem a questão de tempo para cumprir seu trajeto e ainda tem a tensão do risco de violência. Os cobradores também, porque manipulam dinheiro e acabam sendo vítimas de assaltos”.

Márcia também destaca, entre os riscos, os ergonômicos. “No caso do motorista, é agravado por causa dos fatores estressores. É comum que eles tenham mais queixas de dor de coluna e nos joelhos. Como as jornadas são longas e sempre tem o desafio de cumprir no tempo correto, por causa do trânsito, não é incomum que estes profissionais tenham prejudicada a sua rotina”, declara a médica. Segundo ela, os problemas que mais acometem os rodoviários são os do sistema músculo-esquelético, como lombalgias e tensões; os transtornos mentais, principalmente os de ansiedade e a tendência ao sobrepeso e à obesidade.

Para amenizar os riscos, Márcia comenta que é importante que haja o respeito à pausa dos trabalhadores, além do incentivo a uma alimentação mais regrada, à prática de atividade física, com acesso a serviços de saúde mental. “As empresas devem formular programas que incentivem a prática de atividades, com foco no relaxamento e alongamento. É importante um acompanhamento da saúde dos rodoviários para identificar agravos à saúde”.

 


Expediente

1 de maio de 2018

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